O lago encantado de Grongonzo

Imagem: Paulo Monteiro / Jornal de Resenhas
image_pdf

Por AFRÂNIO CATANI*

Comentário sobre o livro de Marilene Felinto

Não imaginem que O lago encantado de Grongonzo, o segundo romance da escritora, jornalista e tradutora Marilene Felinto, seja leitura fácil, dessas que podem ser lidas de forma desatenta. Marilene não é de fazer concessões. Basta ver As mulheres de Tijucopapo (1982), seu premiado e elogiado romance de estreia e, também o livro Graciliano Ramos: outros heróis e esse Graciliano (1983), biografia polêmica e original do grande escritor nordestino. Tradutora de Conrad e de Shaw, é revelação poderosa na prosa.

O tema de Grongonzo não é um só, são vários, interligadíssimos: a amizade, a ruindade (nossa e dos outros), a raiva como possibilidade amorosa. Isso tudo é trabalhado a partir da história de Deisi, que relembra, reconstitui, reavalia e revive seu passado. Deisi está em Grongonzo, esse lugar que transforma “mulheres em pedras”, o seu “território” quase crítico, onde passou a infância, à espera de amigos – Lena, Estefânia e Demian, ex-namorado, de quem se separara espontaneamente.

Deisi e outros irmãos foram criados pela avó na violenta Grongonzo dos “tempos do onça”, cidade de “quatro armas”, onde todos eram militares e a criançada “filhos de uma ou outra patente”. Deisi era filha de marrons, de fuzileiro naval. Havia filhos de soldados rasos e verdes, de cabos brancos, de sargentos, de tenentes azuis da Aeronáutica. Estudavam juntos no mesmo “Patronato Maria Tereza” (p. 49).

Muito cedo aprende a manejar seu bodoque de talo de goiabeira e tiras de pneu, arma indispensável para sua sobrevivência e para extravasar os rancores. Não aceita trocar seu bodoque por um lápis de borracha na ponta e não dá moleza para os filhos dos tenentes que no colégio se metiam a falar bem, “a não se misturar com ninguém” e, suprema ousadia, a fazer versos nas aulas, com tal arrogância, “como se as palavras fossem azuis, fossem de quem nasceu bem”. Ela e seus amigos, aos bandos, se acoitavam nas touceiras de capim e munidos de bodoques em V e cartucheiras carregadas de sementes de carrapateira, abriam fogo contra os gostosões, filhos dos oficiais. O rancor como moral para os jacobinos rurais.

A exemplo dos amigos, a relação que mantêm com a avó que a criou é de amor e ódio. A velhinha lhe fornece, porém, um guia seguro de sobrevivência, através de provérbios, frases-feitas e palavras (“fazia palavras, apenas. Que até matavam pessoas”): “cada cabeça é um mundo”; “fede que só catinga de aruá”; “besta é caju, que nasce com a cabeça pra baixo”; “aqui se faz, aqui se paga”; “eu te piso, eu te repiso, eu te reduzo a granizo”. A avó quase lhe matava (logicamente com palavras), ao exprimir o que pensava a respeito da neta mais velha: “tão cheia de ruindade essa menina, da ponta do cabelo ruim até o dedo do pé sujo”.

Mais se poderia falar a respeito de O lago encantado de Grongonzo, mas acho que dá para parar por aqui. Marilene dá o seu recado numa linguagem próxima da linguagem oral, frases curtas – na maioria das vezes os períodos não ultrapassam uma linha –, registrando o que a sua personagem diz, pensa ou o que mal formula. E o faz com a precisão de um atirador de elite, disparando palavras mortíferas, rancorosas, mas de uma quase intratável ternura: “as palavras carbúnculo” em que Mário de Andrade via a possibilidade e o princípio de “um carinho diamante”.

*Afrânio Catani é professor aposentado na USP é professor visitante na UFF.

Publicado originalmente no extinto Leia Livros. São Paulo. Ano IX, setembro, 1987, p. 30.

 

Referência


Marilene Felinto O lago encantado de Grongonzo. Rio de Janeiro: Guanabara, 1987.

