Por MANOEL VITOR BARBOSA NETO*
A distância que exclui o Norte do “centro” do futebol brasileiro não é geográfica, mas colonial — uma ficção que sobrevive porque alguns lugares são mais periféricos que outros, dependendo de quem escolhe o referencial
1.
Quando adentrei no ensino médio tive acesso a novas disciplinas escolares, dentre elas a física. Meu primeiro professor de física, tentando atiçar a capacidade da turma de pensar e também de não esquecer coisas básicas para a matéria, tinha, dentre outros hábitos, apresentar um conjunto de pontos e a mesma pergunta: “Qual ponto está mais distante?”. Nas primeiras aulas, no ímpeto de responder, saíam respostas pouco refletidas e equivocadas. A resposta do professor sempre foi a mesma: “Depende do referencial”. Passados mais de 15 anos das suas aulas, a situação colocada por ele, como é possível observar, não foi esquecida.
Em 2025, o Clube do Remo conseguiu o acesso à primeira divisão nacional. A última vez que a equipe disputou a elite foi em 1994, portanto, existem muitas gerações de remistas que não viveram esse momento (incluso a pessoa que escreve este texto). Passada a empolgação do feito e sua divulgação pela imprensa esportiva, as atenções se voltam para “matérias-padrão”: janelas de transferência, adivinhação dos possíveis desempenhos dos times, bastidores do futebol e o deslocamento dos clubes pelo Brasil. No último, devido ao rebaixamento de Ceará e Fortaleza, o Remo reina soberano: “é o time que joga mais longe”, “é o time que mais viaja”, “é o time de descolamento mais cansativo”.
Voltemos então à pergunta de meu antigo professor: “Qual time está mais distante geograficamente no Brasil?” Deixo ao próprio a resposta: “Depende do referencial”. Para muitos jornalistas, consciente ou inconscientemente, o centro, a referência do que é o futebol brasileiro são as regiões sul e sudeste (principalmente essa última), e o resto é periferia, mas “alguns lugares são mais periféricos que outros”. É justamente o caso do norte do Brasil nesta temporada por causa do Clube do Remo, não pelo clube em si, mas pelos “problemas de cansaço” que a viagem ao norte causa aos adversários.
Ainda no final do ano passado, o ex-atleta Luís Fabiano “brincou”[i] (segundo o canal ESPN) que, na época de jogador, torcia para os “times mais distantes” serem logo rebaixados. Coincidência ou não, o atacante, em sua primeira passagem pelo São Paulo, precisou ir algumas vezes a Belém enfrentar o Paysandu.
Essa mentalidade tacanha a respeito das dificuldades causada pela distância e pelo deslocamento até o norte e mesmo até o nordeste tem suas raízes coloniais. Quem prestou atenção às aulas de história nas escolas ou, por interesse próprio, se aprofundou na história da formação de nosso país, sabe que por muito tempo o território que hoje chamamos de Brasil era dividido em duas áreas de dominação colonial, o Estado do Maranhão e o Estado do Brasil.
O primeiro tinha como território o que hoje é a região norte e parte da região nordeste, quanto o segundo abrangia Salvador e as regiões que hoje são o sudeste e o sul do país. Esse sistema durou por mais de um século oficialmente, mas na mentalidade do povo brasileiro ainda se faz presente. Um evento histórico importante sobre a ideia de que o Brasil é o sul e o sudeste, enquanto norte e nordeste seriam outra coisa foi a adesão do Pará a Independência do Brasil, considerado hoje um feriado estadual, faz memória ao fato do Pará, na época, não se reconhecer como pertencente ao Estado do Brasil e preferir continuar sua relação com Portugal a ser submetido ao Império Brasileiro.
2.
Feita a introdução, vamos ao tema central deste texto. Recentemente, foi noticiado que o Clube do Remo estaria em negociação com um atleta inglês de relativo sucesso: Jesse Lingard, meia-atacante inglês, com convocações de seleção no currículo, mas que há duas temporadas atua no futebol da Coreia do Sul. Esse atleta, ao final da temporada brasileira de futebol completará 34 anos, idade que no futebol representa a reta final da carreira, em se tratando de jogadores de linha.
Não tardou a popularização da notícia, a situação logo começou a ser tratada como uma coisa “inusitada”, “aleatória”, termos muitas vezes utilizados para tratar de algo que é tido ao mesmo tempo como incomum e exótico. O fato de um jogador inglês poder assinar com o Remo foi tratado por algumas matérias dessa forma, mesmo a equipe tendo em seu elenco atualmente um jogador grego também com passagens pela seleção nacional (talvez, pelo fato da temporada passada o time jogar a segunda divisão, a imprensa esportiva que cobre apenas a elite do futebol nacional desconhecia ou simplesmente ignorou o assunto).
Esse tratamento chama ainda mais atenção, quando sabemos que cada vez mais atletas estrangeiros atuam em nosso país. A título de informação, uma matéria publicada no ano passado pelo portal GE[ii] dava conta de informar que no Brasil há mais de 200 atletas estrangeiros atuando nas séries A, B, C e D. Dentre esses atletas, matéria identificou jogadores de nacionalidade portuguesa, espanhola, francesa, sueca, belga, etc., e, lembremos também que o atual atacante da seleção holandesa Memphis Depay está atuando no Corinthians.
Esses dados sugerem uma nova fase do futebol brasileiro que, ao aumentar seu poder aquisitivo tem cada vez mais se tornado um destino atrativo também para jogadores europeus e não mais apenas para atletas sul-americanos como estávamos habituados. É nesse contexto, e jogando em 2026 na elite do futebol brasileiro, que o nome do inglês Jesse Lingard passou a ser viável para o Clube do Remo.
