Por ALICE ITANI*
Histórias sem monumento percorrem estradas, matas e corpos, sustentando o que insiste em viver
1.
Estão pelas estradas, ao longo do interior do país. Pelas trilhas pode se deparar com passos sempre apressados, talvez doloridos, por vezes miúdos. Muitas vezes carregam, crianças, sacolas, bornais. Nesses bornais estão muitas paragens, fustigantes histórias.
Estão a tecer, a cozer, a plantar, a fazer, a cuidar, a ensinar, a parir, a gritar de dores, a sorrir e a cantar. Estão em muitos lugares e, por toda parte. Em cada parada, em cada canto, em cada esquina, em cada sombra de árvore, em cada subida, em cada descida dos morros.
Dona Zélia está cuidando de um esporão. Ralou três sementes de abacate num litro de álcool juntou um copo de água e três pedras de cânfora para escapar das muitas dores, de duas cirurgias que durariam três meses cada uma. Ela conta do surto de diarreia que houve na comunidade, que ainda não sabe como e lotou o hospital. Preparou um chá juntando camomila, broto de goiabeira, folhas de hortelã e casca de romã e, logo fez o filho e o vizinho tomarem. No dia seguinte, estavam bem. A notícia se espalhou e ela precisou fazer muitos chás para muitas pessoas de uma só vez.
Dona Cecília nasceu na roça e, uma vez viúva, trabalhou como fiandeira, nos idos em que a região tinha bases industriais de fiação e tecelagem. Orientou os filhos a estudarem. Não mediu esforços, trabalhou muito para que esses tivessem mínimas condições. Dentre esses, estão fotógrafos profissionais, pesquisadoras e professoras de universidades públicas, embaixadores. Conheci uma das filhas, atualmente médica trabalhando em Brasília que conta a coragem e ousadia da mãe.
Dona Dina queria muito montar uma faculdade de medicina para a pequena cidade onde vivia. Longe de grandes centros, de capitais de estados e de muitos lugares com recursos públicos, abriu uma pequena escola infantil com recursos que conseguiu, ao convencer o marido a obter, pela venda de terras e empréstimos. Tinha orientado os filhos ao ensino superior em universidades públicas existentes, e que pudessem fazer curso de medicina para que pudessem abrir uma faculdade de medicina naquele local.
Saindo das melhores escolas de ensino superior públicas federais do país, os filhos abriram uma instituição de ensino superior, privada, tendo como primeiro curso, o de medicina. Penaram muito para darem conta do recado.
Contavam com a fibra da mãe, que seguia com a escola de ensino fundamental. Montaram os laboratórios, clínica escola, considerados necessários para a formação e, também os cursos contíguos, como os de enfermagem, farmácia, nutrição, psicologia. A faculdade e os serviços atendem atualmente a população local e, aos poucos, a da região, chegando a um raio de cem quilômetros, tal a carência de serviços de atendimento médico-hospitalar e ambulatorial.
2.
Foram chamados a atender ao programa Mais médicos instalando cursos de medicina no interior do país e, estão atualmente em mais cinco cidades, em convênios com prefeituras. Esses cursos de medicina chegam a ter 120 candidatos por vaga, mesmo sendo privada e em cidades pequenas. Esse percurso tem na raiz aquela que traçou o caminho e conseguiu que o projeto fosse implementado, tendo à frente três dos filhos e, agora, uma neta. Quando soube de Dina, enviei-lhe uma flor, e ela me enviou uma cesta com os biscoitos mais saborosos que experimentei.
Dinea sai às cinco horas da manhã, toma um barco e viaja três horas para visitar cinco famílias de sua comunidade, que as aguardam ansiosamente. São também mulheres que esperam uma atenção, um gesto, uma palavra de como cuidar da febre do menino, da cólica da menina.
Maura faz outra trilha e caminha também três horas a pé para chegar na comunidade onde três famílias esperam por ela. Maura mede a pressão, pesa as crianças e anota como a família está cuidando das crianças e o que estão precisando. Como Dinea, Maura busca, antes de tudo, ouvir, empresta-lhes ouvido e a atenção para os males que conseguem dar conta. Um chá de uma planta que sabem fazer recorrendo aos ensinamentos de suas mães e avós está continuamente a transmitir.