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Sobre as avaliações quadrienais da CAPES
14 Jan 2026 Por THIAGO CANETTIERI: Ao buscar mensurar o imensurável, o sistema CAPES reproduz uma engrenagem de sofrimento e competição que ignora a verdadeira natureza do trabalho intelectual e pedagógico
2
No caminho do caos
16 Jan 2026 Por JOSÉ LUÍS FIORI: O direito à guerra das grandes potências, herança westfaliana, acelera a corrida ao abismo e consolida um império do caos sob a hegemonia norte-americana
3
O sequestro de Nicolás Maduro à luz da história
18 Jan 2026 Por BERNARDO RICUPERO: A operação contra Maduro revela a hegemonia dos EUA na América Latina em transição: de uma combinação de consentimento e coerção para o predomínio da força bruta, característica de uma potência em declínio
4
Augusto Boal – oito peças inéditas
15 Jan 2026 Por STEPHANIE DA SILVA BORGES: No exílio francês, Augusto Boal levou o Teatro do Oprimido a novos patamares, escrevendo peças que traduzem opressões do "primeiro mundo" e transformam o impasse social em potência cênica
5
Guerra à vista?
15 Jan 2026 Por LISZT VIEIRA: A escalada militar trumpista, marcada pela invasão da Venezuela e ameaças unilaterais, transforma a soberania nacional em concessão da potência hegemônica e espalha a gasolina para um incêndio global
6
Hamnet – a vida antes de Hamlet
19 Jan 2026 Por JOÃO LANARI BO: Comentário sobre o filme dirigido por Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
7
Marx e o Estado
16 Jan 2026 Por ARI MARCELO SOLON & ALEXANDRE DE LIMA CASTRO TRANJAN: Comentário sobre o livro, recém-lançado, de Rafael Padial
8
O panorama científico brasileiro
20 Jan 2026 Por MÁRCIA REGINA BARROS DA SILVA: Mais do que uma trajetória de ausências, a história das ciências no Brasil é um complexo entrelaçamento entre poder, sociedade e conhecimento, revelando uma busca por modos próprios de fazer e pensar
9
Mapa da desigualdade informacional
19 Jan 2026 Por MARCIO POCHMANN: A desigualdade informacional nasce quando os dados granulares do século XXI residem em oligopólios privados, enquanto o Estado luta para manter a legitimidade e comparabilidade das estatísticas oficiais
10
Venezuela – epitáfio para uma revolução?
19 Jan 2026 Por LUIS BONILLA-MOLINA & OSVALDO COGGIOLA: A intervenção estadunidense consuma a transformação da Venezuela em protetorado colonial, sepultando o projeto bolivariano sob uma transição que institucionaliza a pilhagem e a submissão
11
A China diante do caos e de Taiwan
21 Jan 2026 Por ELIAS JABBOUR: A reunificação com Taiwan é apresentada como tendência histórica irreversível, onde o "pacífico" desaparece do léxico, e a China acelera sua integração econômica e preparo militar ante o caos global fomentado pelos EUA
12
A mídia de massa no capitalismo
16 Jan 2026 Por LEOJORGE PANEGALLI: A indústria cultural gerencia o cansaço do Eu e a fantasia do herói, mas seu sucesso também expõe uma fome subjetiva por narrativas de resistência coletiva e justiça, traindo um impulso revolucionário adormecido
13
A geopolítica em 2026
18 Jan 2026 Por DMITRY TRENIN: O cenário de 2026 aponta para uma confrontação prolongada e fragmentada
14
O declínio da família no Brasil
21 Jan 2026 Por GIOVANNI ALVES: A explosão de lares unipessoais e a adultescência prolongada são duas faces da mesma moeda: a desintegração da família como infraestrutura antropológica, substituída por uma solidão funcional ao capital financeirizado
15
Responsabilidade intelectual e responsabilidade política
14 Jan 2026 Por LUIS FELIPE MIGUEL: A responsabilidade intelectual exige lucidez crítica sobre todos os lados do poder, recusando a manipulação seletiva da verdade em nome de supostas causas superiores
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES