Progresso e regressão

Gillian Carnegie, Montanha Verde, 2004
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Por PETER DEWS*

Considerações sobre o livro de Rahel Jaeggi

1.

Ao ler o novo livro de Rahel Jaeggi, Fortschritt und Regression [Progresso e regressão], tem-se a sensação de que é justamente a modéstia da tarefa a que ela se propõe que a torna difícil. Rahel Jaeggi aceita a necessidade de abandonar qualquer teoria de estágios históricos no desenvolvimento da sociedade humana, ou, pelo menos, qualquer teoria que interprete esses estágios como constituintes de uma progressão inequívoca e inevitável.

Ela também se distancia de qualquer concepção teleológica da história, não apenas negando que a mutável organização da sociedade humana seja guiada por um objetivo imanente para o qual ela se dirige, por mais lenta e dolorosamente que isso aconteça, mas até mesmo abandonando a noção de uma forma de organização social legítima, antecipável e desejável como um objetivo prático.

Além disso, ela argumenta que a aplicação do conceito de progresso, mesmo em domínios específicos e limitados do esforço humano, em vez da construção de uma “grande narrativa” da história humana, não exige a identificação de um objetivo ou propósito. Justifica-se, ao contrário, pela qualidade do próprio processo de mudança. Dadas essas renúncias, é certamente uma tarefa exigente resgatar qualquer noção de progresso. Além disso, a austeridade da concepção de Rahel Jaeggi inevitavelmente levanta a questão: qual é o valor e o propósito de tentar realizar essa tarefa?

A principal resposta de Rahel Jaeggi para essa questão consiste em apontar para o que pode ser chamado de indispensabilidade negativa do conceito de progresso. As décadas recentes têm testemunhado uma série de desenvolvimentos políticos e sociais que só podem ser compreendidos como “regressivos” – pelo menos, de uma perspectiva de esquerda.

Rahel Jaeggi menciona fenômenos tais como a ascensão de líderes autoritários nas democracias liberais, o aumento dos populismos xenofóbicos e sexistas e o desmantelamento das conquistas do bem-estar social do pós-guerra sob o impacto do neoliberalismo (p. 9-10). Mas, se os comentadores da esquerda não hesitam em rotular muitas das recentes mudanças políticas e sociais como regressivas, argumenta Rahel Jaeggi, então deve haver alguma noção de progresso operando em segundo plano.

Recusá-lo, sugere, só pode resultar em “uma questionável combinação entre relativismo teórico e moralismo político”.[i] Assim, a despeito dos problemas intrínsecos colocados pelo conceito de progresso da onda de críticas expondo o papel ideológico que ele desempenhou na legitimação do colonialismo europeu, há necessidade de recuperá-lo de forma retrabalhada e filosoficamente esclarecida. De fato, de acordo com Rahel Jaeggi, sem nenhum critério de progresso, nós perdemos quaisquer vínculos com ‘uma teoria crítica hegeliana de esquerda’,[ii] a qual se constitui como o tipo de crítica com o qual ela está comprometida, e que lida com questões de fundo normativo.

2.

Dada a drástica operação que Rahel Jaeggi busca realizar no conceito de progresso, concepção robusta que foi central tanto para o marxismo quanto para o esclarecimento liberal, nós certamente precisamos de uma ampla análise de longo prazo acerca dos desenvolvimentos sócio-históricos que levaram ao clima de extrema cautela, até mesmo de desilusão, como seu livro reflete.

Tal análise pode ser encontrada, penso, no trabalho recente do renomado sociólogo sueco, Göran Therborn. Até o último quarto do século XX, argumenta Göran Therborn, alguns aspectos da visão de Marx se realizaram, não apenas nos países do bloco comunista, mas também nas sociedades capitalistas industriais avançadas. A concepção de Marx de uma contradição subjacente entre a socialização crescente dos meios de produção e a continuidade de sua propriedade privada tinha base na realidade.

Até os anos 1970, quando a filiação aos sindicatos alcançou seu ápice, a classe trabalhadora industrial do Norte Global cresceu em tamanho e capacidade de organização, e conquistou ganhos significativos, em termos de padrão de vida, segurança social e influência política. Em outras palavras, o desenvolvimento do capitalismo de fato produziu o seu próprio antagonista interno na forma de um movimento da classe trabalhadora voltado a limitar o poder capitalista.

E, apesar do antagonismo da Guerra Fria, as revoluções do século XX, nas palavras de Göran Therborn, “permaneceram, de certa forma, como um farol de esperança. Elas provaram que sociedades não capitalistas poderiam existir; logo, sociedades melhores, com mais liberdade e igualdade, eram possíveis”.[iii] Göran Therborn percebe um processo similar em funcionamento na descolonização – uma das mais significativas transformações do último século. Para seus próprios fins, o colonialismo produziu uma elite educada entre as populações nativas das nações colonizadas, que se tornou a força inspiradora e instigadora dos movimentos nacionalistas pela independência.

O conflito entre metrópole e colônia foi resolvido em favor dos últimos, não importa quão ambíguos fossem os resultados em alguns aspectos. Göran Therborn resume “A convicção, basicamente correta, do caráter dialético do capitalismo e da exploração colonial, forneceu à esquerda do século XX, reformistas ou revolucionários, uma perspectiva de longo prazo e uma autoconfiança resiliente que conseguiu sobreviver aos mais terríveis momentos”.[iv]

Entretanto, na análise de Göran Therborn, a ascensão do neoliberalismo juntamente com a onda de globalização e financeirização capitalista, encerrou aquela dialética. A produção industrial foi terceirizada para a China e as áreas do Sul Global, os sindicatos foram enfraquecidos e perderam poder e influência e as conquistas do Estado de bem-estar social foram revertidas pela privatização.

Na formulação de Göran Therborn, uma “era industrial de revolução e reforma”[v] foi esgotada e terminou seu ciclo. Apesar de uma ampla variedade de novas formas de contestação terem emergido – iniciativas indígenas e ecológicas, movimentos por igualdade cívica, revoltas urbanas contra o domínio autoritário – tais tipos diversos de oposição não têm o mesmo caráter de antagonismo imanente – e eles não portam a mesma promessa, pois o “capitalismo industrial se metamorfoseou numa forma financeiro-digital que não produz ou desenvolve seus próprios adversários”.[vi]

De maneira mais óbvia, a principal ameaça que a humanidade enfrenta – a catástrofe ecológica e climática – simplesmente coloca uma força destrutiva diante de outra. Não mais nos encontramos no âmbito da dialética.

3.

Apesar da perspectiva enviesada para o Norte Global, ou talvez graças a ela, a teoria de Göran Therborn, caracterizada por uma profunda transformação no caráter e posição da esquerda, pode lançar luz sobre o modo pelo qual o conceito de progresso foi tratado na Teoria Crítica à qual o trabalho de Rahel Jaeggi se filia. Como vimos, Göran Therborn argumenta que os desenvolvimentos do século XX tornaram plausíveis algumas ideias centrais de Marx.

Assim, não é surpreendente que pensadores da primeira geração da Escola de Frankfurt, tais como Theodor Adorno e Herbert Marcuse, tenham buscado explicar por que, no entanto, as expectativas de Marx não se realizaram da maneira esperada. No caso de Theodor Adorno, a resposta envolveu localizar as fontes da dominação num nível mais profundo e mais remoto que o do capitalismo: na razão instrumental e sua ascensão ao longo da história humana.

Herbert Marcuse, valendo-se da teoria freudiana para explicar a capacidade de a sociedade capitalista tecnológica absorver e difundir fontes de resistência, adotou uma perspectiva similar. Ambos os pensadores estavam profundamente preocupados com as pressões socioculturais que moldavam a consciência, paralisavam a reflexão e transformavam o progresso em seu oposto.

Em contraste, Jürgen Habermas adotou uma perspectiva muito mais positiva acerca das conquistas da social-democracia do pós-guerra e do estado liberal-democrático. Além disso, em alguns escritos do século XXI, argumentou que a resposta para a globalização e o consequente enfraquecimento do Estado-Nação não poderia ser uma limitação e traçou planos intensamente especulativos para uma forma futura de governo mundial.[vii]

Em outras palavras, Jürgen Habermas não teve inibições em propor um objetivo distante nos termos pelos quais o progresso político da humanidade poderia ser julgado a partir da tradição do cosmopolitismo de Kant. Contudo, as muito idealizadas pressuposições nas quais as projeções de Habermas foram baseadas contam sua própria história acerca dos problemas desse estilo de pensamento sobre o progresso.

Axel Honneth, o mais proeminente membro da terceira geração da Escola de Frankfurt, busca basear sua crítica social no potencial inexplorado de valores já integrados na histórica institucional e sociocultural específica das sociedades industriais avançadas. O contextualismo implícito dessa abordagem poderia ser visto como uma rejeição de um objetivo abstrato e supostamente universal de progresso humano.

No entanto, Axel Honneth também argumentou que não é possível abandonar completamente a noção de progresso. Inspirado por Kant, ele sugere que aqueles comprometidos com a expansão da liberdade humana na tradição do Iluminismo não podem evitar olhar para a história da humanidade como um “processo de aprendizagem” no qual nos encontramos – por mais desfigurado que esteja por desvios e desastres.

4.

A abordagem de Rahel Jaeggi do conceito de progresso pode ser vista como um aprofundamento em relação à abordagem “hermenêutica” ou “explicativa” de Axel Honneth, como ele a denomina. Ela argumenta que o conceito pode ser empregado sem nenhuma referência a uma prática ideal ou objetivo. Em contraste com outros pensadores, ela nega que a noção de progresso seja composta por dois componentes, a saber, o conceito de um bem, ou de melhor estágio; e o conceito de uma mudança que leva em sua direção (p. 49).

Em vez disso, ela argumenta, o “progresso” é um “conceito suis generis” (p. 53), pertencendo ao domínio avaliativo de “conceitos analítico-descritivos densos” (p. 50). Refere-se à qualidade do processo de mudança em si mesmo, ao invés de compreendê-lo em consideração ao avanço que se dá em direção a um ponto final pré-concebido. Essa linha de argumentação tem o surpreendente resultado, que Rahel Jaeggi não minimiza, de que o conceito de progresso tem prioridade sobre o conceito de bem: “Não entendemos o que é o progresso quando entendemos o que é o bem; entendemos o que é o bem quando entendemos o progresso”.[viii]

Evidentemente, a caracterização de Rahel Jaeggi do processo ou tipo de mudança em que – segundo ela – o progresso consiste será a parte crucial e estrutural do seu argumento. Em primeiro lugar, o processo relevante consiste na transformação do que ela chama de “formas de vida” (Lebensform). Formas de vida são compostas por elementos materiais e normativos que interagem, de maneira que não podemos pensar em sua transformação como dirigida por preocupações puramente morais.

Um exemplo que Rahel Jaeggi dá é o modo como a invenção da máquina de escrever contribuiu para a mudança no status social da mulher, facilitando sua entrada na força de trabalho no começo do século XX (p.106-107). Na concepção de Rahel Jaeggi, formas de vida são recorrentemente confrontadas com problemas que podem tomar a forma de “crises” ou “contradições”.

Dessa maneira, problemas surgem quando uma forma de vida é confrontada com a necessidade de reestruturar a si mesma de modo a continuar existindo. E, ao menos no caso das contradições, a dificuldade é gerada de maneira imanente pelas tendências conflitantes no interior da forma de vida. Disso se segue, para Rahel Jaeggi, que o termo progresso se refere ao modo pelo qual uma forma de vida lida com os problemas que a confrontam. Progresso não é o simples fato histórico da mudança de um estado a outro considerado melhor, mas é mensurado pela “qualidade do processo de resolver problemas” (p. 43).

Progresso tem um conteúdo experiencial; ele envolve não apenas aprender, mas aprender a aprender, no sentido de adquirir capacidade aprimorada de resolução de problemas (p.151). Nesse sentido, o progresso pode ser visto como “processo dialético de enriquecimento”.[ix]

5.

Seria, é claro, quixotesco por parte de Rahel Jaeggi negar que o conceito de progresso é frequentemente utilizado quando nós temos um objetivo específico em mente e, portanto, um critério para julgar avanços. Ela chama de “progresso em sentido determinado”. Entretanto, estamos todos mais que familiarizados com casos nos quais o que pode ser considerado progresso em um aspecto traz desvantagens e perigos em outros. Um exemplo óbvio é a junção contemporânea da internet com o telefone celular.

O enorme avanço na acessibilidade da informação e na fácil comunicação pessoal é inegável. Mas esses avanços tecnológicos trouxeram com eles desinformação, deep-fakes, uma avalanche de discursos de ódio, a fragmentação da esfera pública, vício em redes sociais e todos os problemas psicológicos associados.

Assim, argumenta Rahel Jaeggi, não é suficiente diversificar o conceito de progresso, uma vez que só podemos avaliar se formas localizadas de progresso são benéficas – e assim constituem progresso em sentido enfático – com referência a alguma concepção de aprimoramento do bem-estar de uma forma de vida como um todo. Mas como podemos validar tal concepção?

Como Rahel Jaeggi coloca, está longe de ser fácil alcançar o consenso no que diz respeito a tal definição de progresso que transcenda o contexto, “que não se exponha à suspeita de etnocentrismo e de uma falsa universalização ideológica e paroquial, diante da diversidade de possíveis orientações normativas e tradições consolidadas”.[x] Colocando a questão em outros termos: se o conceito de progresso em seu sentido enfático refere-se às características de uma forma de vida como um todo, como nós podemos justificar comparações qualitativas entre “antes” e “depois”?

Tendo em vista esse problema intratável, pode-se entender a motivação do projeto de Rahel Jaeggi: defender o conceito de progresso ao mesmo tempo em que evita a necessidade de tais comparações. Seguindo seu foco no processo ao invés de no resultado, a contribuição mais significativa feita por seu livro consiste em sua investigação das qualidades vividas da transformação social, nos termos da “lógica do enriquecimento, da aprendizagem, da acumulação de experiência”[xi] e, correlativamente, da dinâmica motivacional da regressão, às quais ela volta no capítulo final do livro.

Mesmo aí, entretanto, pode-se argumentar que há mais conteúdo político na posição de Rahel Jaeggi do que ela própria reconheceria. Afinal, claramente, mesmo no domínio social, progresso genuíno pode ser promovido por medidas de cima para baixo ou por desenvolvimentos tecnológicos. É fato conhecido que a legislação pode frequentemente ajudar a acelerar mudanças mais amplas nas atitudes – por exemplo, concernentes ao comportamento sexual ou tratamento de minorias – em vez de simplesmente refletir tais mudanças.

E a própria Rahel Jaeggi enfatiza o papel que fatores materiais e técnicos podem desempenhar na inovação moral. Assim, faz sentido interpretar seu argumento como especialmente voltado para o que às vezes é chamado de política “prefigurativa” – cujos objetivos da transformação já são antecipados nos meios pelos quais a mudança é conquistada. O progresso alcançado dessa maneira, é fácil argumentar, será menos vulnerável à reversão.

6.

Entretanto, essa defesa implícita na abordagem de Rahel Jaeggi não se encaixa bem com a apresentação de sua tarefa como uma elucidação sócio-filosófica do conceito de progresso como uma “categoria analítica e explicativa”, voltada para salvar seu núcleo viável.

A esse respeito, uma dificuldade decisiva é posta pela sua concepção de solução de problemas. Como nós vimos, Rahel Jaeggi descreve formas de vida como marcadas pela contraditoriedade (Widersprüchlichkeit) e pela suscetibilidade a crises (Krisenhaftigkeit). Ao fazer isso, ela recorre com frequência a Hegel como inspiração da ideia de que formas de vida geram contradições internas e que elas são o motor da transformação histórica.

Entretanto, em Hegel, mesmo contradições sociais têm uma estrutura lógica objetiva, a qual fundamenta conflitos de sentimentos e opiniões, como em sua teoria geral sobre o desenvolvimento histórico. O mesmo não pode ser dito sobre as contradições e os problemas em geral tais como descritos por Rahel Jaeggi. Ela define a contradição como uma situação em que um conjunto de práticas sociais é constituído de modo que acaba por minar a si mesmo.

Contudo, a menos que adotemos algum tipo de funcionalismo, uma abordagem à qual Rahel Jaeggi se opõe vigorosamente em outros textos,[xii] é difícil perceber essa situação como objetivamente dada. De fato, Rahel Jaeggi admite: “é importante ter clareza de que há tanta discordância sobre o que constitui um problema, uma contradição ou uma crise, como também sobre aquilo que as resolve”.[xiii] E isso, porque “crises não são apenas normativamente constituídas (ou seja, crises do normativo); também a descrição de algo como crise é uma descrição normativamente configurada, que repousa sobre uma avaliação abrangente de uma situação e a orienta”.[xiv]

Neste ponto, alguém poderia ficar tentado a recorrer ao argumento central de Rahel Jaeggi de que a progressiva transformação é caracterizada pela abertura às novas experiências e pela disposição para o aprendizado reflexivo, enquanto mudanças regressivas são marcadas pelo que ela chama de bloqueio da experiência (Erfahrungsblockade). Talvez esse argumento possa ser ampliado para sugerir que as crises genuínas são identificadas a partir da disposição a aceitar novas experiências e aprender?

Entretanto, mesmo a questão sobre o que constitui esse ponto de partida pode ser contestada. Para utilizar um exemplo em que o mais básico conflito econômico está em jogo, Friedrich Hayek argumentou, de forma célebre, que as ideias socialistas são inerentemente nostálgicas e regressivas, voltadas para estágios primitivos da organização social. A modernidade é uma jaula de ferro e nós não teríamos outra opção que não fosse aceitar que considerações morais não podem ser diretamente aplicadas à catalaxia do mercado sem consequências contraprodutivas.

De uma perspectiva hayekiana, então, são os socialistas que não estão abertos a aprender sobre as limitações de nossa habilidade em moldar o mundo e conscientemente dirigir o processo econômico. A tentativa de recriar a comunidade altruísta e solidária sob as condições modernas está condenada ao fracasso[xv].

Esse exemplo contundente deixa claro que problemas nas formas de vida não podem ser identificados independentemente de uma determinada concepção do tipo de sociedade para o qual se quer caminhar, assim como a consideração de sua viabilidade. Rahel Jaeggi afirma: “As sociedades não têm um objetivo, elas resolvem problemas”.[xvi] Embora isso possa ser verdade no sentido de que as sociedades como tais não têm objetivos inscritos em si mesmas, indivíduos e coletividades têm objetivos – e à luz disso que os problemas emergem.

7.

Nesse contexto, vale a pena relembrar que os primeiros representantes da Teoria Crítica não hesitaram em apresentar alguma caracterização genérica do objetivo do progresso sócio-moral, fundamentado em insights sobre a interdependência da liberdade e razão herdados do idealismo alemão: por exemplo, “autonomia” e “reconciliação”,[xvii] em Theodor Adorno, “comunicação livre de dominação”,[xviii] em Jürgen Habermas, e “liberdade associada à solidariedade e não oposta a ela”,[xix] em Axel Honneth.

Embora até mesmo essas formulações muito abstratas possam ser vistas por alguns como vulneráveis a críticas pós-coloniais, há indícios no livro de Rahel Jaeggi de que ela não iria tão longe. Por exemplo, na resposta à rejeição da noção de progresso de Amy Allen,[xx] ela sugere que a base socio-teórica e o método da crítica imanente não poderiam ser totalmente descartados como eurocêntricos.

De fato, comentários feitos por Rahel Jaeggi acerca dos “autoenganos”, “unilateralidades” e “relações de dominação” que bloqueariam as experiências que levam à resolução bem-sucedida sugerem que não seria tão difícil derivar uma imagem abstrata, porém não inteiramente vazia, de sociedade melhor a partir de seu pensamento. Isso indica que a noção de progresso como uma “experiência dialética cumulativa”[xxi] não pode adquirir completa precedência sobre certa concepção do bem ainda-não-realizado.

A miséria da esquerda na corrente situação global não é tanto a carência de concepção acerca do que seria uma sociedade melhor, mas que haja tão pouca ideia de como se dirigir a ela. A era industrial da revolução e da reforma chegou ao fim e, quaisquer que sejam seus resultados, é difícil de se lamentar sobre aquilo que Göran Therborn chamou de “arrogância e miopia modernista”.[xxii] Mas, no mundo emergente do desastre ecológico e da hostilidade entre grandes potências, das quais nenhuma pode legitimamente reivindicar ser de esquerda, é difícil identificar uma linha sócio-histórica que possa nos guiar através do labirinto rumo a um futuro melhor.

*Peter Dews é professor de filosofia na Universidade de Essex. Autor, entre outros livros, de Schelling’s Late Philosophy in Confrontation with Hegel (Oxford University Press).