Quem as ouve? No caminhar pelas encostas, matas e rios, é a cascavel que sente aqueles passos e cede passagem. Batemos os cocos e se ouvem timbres diversos em seus ocos. Na cumbuca de sapucaia estão as sementes com versos de suas histórias. A pinha expõe cada uma de suas castanhas enfileiradas com sons. E são os canarinhos que, em pares, insistem em cantar em homenagem àquelas que encontram.
Os bem-te-vis trazem novas. Trazem no seu bico o que as memórias deixaram de contar. No seu cantar tentam afirmar essas memórias e conseguem fazer delas, personagens. Trazem nos seus grandes e pequenos sons, as dores daqueles tímidos gemidos, que eles as ouvem no meio das matas. O coco não esconde mais sua polpa, a sapucaia não esconde suas sementes, a pinha não guarda seus pinhões. Os pássaros conseguem encontra-las, comem e voam com algumas das sementes para outras paragens. Ouvem-se seus sons carregados de significados.
As sementes, os pássaros e a cascavel conseguem ouvi-las e contar. Não estão nos livros, mesmo os que estão nas muitas estantes, nas enciclopédias, nos filmes, nas homenagens, nas agendas dos executivos das companhias, nas tribunas dos congressos. Não estão. Elas estão num substantivo e, contidas, mergulhadas num conjunto de obrigações que lhes foram atribuídas como sendo próprias a elas, que lhes exigem muito trabalho, dedicação e esforço. Não lhes perguntam se precisam de ajuda. O substantivo está carregado de adjetivos, porém implicitamente colados de argumentos, de que elas o fazem pelo amor e afeto.
3.
Mulher é um substantivo. Até um pseudônimo criado para denominar aquela que tem sob sua responsabilidade os cuidados de sua cria, de sua prole, de seus pais, suas mães, seus maridos, seus irmãos e de muitos outros. E não conta para essas obrigações a proteção, atenção e cuidado.
São como as flores que desabrocham ou como os frutos que se formam, que nem sempre são lembrados em seu plantio, do solo que acolheu as sementes, e da chuva que trouxe água. São como as plantas que enfrentam as geadas, as chuvas torrenciais, num esforço de se defenderem dos insetos e das pragas, num incansável cuidado permanente.
É o sanhaço que lembra esses cuidados pequenos e grandes, cotidianamente e, que aparecem sobre os lugares quando desabrocham. É ele que lembra das sementes depositadas sobre o solo e, ao brotarem produzem fores e frutos e, mudam a paisagem.
As mulheres como as sementes, não se pode ver, estão submersas a uma névoa. Estão ocupadas, carregando moringas na cabeça cheias d’água caminhando muitas horas para trazer água limpa para cozinhar. Estão sempre nas funções de cuidar de alguém, de conceber mentalmente caminhos, mesmo aquelas tantas que ficaram conhecidas na comunidade pelos cuidados com as pessoas que vivem com suas dores.
Elas estão sempre prontas a fazer um chá, ou uma pasta de plantas para tratar de feridas, de calombos, das dores nas juntas, buscando ervas no meio de matagais, campos e colinas. Não se dão o direito de descanso, nem são formadas em escolas especializadas. Aprenderam com suas mães e avós a cuidarem daquelas pessoas que as buscam atrás de alívio para seus males.
Encontrei muitas dessas, dona Lurdes, dona Josefina, dona Raimundinha e também dona Maria. Elas me trazem a planta e explica como encontrar, como preparar o chá e como tomar. Com elas aprendi a buscar muitas dessas plantas que nascem no meio das matas.
*Alice Itani é professora de sociologia na Unesp. Autora, entre outros livros, de Subterrâneos do trabalho: imaginário tecnológico do trabalho (Hucitec). [https://amzn.to/3Poe2xG]






















