“Amém”, de Costa-Gravas

Imagem: Vasco Prado

Por ARNALDO SAMPAIO DE MORAES GODOY*

Comentário sobre o filme do cineasta grego

Amém, de 2002, do cineasta grego Costa-Gravas (nascido em 1933), é obra-prima do cinema europeu com preocupações políticas. O filme enfrenta questões importantes do legado historiográfico do nazifascismo: a posição da Igreja em face da barbárie que se cometia contra judeus, ciganos (e muito mais gente), a par de imaginário inventário de opositores do regime então vigente na Alemanha. Costa-Gravas mistura fatos reais e elementos ficcionais. É uma novela histórica. Ao contrário da maioria dos romances históricos, Amém contém enredo, e contém história também.

Trata-se da trajetória de Kurt Gerstein (1905-1945) um oficial alemão das SS, especialista no combate ao tifo e em métodos para purificação de água. Horrorizou-se com os campos de concentração que visitou na Polônia. Desesperou-se quando descobriu que sua fórmula de combate ao tifo (Zyklon-B) era usada em programa de extermínio sistemático de inimigos do regime. Ainda que ativo no segundo escalão do nazismo denunciou os crimes que testemunhou. Contatou um embaixador suíço e tentou, a todo custo, comunicar-se com o Papa Pio XII. Ao longo de Amém Costa-Gravas denuncia a insensibilidade da Igreja, imobilizada por uma retórica de neutralidade enervante. Costa-Gravas também nos mostra que nem todo alemão compactuava com todos os pontos da agenda nazista.

No pano de fundo desse filme tem-se o tema da culpa coletiva. Cuida-se de uma presença ameaçadora do passado afrontando a possibilidade (ou impossibilidade) da consciência apreender e dominar o que já ocorreu. Problematiza-se a esperança do perdão e da reconciliação. É o caso de uma culpa que afetaria toda uma geração, especialmente aqueles que nasceram e que viveram a primeira infância entre 1914-1933. Com o fim do IIIº Reich o ônus da culpa para com as barbaridades da guerra marcou a experiência existencial alemã. A busca da solidariedade, negadora de um passado brutal, conectou a superação de um trauma por uma ética de responsabilidade. Culpados, no limite, seriam todos os que não ofereceram nenhuma forma de oposição ao regime então vigente. A geração alemã dos anos de 1960 de algum modo repudiava esse passado.

Costa-Gravas estendeu essa discussão para o institucionalismo religioso. Chamou a atenção para alguma reação protestante na Alemanha, e o exemplo de Dietrich Bonhoeffer (1906-1945) é muito emblemático, ainda que não mencionado no filme. Como se lê na fascinante biografia escrita por Eric Metaxas, Bonhoeffer fora pastor, mártir, profeta e espião. Foi um personagem isolado em um contexto de apoio, consentimento e coerção, onde havia carrascos voluntários em toda parte, inclusive entre intelectuais.

Na narrativa de Costa-Gravas o personagem central é um inocente. Trata-se de Gerstein, protagonizado por Ulrich Tukur, alemão, que também é músico. Gerstein não compreende a realidade na qual vive. Acredita que se os alemães fossem informados do que se passava nos campos de concentração se revoltariam, lutando contra o nazismo. Costa-gravas alavanca o tema da ambiguidade, uma das chaves interpretativas do filme. Isto é, Gerstein era um membro das SS, o que lhe atirava a suspeita de traidor, um dos argumentos sustentados pelos representantes da Igreja para lhe negar qualquer crédito.  O pai de Gerstein, que acreditava no nazismo como condição para recuperação da Alemanha, reputava o filho como um tolo sentimental.

A Igreja (no contexto das várias interpretações que Costa-Gravas sugere) resistia em condenar o nazismo no argumento de que judeus não eram batizados. Contrariava-se o dogma da universalidade da pessoa humana, e dos valores intrínsecos à essa condição. Fulmina-se o alicerce da motivação política que aproximou Roma ao cristianismo, um projeto de expansão universal, urbi et orbi, da cidade para o mundo. Radica o problema no Edito de Milão, de 313 d. C., baixado pelo Imperador Constantino. A solução definitiva dá-se com o Tratado de São João de Latrão, firmado por Mussolini e por Pietro Gasparri, secretário de Estado da Santa Sé.

Costa-Gravas insere no filme um jovem jesuíta, Ricardo Fontana (protagonizado pelo francês Mathieu Kassovitz), filho de um influente conde no Vaticano. Fontana insurge-se contra a indiferença da Igreja, sujeitando-se a um sacrifício radical. Acompanhou os judeus italianos conduzidos para Auschwitz, compartilhando, sofrimento, destino e desespero. Fontana discutia com as autoridades eclesiásticas, argumentando pela necessidade de uma intervenção rigorosa do Papa Pio XII, como condição mesma de afirmação da doutrina cristã. Enquanto denuncia o holocausto, os cardeais discutem feriados religiosos, aspectos da doutrina moral cristã e lamentam que os nazistas não estavam repassando as taxas cobradas dos cristãos alemães e que deveriam ser encaminhadas ao Vaticano.

Fontana e Gerstein esperavam que o Papa fosse severo na homilia de Natal. Nada ocorre. Um discurso morno. Enquanto isso, nazistas celebram a festa cristã alegremente cantando Noite Feliz. Percebe-se que a política do Vaticano revela alguma tolerância (muita, na verdade) para com a fúria nazista, na expectativa que o Exército alemão derrotaria Stálin (e o comunismo) que viam como um mal bem maior. Colocava-se uma questão nada ingênua: o que salvar, o Vaticano, ou a cristandade? O Papa ambiguamente exigia explicações do embaixador alemão no Vaticano ao mesmo tempo em que se mostrava moderado. Por outro lado, já em 1938, Hitler havia se reunido com o cardeal Theodor Innitzer, líder da Igreja Católica na Áustria, que lhe teria garantido apoio e sustentação.

Ainda sob uma perspectiva histórica alemã, Costa-Gravas retoma o tema da recordação autocrítica de Auschwitz. Há um contraste entre o inegável esplendor cultural e civilizatório alemão, raramente igualado em qualquer outra experiência cultural e científica, cotejado com as reminiscências do horror nazista. Esse assunto foi explorado por Jürgen Habermas, que nos lembra que todas as vezes nas quais se reconhece o esforço civilizatório alemão há um dedo em riste, em forma da mencionada recordação autocrítica.

O pensador alemão questionou se há herança política, jurídica e cultural em relação a geração de réus, cujos descendentes seriam historicamente responsáveis por suas ações. A autocompreensão política da Alemanha radicaria também em reflexão autocrítica da barbárie de Auschwitz. Há um elemento de identidade nacional rompido no qual predica responsabilidade política inquietadora. Nas palavras de Habermas essa ligação decorre do fato de que se praticou, apoiou ou tolerou uma ruptura na civilização. Um assunto a ser permanentemente pensado.

Costa-Gravas tensiona esses termos do legado alemão com a ação da Igreja, nas atuações representativas de Gerstein e de Fontana. A provocação do cartaz originário, mesclando cruz e suástica, é afronta iconográfica que anuncia um filme ao mesmo tempo sério e irreverente, crítico e acomodado, bem-comportado e explosivo. É um filme ambíguo, exatamente como são ambíguos os personagens e as situações que apresenta e problematiza.

*Arnaldo Sampaio de Moraes Godoy é livre-docente em Teoria Geral do Estado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

Referência


Amém (Amen)

França, Alemanha, Romênia, Inglaterra, 2002, 132 minutos

Direção: Costa-Gravas

Roteiro: Costa-Gravas e Jean-Claude Grumberg

Elenco: Ulrich Tukur, Mathieu Kassovitz, Ulrich Mühe