O mundo vindouro

Imagem: Georgios Kaleadis
image_pdf

Por IVONALDO NERES LEITE*

O tempo não é só o número do movimento, mas a narrativa que tecemos com nossos acontecimentos, e a utopia concreta que construímos no agora, rumo ao mundo vindouro

1.

A noção de tempo acompanha a humanidade desde sempre. Contudo, a sua conceituação, não é de fácil formulação, tendo em vista que, em diferentes contextos, o tempo tem significações muito diversas.

Dizia Agostinho de Hipona que há consciência do que é o tempo; porém, basta tentar expressá-lo em palavras e já não se sabe do que se trata[1]. Por vezes, ele é percebido como a trágica renúncia de possibilidades, a vida inteira que poderia ter sido, mas não foi, segundo as palavras de Manuel Bandeira no poema Peneumotórax.[2] Outras vezes, o tempo é sentido como portador de possibilidades inesperadas.

Há casos em que as coisas duram apenas segundos, mas consubstanciam momentos que valem uma vida ou, conforme a célebre frase do personagem cego Frank Slade (Al Pacino) no filme Perfume de mulher: “em um momento, vive-se uma vida”. No entanto, há momentos, também, em que os segundos podem demorar um “século”, e não têm significação ontológica.

Diante do tempo, há milhares de palavras. Contudo, as perguntas a seu respeito se mantêm e se multiplicam, questionando, por exemplo, se ele realmente existe ou se é um conceito que nós criamos para acomodar as inquietações sobre as quais há mais mistério do que conhecimento[3]. Não só isso. Várias outras indagações emergem, como: Em quantos sonhos, por causa do tempo, os seres humanos já se viram enredados? Qual é o significado do tempo estampado no rosto, na fala e nos gestos?

As palavras que brotam, os olhos que deambulam entre elas, os sentidos do presente, que não são mais os mesmos de antes, o pensamento e as suas realizações, são obras do tempo? O poder manter-se-ia sem o tempo no qual ele se expressa? No vazio da sua ausência, haveria o ideal de liberdade e de transformação? Enfim, haveria vida sem o tempo?

A polissemia em torno do assunto é grande. Por exemplo, como realçou Fraser[4], o símbolo t dos físicos é falaciosamente simples como representação daquilo que entendemos por tempo. Pode ter utilidade em expressões formais, sem o seu significado ser questionado. Porém, se indagarmos de que modo se supõe que esteja relacionado com o que conhecemos no íntimo como nossa existência no tempo, seremos, por certo, remetidos à psicologia. Mas, sendo esta uma ciência que lida principalmente com os processos mentais, quase nada tem a dizer sobre o símbolo t dos físicos.

Dessa forma, poderíamos ir até a filosofia, indagando sobre as relações do sentimento de duração. É mister reconhecer que a filosofia tem muito a contribuir no que diz respeito ao equacionamento do problema do tempo, mas também é de se registrar que ela esbarra em certas antinomias, como a relativa ao modus operandi metafísico e às manifestações concretas da realidade.

2.

A História é, provavelmente, uma das ciências onde o tempo ocupa uma posição de ‘pedra angular’, dado que, como realçou Marc Bloch, ela é “a ciência do ser humano no tempo”.[5] A História tem em atenção a existência de um tempo cronológico, constituído em torno de convenções e de uma referência que é a medida da volta da terra em torno do sol (translação) ou do giro da terra em torno de seu próprio eixo (rotação).

Tal convenção serve para computar o tempo cronológico baseado em um calendário, e é característico da civilização ocidental, pois outras civilizações seguem um calendário lunar ou lunissolar, como é o caso do calendário judaico.

Conforme é próprio do tempo histórico, o presente relaciona-se ao passado, e o historiador não abdica de refletir sobre o futuro e de fazer previsões a seu respeito. De uma referência que, sendo um marcador, acompanhava o nascer e o pôr do sol, aos poucos, o tempo passou a nortear o controle do ritmo da vida quotidiana.[6] Mais contemporaneamente, verifica-se um predomínio da textualização do tempo, quer dizer, a utilização da linguagem dando vida à temporalidade. Expressões como duração, transcurso, continuidade, ontem, hoje, amanhã, instante, etc., evidenciam uma relação entre o ser e o tempo, sob a mediação da linguagem.

