O Sopro do Xapuri é pela vida

Imagem: Cólera Alegria

Por ALICE ITANI*

O lutar e pensar juntos é um manifesto daqueles que cuidam de nossas matas, de nossas florestas, de nossos rios e de nossa terra, como cuidam de suas comunidades

O Sopro dos Xapiri exposto em imagens sobre o edifício no Congresso Nacional no último dia 6 de dezembro nos invoca a lutar juntos nessa pandemia. E, quando Wapichana, Guajajara, Xakriabá, Kopenawa, Krenak com suas falas pausadas expressa sobre essa crise do confinamento que está nos afligindo não está somente compondo as dores de perdas dos seus com as de todos, mas também com as dores da Terra.

O lutar e pensar juntos é um manifesto daqueles que cuidam de nossas matas, de nossas florestas, de nossos rios e de nossa terra, como cuidam de suas comunidades. E, com esse sopro nos expõe que mais que nunca é preciso produzir a vida. Expressam dentro de uma cosmologia em que está compreendida o fluxo da vida. Essas vozes, mais que palavras, expressam uma cultura, uma luta pela produção comunitária, um modo de ser, um Teko Porã. É que na linguagem guarani é um modo de vida presente no corpo, que está sempre em movimento, e em processo de equilíbrio. É a potência pela qual a vida pede para fluir com um modo de expressão da alma. A pulsão vital trabalha porque a vida quer persistir. Para continuar sendo parte da natureza como ser vivente.

O processo de criação é também de reagir, de resistir às condições ambientais, criando e recriando o tônus vital para poder se movimentar.  O mal se apresenta quando o organismo está em desequilíbrio. A doença vem da alma que está em desequilíbrio.  Essa cosmovisão possibilita compreender sobre formas de existência social com os direitos da natureza. E, que é também a produção e conservação da vida, considerando o respeito á vida integrada à existência da natureza, de sua manutenção e regeneração de seus ciclos vitais, sua estrutura, suas funções e seus processos evolutivos.

Mas, não há um modo de ser sem o lugar do ser, é preciso ter um Tekoá um lugar para ser, é preciso ter a água, é preciso viver a floresta e com toda sua vida para poder viver sua cultura e, enfim, para ser. O modo de viver está tecido sobre os ciclos de vida, que é também o da terra, da água, do sol e da lua, com os demais organismos vivos que vivem entrelaçados entre a continuidade e a vivência comunitária. É um chamado ao bem viver. viver a natureza que dá sentido à vida, que está em equilíbrio, como um organismo vivo, com respeito e harmonia, sem divisão entre homem e natureza e entre alma e natureza, como não há entre corpo e alma.

O chamado à preservação está no cuidar dos seres da natureza, do território e da produção cultural da comunidade que representa também a produção da vida. E, por isso, a pandemia da COVID-19 é, mais uma dentre tantas lutas, uma crise respiratória, um perigo anunciado, de uma atmosfera que se tornou infectante. O ar que se respira, essencial para a vida, é produzido pelas matas, florestas, rios e pela terra. O grande confinamento é para evitar esse ar, que se tornou o meio de propagação e cada pessoa se tornou um veículo potencial transmissor.

Mais que a busca de proteção por meio de máscaras e distanciamento das pessoas, a reflexão sobre a produção da vida, desde os nossos modos de sobrevivência, nossa produção de modos de ser, nossos espaços culturais e sociais, é também pela proteção e preservação da própria espécie. Quiçá tenhamos ainda tempo de evitar a queda do céu e possamos adiar o fim do mundo.

A reflexão da produção da vida tornou-se complexa por conta de uma divisão extremada que se produziu, entre o humano e o não humano, entre homem e natureza, entre corpo e alma. Uma divisão que interessa a uma economia capitalista, dito modernidade, desenvolvimentista e, que produziu também divisão entre ricos e pobres, entre países ditos desenvolvidos e não desenvolvidos, e as diferentes classificações que passaram a distinguir o próprio ser humano, em raças e gêneros. A indústria se desenvolveu por meio dessas divisões e classificações e a economia financista que produziu riquezas financeiras para alguns poucos. E, o restante ficou com migalhas mergulhado num processo de alienação, pelo não domínio da produção da vida, da produção cultural como da produção social.