No entanto, para um jornalista inglês que reside no Brasil desde 1994 e cobre o futebol brasileiro para a imprensa esportiva brasileira e também estrangeira, seria uma atitude arriscada para a carreira do jogador a possível ida para o Remo, o motivo, quem poderia imaginar?! A “distância”, não somente geográfica, mas também qualitativa.
Conforme matéria, publicada em TalkSPORT, intitulada “‘Hard slog’ – Jesse Lingard warned over shock transfer to little-known side”[iii] (“Contexto difícil” – Jesse Lingard é alertado sobre transferência para clube pouco conhecido”, tradução livre), o Clube do Remo está distante geograficamente e qualitativamente do centro do futebol brasileiro que, para ele, é o sudeste do Brasil[iv], o “heartland” (centro vital, tradução livre).
Na matéria também é sugerido ao jogador levar as negociações com o clube em “banho-maria” para ver se aparece uma proposta mais “atrativa” no Brasil ou em outro lugar. “What I wonder, this is putting on my Dick Dastardly and his snickering hound hat, because what I would do in the circumstances is draw the negotiation out a little bit, see if anyone else comes through. “Maybe there’ll be more Brazilian clubs… that’s what I would do in his situation” (“O que eu penso, isto é,fantasiando-me de Dick Vigarista e empunhando o seu chapéu, já que é o que eu faria nessa circunstância, é adiar a negociação um pouco, ver se há o interesse de outros”. “Talvez haja mais clubes brasileiros. Enfim, eu esperaria se estivesse em sua situação”).
O atleta resolveu seguir o conselho do jornalista e assinou contrato com um time da cidade de São Paulo, o Corinthians.[v]
A fim de reforçar o “exotismo” de uma possível ida a um clube do norte do Brasil, sem mencionar contexto nenhum, ele cita um causo do futebol brasileiro acerca de um atleta que ao viajar até a capital do Pará para enfrentar uma das equipes da cidade, deu uma entrevista dizendo estar contente por jogar Belém do Pará, “a terra em que Jesus nasceu”.
Geralmente, esse causo é atribuído a um ex-atacante do Internacional, Valdomiro, que atuou na década de 1970, mas se realizarmos uma rápida investigação na internet, veremos que essa tal entrevista é atribuída a pelo menos outros dois jogadores brasileiros e mesmo a um jogador que foi atuar por uma equipe portuguesa, o Belenenses. No chamado “folclore do futebol”, essa é uma das inúmeras falas que todo mundo ouviu, mas que ninguém disse.
Pergunto-me se, caso a notícia vinculasse um clube gaúcho como Internacional ou Grêmio, ou um clube paranaense como Coritiba ou Atlhético-PR ao atleta inglês, se haveria essa preocupação, já que são do sul, porém, não são o “centro” do futebol brasileiro. Provavelmente não, pois alguns lugares são mais periféricos que outros.
Se fosse para haver algum questionamento sobre a negociação com o atleta seria mais coerente questionar se Jesse Lingard teria condições de disputar o campeonato brasileiro, considerado em 2025 pela Federação Internacional de História e Estatística do Futebol, a terceira melhor liga de futebol, atrás apenas da Inglaterra e da Espanha e na frente de Itália, Alemanha e França, enquanto a liga coreana, onde estava Jesse Lingard, ocupa a 38º posição, atrás de países como Costa Rica, Chipre e Azerbaijão,[vi] lembrando ainda, a “idade avançada” do jogador para o padrão de exigência do esporte.
Independente da contratação de Jesse Lingard ou de qualquer outro europeu se concretizar no Clube do Remo, o mais importante é superar esta compreensão arcaica e excludente do futebol brasileiro e sua “distância” ou então, propor uma outra forma de fazer o torneio nacional.
Considerando a segunda proposta, talvez pudessem se inspirar na liga americana de basquete em que a elite é dividida em dois grandes grupos (Conferência Leste e Conferência Oeste), no caso brasileiro o Grupo Norte-Nordeste e o Grupo Sul-Sudeste-Centro-Oeste para matarem a saudade da época da Colônia, mas destinando o mesmo número de vagas em competições internacionais para cada “conferência brasileira” com uma final entre o primeiro de cada grupo, sem o “incômodo do norte” para o “heartland of Brazilian football” (centro vital do futebol brasileiro), mas ainda assim, não acabaria com o “problema da distância”, pois, como dizia meu professor, ela depende do referencial.
*Manoel Vitor Barbosa Neto é mestre em Ciência da religião pela Universidade Estadual do Pará (UEPA) e professor de Ensino religioso da rede estadual do Amazonas.
Notas
[i] <https://www.youtube.com/shorts/xRgiqgd57K8>
[ii] <https://ge.globo.com/pb/futebol/noticia/2025/06/13/memphis-depay-takahashi-series-a-b-c-d-brasileirao-reunem-estrangeiros.ghtml>.
[iii] Disponível em: <https://talksport.com/football/3996106/jesse-lingard-transfer-remo-man-united/>.
[iv] Disponível em: <https://somosfanaticos.fans/br/futebol-brasileiro/lingard-e-orientado-a-frear-negociacoes-com-o-remo-para-ouvir-outros-clubes-do-brasil>.
[v] https://www.gazetaesportiva.com/times/corinthians/saiba-o-que-falta-para-o-corinthians-anunciar-jesse-lingard/
[vi] Disponível em: <https://iffhs.com/posts/4862>.






















