A grande contradição americana

Imagem: Jonathan Borba
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Por ROSTISLAV ISHCHENKO*

Nenhum dos grupos políticos americanos está pronto para admitir a derrota geopolítica para a Rússia

Houve casos na história em que uma guerra estrategicamente perdida acabou sendo taticamente vencida. Foi o que aconteceu no início das guerras greco-pérsicas, quando as operações perfeitamente planejadas e executadas dos persas – sob o comando de Dátis e Artafernes (em 490 a.C.) e sob o comando de Xerxes (em 489-479 a.C.) – foram derrotados pela habilidade tática dos gregos em Maratona e Salamina, respectivamente. Isso aconteceria também com os atenienses, em 415 a.C., quando viram-se completamente derrotados no cerco de Siracusa, que quase haviam inicialmente vencido, perdendo todo o seu exército e quatro dos cinco comandantes.

A Primeira e, especialmente, a Segunda Guerra Púnica são um exemplo vivo de como a economia mais forte de uma potência marítima – que, no caso da Segunda Guerra Púnica foi, além disso, apoiada por vários aliados poderosos – pode sucumbir frente à preparação tática do inimigo e à sua menor sensibilidade a perdas e custos.

A campanha da Wehrmacht em 1940 na França, bem como nos verões de 1941 e 1942 na URSS, foram taticamente vencidas contra o lado estrategicamente mais forte da campanha (o que – ressalve-se – não ajudou os alemães a evitarem a derrota na Segunda Guerra Mundial). Em geral, apesar de a teoria negar a possibilidade de vitória do lado mais fraco sobre um adversário estrategicamente mais forte, na história, tais situações, ainda que raras, aconteceram. E se não tivessem acontecido, as guerras já teriam terminado há muito tempo, pois o resultado de qualquer batalha, campanha ou guerra poderia ser antecipadamente calculado.

A tese de Napoleão Bonaparte de que “os grandes batalhões vencem” é geralmente correta, mas não universal. A tese de Sun Tzu de que “quem não tem chance de vencer não vence” é universal. A universalidade dessa última fórmula reside na sua incompletude. Ao contrário de “grandes batalhões”, “sem chance” descreve uma situação não fatal, porque as chances são criadas e perdidas pelos próprios comandantes, e dependem não apenas de sua capacidade de criar e trazer “grandes batalhões” para o campo de batalha, mas também de sua capacidade de operar esses batalhões em batalha. Caso contrário, “você pode travar cem batalhas e perder todas elas”.

No confronto com a Rússia, os americanos confiaram inicialmente em “grandes batalhões”, isto é, na superioridade estratégica do Ocidente, que lhes parecia imbatível, assentada sobre a fórmula, fundamentalmente errada e jamais confirmada pela história, de que “sessenta por cento da economia mundial sempre se imporá sobre os dois por cento”. Como já escrevi muitas vezes, essa tese seria quase universal se a estrutura desses sessenta e desses dois por cento fosse a mesma. Nesse caso, vencer no campo de batalha contra uma coalizão de Estados capazes de produzir trinta vezes mais equipamentos de qualidade comparável com que você produz, por unidade de tempo, seria, de fato, quase impossível.

Mas, no nosso caso, os 2% da economia mundial é aquilo que produz tanques, mísseis e munições. E provavelmente sempre superarão os 60% da economia mundial que produz derivativos financeiros. Contudo, à medida que as coisas progrediram, tornou-se claro que a proporção das economias opostas não era de dois para sessenta, mas aproximadamente de um para um, porque os americanos foram incapazes de mobilizar o mundo inteiro contra a Rússia, e a Rússia não está sozinha na confrontação aos Estados Unidos e aos seus aliados.

Washington rapidamente percebeu que a vitória com “pouco sangue e num golpe poderoso”[i] – por conta do bloqueio econômico à Rússia, que, em tese, minaria sua base industrial, colapsaria o padrão de vida, desestabilizaria a situação política interna e a levaria a uma explosão social que destruiria o Estado – não ia acontecer. Não conseguiram mobilizar um número suficiente de Estados para isso, e Moscou rapidamente se reorientou para novos parceiros e novos mercados.

Surgiu então a tese da vitória por meio de uma guerra de desgaste. E, mais uma vez, em termos formais, os Estados Unidos raciocinaram de forma aparentemente correta: uma vez que não foi possível colapsar rapidamente a economia russa, devido ao fracasso do plano de isolamento político e econômico da Rússia, é preciso esperar mais tempo, e simplesmente auferir vantagem por meio de um confronto direto.