Sem a linguagem, percebe-se o tempo, mas ele carece de significação. Eventos como nascer, crescer, amar, transformar-se, morrer, etc., são percebidos na temporalidade e registram marcas no ser, com ele, ao longo da sua existência, produzindo modos de identificá-las e compreendê-las.

Do ponto de vista da inteligibilidade histórica, a depender da forma de se conceber a relação entre passado, presente e futuro, predomina um tipo de representação, direção e sentido do tempo. Desse modo, ele pode ser concebido conforme a seguinte compreensão: (i) linear: o passado precede o presente, que precede o futuro; (ii) teleológico: o futuro está posto primeiro, molda o passado e o presente, pois é nele que estes têm seu fim.

(iii) presentista: o presente predomina, conforme a lógica do carpe diem e da eternidade do instante; (iv) ramificada, isto é, cada presente abre ramos diversos ao futuro, oferecendo às pessoas distintas possibilidades de escolha de ruptura e de redirecionamento em relação ao passado; (v) concêntrica: é assinalado que não há assimetria entre passado e futuro, mas, sim, uma unidade articulada, com o futuro tornando o presente o processo de ter sido.[7]

3.

Estamos em presença, possivelmente, do que Robert Koselleck chamou de ‘estratos do tempo’, isto é, os diferentes níveis de estratificação temporal relativos às estruturas de velocidade de mudança concernentes aos fenômenos históricos, tal qual eles são experienciados em sua época. Conforme as palavras do próprio Robert Koselleck: “Assim como ocorre no modelo geológico, os ‘estratos de tempo’ também remetem a diversos planos, com durações diferentes e origens distintas, mas que, apesar disso, estão presentes e atuam simultaneamente. Graças aos ‘estratos de tempo’, podemos reunir em um mesmo conceito a contemporaneidade do não contemporâneo, um dos fenômenos históricos mais reveladores. Muitas coisas acontecem ao mesmo tempo, emergindo, em diacronia ou em sincronia, de contextos completamente heterogêneos”.[8]

Tenha-se em conta, ademais, que, ao lado do tempo cronológico, há outro que expressa os aspectos biológicos dos indivíduos, e que, embora não imperativamente coincida com o tempo da sociedade, com ele interage/relaciona-se. Este é o terreno dos ritmos circadianos, isto é, das mudanças físicas, mentais e condutivas que seguem um ciclo de 24 horas. Processos naturais que envolvem os seres vivos, ritmos que são um componente essencial da homeostase.

Não obstante a polissemia em torno do conceito de tempo, ao que parece, é no regresso às antigas civilizações que encontramos um marco balizador do seu significado e que, simultaneamente, propicia base para o devir humano. Refiro-me a substratos da civilização grega, assimilados pelo latim e ancorados no hebraico com ‘um plus’.

Foi Aristóteles quem definiu o tempo como ‘o número do movimento segundo o antes e depois’ (arithmós kinéseôs katá tó próteron kai ýsteron), ou seja, o tempo é entendido não como uma entidade separada ou um palco onde acontecimentos têm lugar, mas sim como uma propriedade inseparável do movimento e da mudança. Tomás de Aquino incorporou no latim/escolástica tal definição como numerus motus secundum prius et posterius, isto é, o contar do movimento conforme o antes e o depois: medida ou contagem de mudanças e sucessões.

O aporte inovador acrescentado à referida concepção pelo hebraico consiste em que ele atribui uma duplicidade de sentido ao termo contar. Quer dizer, da ação expressa pelo verbo contar tanto pode resultar uma conta como se pode produzir um conto: “enumerar e narrar são sentidos igualmente acessíveis e implicados de forma alternativa e complementar no termo hebraico para contar (sapar, de onde resulta mispar, ‘número’ e sippur, ‘narração’). Com a numeração oferece-se a seriação, a imagem de teor físico do tempo; com a narração, define-se o seu conteúdo enquanto acontecimento”.[9]

Com efeito, no espaço mental do judaísmo, o tempo, mais do que ser entendido como enumeração formal dos acontecimentos, tende a identificar-se, principalmente, com o próprio conteúdo e significado que eles representam e com o ‘sabor’ vivencial que, em nós, deixam. O tempo é visto e ponderado, sobretudo, de acordo com o teor dos acontecimentos que o preenchem e nos quais ele se consubstancia.

4.