Aos seres viventes dos países do sul ficaram também com os encargos de produzir essa riqueza para esses poucos, como subordinados a um processo de aculturação, colonialista, de dominação. A indústria da mídia, por exemplo, segue a antena 1, que emite programas que são retransmitidos a todos os demais lugares do planeta. A produção teatral e cinematográfica ficou subordinada a mercantilização dos que dominam o mercado euro-estadunidense, notadamente pelo poder financeiro. Os currículos escolares dominados por ideologias colonizadoras que se apropriaram do conhecimento, como também da ciência e tecnologia. Os conhecimentos tradicionais passaram a ser menosprezados, obstáculos à modernização.

Da divisão entre homem e natureza, passa à exploração dos recursos naturais dos países do sul. E, no caso brasileiro, chega aos extremos de expropriação de populações inteiras de seus territórios de vida para a retirada do ouro, manganês, minério, nióbio, ouro, e outros. E, esses recursos naturais, pertencentes aos territórios locais, são exportados aos países industrializados para produção de mercadorias e, enriquecem os poucos. As populações locais ficam sem seus espaços de vida como também com todos os resíduos da extração desses recursos, com contaminação do solo, da água e do ar. E, produzindo doenças com os compostos químicos utilizados nessa extração.

O mesmo ocorre com as produções da soja, da proteína animal como bovina, suína e aves, que utilizam cada vez mais de extensões de terra. Atualmente a produção se desenvolve em megafazendas, resultado de grilagem, queimadas, expulsão das populações tradicionais e nativas dos lugares, destruindo os ecossistemas e biomas. Essa produção serve notadamente para exportação, para alimentar outros em outros países, e os ganhos financeiros para as corporações que dominam o agronegócio. E, a utilização intensiva e extensiva de compostos químicos nessa produção afeta também a produção local e familiar pela contaminação do solo, da água e do ar pela pulverização aérea.

Não se pode falar em produção de vida quando os territórios são usurpados e contaminados os lugares onde vivem as comunidades. A condição saudável dos espaços está apropriada por corporações com produções de suas riquezas financeiras e para alimentar outros.

Pode-se falar de saúde nesse contexto? Isso já é resultado de divisões complexas dentro dessa modernidade estabelecida na perspectiva econômica euro-estadunidense. E, que rentabiliza muito mais para a indústria farmacêutica e de insumos hospitalares. Com os cortes sobre nosso sistema universal de saúde, o SUS, e sobre as politicas públicas em geral, fica-se com altas contas de seguros saúde, doenças, acidentes e males.

Pensar a produção da vida é também refletir sobre a não servidão ao processo de produção do círculo trabalho e consumo. É, pensar uma autonomia social e coletiva dos povos, por uma sociedade capaz de produzir e sobreviver e, de retomar suas instituições numa luta incessante contra a alienação, produção de seus modos de ser, e da igualdade política como igualdade de participação efetiva em seu processo social e, resultante de construção e reconstrução contínua. Essa autonomia é individual, coletiva e social, mas um indivíduo não pode ser autônomo se a sociedade não o é. A autonomia da sociedade brasileira enquanto nação merece ser construída, dentro de seus modos de ser e rompendo com os modelos econômicos ocidentais impostos sob argumentos da modernidade.

O tipo de desenvolvimento estabelecido para os países do sul foi delineado e seguiu-se uma cartilha. com leis, regras econômicas e estruturas de poder local para dominação. Escapar a isso é descolonizar o pensamento, reelaborar o imaginário, construindo perspectivas da produção da riqueza dos povos e comunidades pelo trabalho de todos. Algumas experiências que escapam dessa subserviência servem como exemplos. A do Equador que inseriu na sua Constituição o direito da natureza. A de povos tradicionais e nativos dos países latino-americanos que resistem com suas culturas e, portanto, seus conhecimentos tradicionais. A de comunidades que produzem para suas sobrevivências e vivem para isso e com isso. E, são diversas no território brasileiro, considerando os bens naturais como bens comuns dentro de formas de cooperação social, de uso e usufruto comuns, dentro de redes de cooperação.

Alice Itani é professora de sociologia do Departamento de Educação da Unesp-Rio Claro.