Os Estados Unidos, por então, não consideraram a guerra estrategicamente perdida. Mas eles não poderiam vencê-la estrategicamente em 2022. Isso os colocou numa situação difícil, uma vez que qualquer guerra não é mais que um elemento dentro de planos de longo prazo. Mas se os prazos não fossem cumpridos, o resultado seria como uma Blitzkrieg falida. O plano da operação Barbarossa presumia que, no inverno, as divisões da Wehrmacht fossem transferidas para outros teatros de operação, mas então se descobriu que seria necessário não apenas continuar a luta contra os soviéticos como também aumentar as forças na Frente Oriental. Quanto maior for a diferença entre os prazos reais e os planejados, mais difícil será a situação estratégica global para aqueles que apostam numa vitória rápida.

No entanto, os Estados Unidos acreditavam que taticamente (no campo de batalha na Ucrânia) poderiam vencer a Rússia. Tendo concentrado nesta direção, em 2023, uma formação militar esmagadoramente poderosa, composta por mão-de-obra ucraniana e equipamento ocidental, pretendiam infligir uma derrota sensível às Forças Armadas Russas (incluindo perdas territoriais e humanas), a partir da qual Moscou seria forçada a aceitar a paz nos termos norte-americanos. Sem prejudicar os seus interesses na Europa e no Médio Oriente, isso permitiria negociar com a China e o Irã, e depois regressar à frente russa e acabar com tudo numa segunda campanha ucraniana.

Depois desse plano também ter falhado (o Ocidente não tinha recursos totais suficientes para criar uma vantagem crítica real), os americanos ficaram amarrados a um impasse. Eles teriam, no entanto, uma escolha possível: assumir sua derrota geopolítica, satisfazer as exigências russas na Europa, abandonar o confronto com a China no Oceano Pacífico e manter parte do seu potencial e influência, para agir como uma das forças que moldarão a criação de um novo mundo.

No entanto, nenhum dos grupos políticos americanos (nem os trumpistas nacionalistas, orientados para a produção, nem a administração de Joe Biden, que defende os interesses do capital bancário comprador) está pronto para admitir a derrota geopolítica. Não estão prontos porque durante décadas o povo americano foi levado a acreditar que os Estados Unidos são a melhor e mais forte potência, um farol para toda a humanidade, uma força que veio ao mundo para recompensar os bons e punir os maus.

É ainda mais difícil para as elites americanas abandonar essa ideia, sem um terrível cataclismo político interno, do que abandonar a redistribuição forçada do excedente global que favorece os Estados Unidos. O declínio econômico poderia ser explicado por processos globais, e durante mais algumas décadas seria possível ludibriar os cidadãos americanos com a imagem de que o resto do mundo estaria ainda pior. No entanto, a rejeição do clichê ideológico que proclama o Estado americano e os seus cidadãos como a quinta-essência da criação carrega o potencial de uma depressão social fulminante, que pode levar ao colapso do Estado. (Os soviéticos experimentaram isto no caso do seu velho regime).

Afinal, quem não é o melhor, não é um exemplo a se seguir. Então, para que tantos sacrifícios, conquistas e crimes? Enquanto “somos os melhores”, qualquer uma das nossas ações é justificada pela missão que nos foi confiada de trazer um futuro brilhante para toda a humanidade. Para isso, você pode fazer qualquer sacrifício e perdoar quaisquer erros e custos. Mas se essa ideia estiver errada, então quem somos nós?

Estados singulares na história chegaram a sobreviver ao colapso de uma ideia, mas não houve uma única elite associada a tal ideia falha que tenha sobrevivido. A elite americana não quer ir para o lixo político. Portanto, continua sua luta desesperada, tentando pela segunda vez, a nível tático, vencer uma guerra que já foi perdida não só estrategicamente, mas também taticamente já uma vez.

Os Estados Unidos estão agora na posição dos alemães às vésperas da Batalha de Kursk. Eles também tiveram que concentrar simultaneamente uma massa de tropas e equipamentos na Frente Oriental para tomar a iniciativa frente à URSS, derrotá-la na campanha de verão de 1943 e estabilizar por muito tempo a linha de frente no leste, mudando sua atenção para o oeste.

Os Estados Unidos vão precisar sangrar o próprio nariz para conseguir a estabilização da frente na Ucrânia. Afinal, eles não podem concordar com os termos de paz russos, e sabem que a Rússia não concordará com os seus termos. E eles precisam utilizar os recursos não comprometidos para estabilizar rapidamente o Médio Oriente e, por fim, iniciar a Guerra de Taiwan com a China, na qual já estão atrasados.

Para estabilizar a Ucrânia, decidiram envolver ainda mais os seus aliados da OTAN, uma vez que precisam direcionar seus próprios recursos para o Médio Oriente, onde não podem deter o conflito em termos que convenham a Israel, e estão horrorizados com o seu crescimento. No entanto, a maior parte dos recursos deve começar a ser transferida agora em direção ao Pacífico. Mais três ou quatro meses e será tarde demais.

Foi então que ficou claro que os Estados Unidos tinham caído numa armadilha que prepararam cuidadosamente para si próprios. Os americanos, tal como muitos observadores que acreditam que “o poder precede o direito”[ii] e que “quando se precisa de músculos, a inteligência é dispensável”,[iii] não conseguiam compreender o que havia de errado com o fato de estarem arruinando os seus aliados. Afinal, quando estão arruinados tornam-se muito mais obedientes.

Talvez agora eles entendam.

A capacidade da Ucrânia de resistir às Forças Armadas russas com base nos seus próprios recursos esgotou-se no verão de 2022. As Forças Armadas Ucranianas simplesmente ficaram sem equipamentos e munições, e sua própria produção foi destruída há muito tempo, graças aos conselhos, recomendações e, às vezes, pressão direta dos “amigos” ocidentais, que ensinaram aos “heróis de Maidan” que a indústria “é uma merda”, e que a economia moderna significa que primeiro você me presta um serviço em um bordel, depois eu o presto a você em um bar, e então pegamos um empréstimo em um banco e vamos “tomar café na Ópera de Viena”.

Você vê tanques neste diagrama? E eu não vejo. Mas era de tanques, e não de bordéis, bares e bancos, que os Estados Unidos precisavam na Ucrânia. E precisavam não de tanques americanos, mas de tanques locais.

Como não havia recursos locais suficientes, os Estados Unidos decidiram, de forma razoável, que a Europa é que deveria lidar com o fornecimento de armas. Mas depois descobriu-se que, ao resolverem os seus problemas políticos e econômicos egoístas, os americanos não só desarmaram a Europa (para que ela não sonhasse em apoiar as suas reivindicações econômicas com a força das suas próprias armas), como também a sangraram economicamente (para que houvesse menos empresas interessadas numa cooperação com a Rússia).

Pelo lado de fora, a União Europeia ainda parece melhor do que a Ucrânia, um pouco mais elegante, com seu velho brilho ainda resistente e sem desaparecer de todos os lugares. Mas na verdade ela é igualmente pouco capaz de produzir equipamento militar e munições nas quantidades necessárias para uma grande guerra. E qualquer guerra contra a Rússia não pode ser pequena. Talvez possa ser rápida: quando mal tiverem tempo de atacar a Rússia, outra bandeira da vitória já tremulará sobre o próximo Reichstag.

Em geral, a aposta dos americanos nos arruinados, pobres e obedientes, que funcionou sem sobressaltos durante muitos anos, levou Washington a um final lógico: quando precisou do apoio dos seus aliados, descobriu-se que eles não tinham forças, nem meios, nem vontade política para isso. Tudo lhes fora tirado pelos americanos, que há muito ensinaram à Europa que basta avalizar publicamente, sem corar, qualquer estupidez e maldade americana, e tudo ficará bem para a União Europeia.

Durante demasiado tempo, os americanos necessitaram de uma União Europeia fraca. Agora, quando precisavam de uma Europa forte, capaz de resistir sozinha à Rússia, descobriram que ela poderia, sim, lhes oferecer um monte de bordéis, bares e “tudo o que quiserem”, mas nem um único tanque, nem um único bilhão em riqueza real, ou mesmo fábricas capazes de produzir tudo o que se espera. Tudo o que havia de bom na Europa foi consumido pelos Estados Unidos há muito tempo.

No arranjo literário que Valery Bryusov formulou para uma antiga inscrição assíria, ela soaria assim: “Eu te esgotei até o fundo, glória terrena! E aqui estou, sozinho, embriagado pela grandeza. Eu, o líder dos reis terrenos e rei Assargadon”. O filho deste mesmo Assargadon (Asarhaddon), Assurbanipal, acabou sendo o último grande rei da Assíria. Depois dele, o poder não suportou a tensão causada pela necessidade de enfrentar numerosos inimigos externos e rebeldes internos, sem um único aliado forte, e entrou em colapso em questão de anos. Os assírios também confiaram na força e na intimidação. E por algum tempo o mecanismo funcionou. E então ele desabou sob o peso dos problemas, quando se descobriu que não havia como transferir pelo menos parte disso para outrem.

Os Estados Unidos não podem mais vencer e se impor. Nas condições do sistema que criaram tal possibilidade já não mais existe.

*Rostislav Ishchenko é cientista político e ex-diplomata ucraniano exilado na Rússia.

Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

Publicado originalmente no portal Guerra en Ucrania.

Notas do tradutor


[i] O autor, russofalante, faz uso, diversas vezes, no texto original, de expressões e ditos populares russos. Nesse caso a expressão “малой кровью, могучим ударом” (“com pouco sangue e um golpe poderoso”) é um verso tornado célebre pela canção soviética “Se amanhã estourar a guerra” (“Если завтра война”), composta pouco antes da Segunda Guerra Mundial.

[ii] “Сила солому ломит”: em termos literais, “o poder rompe a palha”. A expressão popular tem como tradução convencional “o poder precede o direito”.

[iii] “Сила есть ― ума не надо”: “se há força, não é preciso inteligência”.


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