Temos, então, uma concepção de tempo que é tempo-acontecimento, e que avoca para si um espaço que constitui o âmbito local para cada um dos acontecimentos projetados e para a totalidade do devir. São postulados como esse que alimentam a corrente do judaísmo laico e humanista, referenciando-se em nomes como o do rabino Sherwin Wine,[10] enfatizando que o judaísmo é, antes de tudo, uma cultura.

Essa perspectiva, a par da concepção de tempo-acontecimento, tem presente a expressão hebraica ha-olam ha-ba (‘o mundo vindouro’) como correlativa com a ha-olam ha-zeh (‘este mundo’), para colocar em evidência a dimensão de uma dialética utópica como aposta em outro mundo.

A expressão ha-‘olam ha-ba’ não equivale propriamente a além. Daí a sua característica de ‘projeto utópico concreto’ a ser alcançado: “A expressão significa […] um mundo que vem na própria intensidade do desejo que o requer; é sobretudo um equivalente da utopia. No entanto, em vez de a utopia estar simplesmente representada, como acontece prevalentemente nas suas versões mais correntes, ela encontra-se mais intensamente formulada e quase garantida com uma característica de realismo inoculado pela declaração de que se trata de um mundo cuja chegada se está a preparar”.[11]

É evidente que a definição da contagem do tempo, o antes/ depois, e o que é narrado, o tempo-acontecimento, dependem de outras variáveis, designadamente concernentes a interesses em jogo, matrizes culturais, relações de poder, disputas políticas, etc. O próprio fato de o calendário cristão se encontrar anunciando o início do ano de 2026, enquanto o calendário judaico está a marcar o ano 5786, é muito revelador a esse respeito.

Mas, aqui, o que está em foco é um modo de conceber o tempo, ou seja, ele não é entendido como uma entidade desconectada do escopo dos acontecimentos. Como uma espécie de palco à parte dos fenômenos e das relações que movimentam a sociedade. Ele existe como narração materializada no que acontece.

Compreender o tempo sob essa ótica permite ter outra perspectiva para o início de cada novo ano, seja em que calendário for. Tanto para o 2026, do calendário cristão, quanto para o atual 5786, do calendário judaico ou para outro qualquer, como o calendário islâmico, que está a marcar o ano 1477. A referida perspectiva para cada novo ano significa, por exemplo, a disposição para transcender a si mesmo, enfrentar as aporias existenciais e, como canta o Gilberto Gil, ‘transformar as velhas [e antiquadas] formas do viver’.

Trata-se de uma aposta em si próprio e no próximo, isto é, nos termos de Sherwin Wine: Onde está a minha luz? A minha luz está em mim/Onde está a minha esperança? A minha esperança está em mim/Onde está a minha força? A minha força está em mim – e em você. Em busca de um novo tempo: Ha-olam ha-ba, o mundo vindouro.

*Ivonaldo Neres Leite, sociólogo, é professor no Centro de Ciências Aplicadas e Educação da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Notas


[1] IBÁÑEZ, Eduardo. Historicidad e irreversibilidad en la concepción prigoginiana y agustiniana del tiempo. In: . Associación Revista de Filosofia de Santa Fe – Instituto de Filosofia/UCSF, Santa Fé/Argentina, 2010.

[2] BANDEIRA, Manuel. Meus poemas preferidos/Manuel Bandeira. São Paulo: Ediouro, 2002.

[3] CARVALHO, Rodrigo F. Entrelaçamentos entre Bergson e Prigogine: tempo, ciência e natureza. In: Revista de História da UEPG, v. 1, nº 1, p. 103-118.

[4] FRASER, Julius T. Introduction. In:          (Org.). The voices of time: A cooperative survey of man’s views of time as expressed by the sciences and by humanities. 2 ed. New York: Georg Braziller, 1981.

[5] BLOCH, Marc. Apologia da história ou o ofício do historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

[6] LE GOFF, Jacques. Na Idade Média: tempo da Igreja e o tempo do mercador. In:             . Para um novo conceito de Idade Média. Lisboa: Editorial Estampa, 1995.

[7] REIS, José Carlos. Nouvelle Histoire e o tempo histórico: a contribuição de Febvre, Bloch e Braudel. São Paulo: Annablume, 2008. Também da sua lavra: História, a ciência dos homens no tempo. Londrina: Eduel, 2009.

[8] KOSELLECK, Robert. Estratos do tempo. Rio de Janeiro: Contraponto/PUC-Rio, 2014, p. 9.