Tradução: Thomas Amorim & Luciana Molina.

Publicado originalmente em Suhrkamp Verlag, Frankfurt/M. 2023, 249 S. Lässt sich der Fortschrittsbegriff retten?

Referência


Rahel Jaeggi. Fortschritt und Regression. Berlin, Suhrkamp, 2023, 252 págs. [https://amzn.to/43gZEM1]

Notas


[i]eine fragwürdige Kombination aus theoretischem Relativismus und politischem Moralismus” (p. 11).

[ii]eine Kritische Theorie linkshegelianischer Prägung” (p. 37).

[iii]remained in some sense a beacon of hope. They proved that non-capitalist societies could exist; ergo, better ones, with more freedom and equality, were possible”.

Göran Therborn, “The World and the Left”, New Left Review, 137 (September-October 2022), p. 31. See also Therborn, ‘After Dialectics’, New Left Review, 43 (January-February 2007), and his reply to a critique by Oliver Eagleton, ‘The Left and the Future’, New Left Review, 145 (January-February 2024).

[iv]the conviction, basically correct, of the dialectical character of capitalist and colonial exploitation, provided the 20th-century left, reformist as well as revolutionary, with a long-term perspective and a resilient collective self-confidence which could survive the direst of times.” (The World and the Left, p. 30.)

[v]industrial era of revolution and reform” (ibid, p. 34)

[vi]Industrial capitalism has mutated into a form of digital-financial capitalism which does not produce or develop its own adversaries” (ibid, p. 38)

Alguns comentaristas chegaram a afirmar que estamos caminhando para uma era de “tecnofeudalismo”, onde um punhado de monopólios globais de tecnologia extraem “renda” – em vez de lucro – de “capitalistas vassalos” em troca de acesso a “feudos na nuvem”, enquanto o resto de nós trabalha de graça fornecendo conteúdo. Veja Yanis Varoufakis, Technofeudalism, Londres, 2023. Embora as alegações de Varoufakis sejam exageradas, seu livro destaca importantes desenvolvimentos socioeconômicos.

[vii] Ver Jürgen Habermas, Zur Verfassung Europas, Frankfurt/M, 2011, pp. 82-96.

[viii]Wir verstehen nicht erst, was der Fortschritt ist, wenn wir das Gute verstehen; wir verstehen, was das Gute ist, wenn wir den Fortschritt verstehen“. (p. 57)

[ix]dialektischer Anreicherungsprozess” (p. 67)

[x]die sich nicht dem Verdacht des Ethnozentrismus und der falschen, ideologisch-parochialen Universalisierung aussetzte, angesichts der Vielfalt möglicher normativer Orientierungen und gewachsener Traditionen.” (p. 180).

[xi]Logik der Anreicherung, des Lernens, der Akkumulation von Erfahrung” (pp. 165-166).

[xii] Ver Nancy Fraser and Rahel Jaeggi, Capitalism: a conversation in Critical Theory, Cambridge 2018, pp. 116-120.

[xiii] Wichtig ist nun, sich klarzumachen, dass es sowohl Uneinigkeit über das gibt, was ein Problem, ein Widerspruch oder eine Krise ist, also auch Uneinigkeit über das, was sie löst.’ (p. 155)

[xiv]Krise sind also nicht nur normative verfasst (also Krisen des Normativen), auch die Beschreibung von etwas als Krise ist eine normativ konfigurierte Beschreibung, die auf einer umfassenden Bewertung einer Situation aufruht und diese anleitet” (p. 155).

[xv] Para um comentário informativo, ver Andrew Gamble, Hayek: The Iron Cage of Liberty, Cambridge, 2013.

[xvi]Gesellschaften haben kein Ziel, sie lösen Probleme.” (p. 43).

[xvii] Autonomie and Versöhnung.

[xviii] Herrschaftsfreie Kommunikation.

[xix][xix] “individuelle Freiheit nicht auf Kosten, sondern mit Hilfe von Solidarität”.

[xx] Ver Amy Allen, The End of Progress. Decolonizing the Normative Foundations of Critical Theory, New York, 2015.

[xxi]dialektisch sich anreichender Erfahrungsprozess” (p. 43)

[xxii] The World and the Left, p. 38.


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