Por CARLOS JULIANO BARROS & LEONARDO SAKAMOTO*
Introdução dos autores ao livro recém-lançado
1.
Acordar cedo, abrir o aplicativo, torcer por uma corrida minimamente lucrativa. Em muitos lares brasileiros, é assim que começa o expediente. Não há crachá, jornada delimitada ou mesmo certeza de ganho justo ao fim do dia – apenas a esperança de que o patrão-plataforma sorria com boas oportunidades ao longo de 12, 14 ou 16 horas de labuta. E, com sorte, que as corridas cubram a gasolina, o seguro, o cafezinho, a conta do celular, a depreciação – e, claro, o tempo longe da família.
O trabalho no Brasil está em transe. Mas não é um transe místico, transcendental, transformador. É um transe induzido – pela tecnologia, pela ideologia do empreendedorismo compulsório, pela lógica do mercado que substitui a dignidade por eficiência, e pelos governos que terceirizam a responsabilidade de zelar por condições dignas, ao mesmo tempo em que terceirizam o próprio Estado. É um transe no qual trabalhadores assistem impotentes à própria precarização, enquanto parte deles aplaude o discurso que os marginaliza.
Este livro é composto de reportagens e textos de opinião escritos nos últimos quatro anos, e originalmente publicados no portal UOL, que hospeda nossas colunas, e na Repórter Brasil, organização da qual fazemos parte.
Os artigos foram selecionados e editados para transmitir um amplo panorama do desafio pelo qual todos passamos. Esta obra nasce da necessidade de refletir sobre as engrenagens dessa metamorfose. O objetivo não é publicar um panfleto sobre um mercado de trabalho que sempre foi injusto, mas mostrar que o supostamente novo pode ser ainda pior.
A precarização do trabalho no Brasil de hoje não vem apenas vestida de botina suja, nem é materializada por ordens ríspidas no chão da fábrica. Ela chega por notificação “push”, com emojis sorridentes, além de termos em inglês e algoritmos obscuros. É mais sofisticada, mais sedutora, mais impune.
Aqui, cada capítulo é um espelho, às vezes trincado, outras vezes quebrado, de uma sociedade que insiste em fingir que precarização é sinônimo de liberdade. Que trabalho sem direitos é autonomia. E que a luta por dignidade é “chororô de sindicalista”.
Nas páginas que seguem, você verá como gente influente e poderosa do Brasil tenta convencer milhões de trabalhadores que perderam carteira assinada, férias, 13º e aposentadoria, de que eles agora são “patrões de si mesmos”. E, se fracassarem, é porque não estão se esforçando o suficiente.
2.
Você vai analisar notícias sobre uma geração inteira empurrada a viver como PJ, MEI, CLT Flex, ou qualquer outro eufemismo para “sem direitos”. Jovens que até se orgulham da liberdade de trabalhar de casa, mas não escondem a ansiedade de saber se terão renda no mês seguinte. Pessoas que fazem branding pessoal no Instagram enquanto pagam a própria terapia parcelada.
Vamos discutir como o discurso do “faça o que ama e nunca mais terá que trabalhar” se transformou na maior armadilha do século. Porque, no fim das contas, você vai sim continuar trabalhando, e muito. A diferença é que tem gente que vai fazer isso sorrindo para uma câmera, dizendo “boa noite, seguidores”, enquanto o algoritmo decide se você merece ou não pagar o aluguel no fim do mês.
Vamos tratar também de um Brasil que teima em ser arcaico e convive com o trabalho escravo, em pleno século XXI. Um país que tolera adolescentes carregando toras na Amazônia ou lavando pratos em restaurantes do Sul do país, em troca de comida. Uma nação com autoridades bradando que “trabalho infantil ajuda na formação do caráter”.
A ideia deste livro é confrontar, não confortar. É mostrar que o culto ao empreendedorismo, não raro, disfarça o desmantelamento do Estado. Que a informalidade não é uma escolha, mas uma condenação. Que não existe meritocracia onde não há igualdade de oportunidades. Que pode até ser ruim com sindicato, mas é bem pior sem.
E que não, não basta “correr atrás” ou “ter foco, força e fé”. Ao longo dos capítulos, você também mergulhará no impacto da uberização, na armadilha das big techs, no apagamento do trabalhador criativo substituído por algo ritmos, no adoecimento de quem é obrigado a vestir terno e gravata em ondas de calor de 40 graus Celsius, e na de sumanização daqueles que, em vez de receber salário, são pagos em “exposição”.
A pergunta não é apenas “para onde vai o trabalho?” É “para onde vai o trabalhador e a trabalhadora?” Pelo andar da carruagem, eles continuarão sendo empurrados para a informalidade, a exaustão e o adoecimento mental.
É hora de parar de se iludir com “mindset de sucesso” e encarar a realidade com coragem: o trabalho mudou, sim. Mas não foi para melhor para todos. O glamour da chama da “gig economy”, a economia dos bicos, esconde a lógica perversa de descarte humano. E, enquanto a sociedade seguir hipnotizada pelo discurso da liberdade individual, a roda vai continuar girando – só que sempre sobre as costas dos mesmos.
Este livro é um tapa na cara no meio do expediente. Um lembrete de que ainda dá tempo de acordar e lutar por um país em que trabalhar não seja sinônimo de sofrer. Onde empreender não seja um mero disfarce para a precarização, mas um caminho trilhado por pessoas que realmente trazem inovações para a sociedade.
Onde direitos não sejam vendidos como privilégios. E onde o futuro não seja apenas um slogan no LinkedIn, mas um projeto coletivo, justo e digno. O Brasil está em transe. Mas o trabalhador não pode mais dormir.
*Carlos Juliano Barros é jornalista e mestre em Geografia pela Universidade de São Paulo (USP).
*Leonardo Sakamoto é jornalista e doutor em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP).
Referência

Carlos Juliano Barros & Leonardo Sakamoto. O que os coaches não te contam sobre o futuro do trabalho. São Paulo, Alameda, 2025, 242 págs. [https://amzn.to/48bJO88]
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