Por EMIR SADER*
Um pensamento forjado na prisão que articula fragmento e estratégia para compreender a disputa pela hegemonia
1.
Com essa chamada, o historiador italiano Massimo Modonesi se coloca a questão que preocupa os pensadores políticos contemporâneos. Como Karl Marx não se considerava marxista, recorda ele, Antonio Gramsci pode ser considerado o marxista mais citado no mundo, cujo pensamento adquire relevância e transcendência mundial, mesmo quando o marxismo sofre tantos ataques.
O pensamento gramsciano resistiu e inclusive conseguiu superar essa tendência, graças à consistência do seu pensamento e das suas críticas, aferrado ao “pessimismo da inteligência” e ao “otimismo da vontade”.
Pode-se dizer que a recepção tão ampla e difusa do pensamento gramsciano chegou a se confundir com o senso comum de uma época e tendeu até a ser aprisionado ideologicamente em interpretações que o convertem em interpretações até mesmo pós-modernas, com traços liberais.
A dimensão da figura de Antonio Gramsci deve-se à combinação extraordinária entre uma trajetória vital heroica e trágica e uma deslumbrante inteligência. Ele encarna plenamente as duas caras do perfil do intelectual heroico: razão e paixão, que ele mesmo definiu como capacidade de “entender” e “sentir”, na sua definição de intelectual comprometido com o popular e com os subalternos.
Um heroísmo trágico, que se nutriu da combinação de gestas revolucionárias, de sacrifício e de sofrimento que, no caso de Antonio Gramsci, se iniciam com a pobreza e a doença e culminam na prisão, na longa agonia e na morte prematura aos 46 anos.
Antonio Gramsci surgiu como personagem antes de como autor: por ser um dirigente político de primeira fila e um mártir do fascismo foi, em um princípio, uma figura pública, e sua trajetória e sua condição humana abriram o caminho para o conhecimento e a valorização dos seus escritos na prisão.
Ao mesmo tempo, sua vida convertida em monumento petrificada na memória e lida desde um humanismo ecumênico, nem sempre permitiu valorizar as conexões entre sua trajetória como militante e dirigente revolucionário e a gênese do seu pensamento.
2.
Antonio Gramsci não era apenas um marxista; também, sem lugar a dúvidas, era um comunista e um revolucionário. Anda imerso nas paixões da sua época, alcançou a transcendência de um clássico, percorrendo temáticas e questões de alcance universal e, portanto, sempre atuais. Ele interpretou de forma muito viva a “filosofia da práxis” que ele propunha, com a qual ele se converteu não apenas em um autor de culto, mas também em uma inspiração para a prática política, uma ponta de lança especialmente aguda de uma corrente que queria e insiste em cruzar a interpenetração, a interpretação e a transformação do mundo em um sentido igualitário.
Se bem que a inteligência de Antonio Gramsci revelava já em suas reflexões e posições como jornalista militante e como dirigente revolucionário, antes do fatídico ano de 1926, é indiscutível que sua obra na prisão condensa e projeta a originalidade da sua reflexão e, por isso, seus cadernos se converteram no núcleo dos estudos gramscianos e em um texto de referência para o pensamento político moderno.
Diante do que foi chamado de “labirinto de papel” dos Cadernos do cárcere, se desenvolveram de forma combinada ou divergente, segundo os tempos e os casos, distintos tipos de esforços interpretativos. Um deles assumiu a tarefa de decifrar a complexidade própria da sofisticação intelectual que alcançou Antonio Gramsci nas suas notas.
O entremeado de situações, contextos, referências, alusões e fontes que retroalimentam as reflexões da prisão que se plasmam em uma série de cadernos. Isto é, aquele conjunto de folhas nas quais ele colocou fichas de trabalho, notas, mas também reflexões mais desenvolvidas e, inclusive, reflexões mais desenvolvidas, bem como esboços de ensaios.
Na forma de “caderno”, como suporte material que reflete as condições de trabalho na prisão, se desenvolve a ampla agenda político-intelectual de Antonio Gramsci, dando luz a uma obra que, também por seu peculiar marxismo crítico, se manteve aberta não linear a fragmentária sem deixar de ser, em última instância, articulada e coerente.
Por isso, no interior deste, que mais do que um labirinto é um arquipélago de papel, de ideias e de conceitos – composto por ilhas conectadas pelo mar – uma seria de estudos buscou e conseguiu reconhecer de maneira precisa que estava surcado por itinerários traçados deliberadamente, itinerários possíveis e hipotéticas conexões reticulares que foram relevadas em distintos planos interpretativos, não apenas aqueles de caráter estritamente filológica ou historiográfica, mas também de caráter filosófico, teorético ou político-estratégico.
3.
Finalmente, o caráter estratégico e fragmentário dos Cadernos do cárcere permite traçar e percorrer itinerários distintos que não traem as preocupações político-intelectuais de Antonio Gramsci, que eram múltiplas, mas convergentes.
Um fio condutor fundamental se acha na ideia de uma “vontade coletiva” como síntese da conformação de um sujeito poli-político autônomo, inserido na disputa hegemônica. Porque, mas além da multiplicidade de interesses, intuições e ramificações da reflexão de Antonio Gramsci, uma preocupação de fundo aflora permanentemente e orienta o conjunto do seu pensamento: a da constituição de uma vontade política que se projeta desde a subalternidade para a autonomia e a hegemonia, isto é, de um sujeito organizado e criador e portador de uma concepção do mundo, suscetível de impulsionar uma revolução social e uma reforma moral e intelectual.
Este é um fio condutor que abarca os temas da hegemonia e os intelectuais e mostra as características fundamentais e típicas do marxismo gramsciano, ao assumir a originalidade de Antonio Gramsci se insere no marco de uma específica interpretação do marxismo como filosofia da práxis.
*Emir Sader é professor aposentado do departamento de sociologia da USP. Autor, entre outros livros, de A nova toupeira: os caminhos da esquerda latino-americana (Boitempo). [https://amzn.to/47nfndr]






