[9] RAMOS, José Augusto Martins. O espaço do tempo, segundo o judaísmo. Cultura: Revista de História e Teoria das Ideias, Lisboa, vol. 23, 2006, p. 2.

 [10] WINE, Sherwin. Judaism Beyond God. Lincolnshire, IL: International Institute for Secular Humanistic Judaism, 1995.

 [11] KOSELLECK, Robert, op. cit., p. 14.

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Cuba, a Espanha do século XXI
21 Feb 2026 Por GABRIEL COHN: A inação diante de Cuba repete o erro fatal de Munique: apaziguar o agressor só adia a guerra e a torna mais devastadora — a história não perdoa os que se calam diante do fascismo renascente
2
Bad Bunny
21 Feb 2026 Por NICOLÁS GONÇALVES: Quando a diversidade cabe no palco, mas não ameaça a estrutura, a celebração vira forma de controle
3
Triste Alemanha
20 Feb 2026 Por FLAVIO AGUIAR: Na Alemanha de hoje, o silêncio virou virtude — e a crítica, crime
4
Deslocamento geoeconômico e populacional
25 Feb 2026 Por MARCIO POCHMANN: O Brasil vive uma silenciosa marcha para o interior, impulsionada pela desindustrialização das metrópoles e pela expansão do modelo primário exportador, redefinindo população, trabalho e território
5
Escolas cívico-militar
21 Feb 2026 Por LAURO MATTEI: Cinco anos após sua expansão, o modelo cívico militar mostra-se um fracasso pedagógico e um risco social, marcado por autoritarismo, abusos e violação de direitos
6
Economia política da avaliação acadêmica
19 Feb 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: Sob a aparência de métricas neutras, o sistema premia a conformidade e transforma o conhecimento em capital simbólico, gerando intelectuais performáticos
7
“Pejotização” como forma de exploração do trabalho
23 Feb 2026 Por JORGE LUIZ SOUTO MAIOR: O fato é que a reiterada desconsideração dos termos expressos da Constituição por Ministros do STF, para o efeito de esvaziar a rede de proteção jurídica trabalhista, em prol do atendimento dos interesses do setor econômico, se tornou ainda mais alarmante e grave com a notícia de que nove entre dez Ministros são sócios de pelo menos 31 empresas
8
A herança das luzes
18 Feb 2026 Por GABRIELA MALESUIK ARAGÃO BARROS: Considerações sobre o livro de Antoine Lilti
9
Por que os homens continuam a matar as mulheres?
25 Feb 2026 Por EVA ALTERMAN BLAY: A violência extrema contra mulheres é uma reação brutal de um sistema patriarcal acuado diante da revolução feminista e da ampliação de direitos
10
Arte da aula
17 Feb 2026 Por JOÃO ADOLFO HANSEN: Artigo publicado em homenagem ao professor e crítico literário recém-falecido.
11
Manifesto contra o PLP 152/2025
21 Feb 2026 Por VÁRIOS AUTORES: Sob o discurso da modernização, o PLP 152/2025 institucionaliza a precarização, nega o vínculo empregatício e legitima a subordinação algorítmica como novo padrão de exploração do trabalho
12
Revoluções Brasileiras: resumos históricos
24 Feb 2026 Por DANIELLE CREPALDI CARVALHO, FRANCISCO FOOT HARDMAN & VERA LINS: Texto do Novo Prefácio a Revoluções Brasileiras: resumos históricos, de Gonzaga Duque, lançado pela Editora Unesp
13
O Irã deve se opor aos EUA e a Israel
24 Feb 2026 Por LEILA MOUSSAVIAN-H UPPE: A crise no Irã expõe a falência do regime teocrático, mas a ameaça de intervenção imperialista torna a luta popular um campo minado entre a repressão interna e a captura externa
14
Rescaldo das cinzas do carnaval
23 Feb 2026 Por JEAN MARC VON DER WEID: Fui até a Marques do Sapucaí para ver a reação do público ao enredo da Acadêmicos de Niterói e até me armei de um celular baratinho para filmar eventuais agressões de bolsonaristas. O desfile tinha um a priori favorável pela beleza do samba e a bela forma de colocar o foco na história memorável de Lula
15
Plataformas digitais: um debate também marxiano
24 Feb 2026 Por GUILHERME BRANCO: A economia das plataformas reacende Marx, divide Varoufakis e Haddad e revela que a controvérsia central não é tecnológica, mas teórica
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES