Propostas para a esquerda

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Por OSAME KINOUCHI*

Por uma esquerda renovada, que não tem medo de Deus, da Bíblia, da família e da bandeira brasileira, mas os incorpora como símbolos e temas em suas lutas sociais

Se o placar 367 x 137 na votação do impeachment de Dilma Rousseff não representa um retumbante fracasso das esquerdas capitaneadas pelo PT-PSOL-PCdoB então não é possível definir fracasso no dicionário. Assistindo cada voto da Câmara, em vez de apenas rir ou ridicularizar o baixo clero do “não”, comecei a analisar os votos em termos políticos, culturais e sociais. Apresento alguns pensamentos que creio que, senão academicamente perfeitos, são ao menos originais. Faço também algumas recomendações estratégicas para uma eventual vitória da esquerda em 2022,e para evitar um governo de minoria parlamentar (algo impossível na prática), mas que possa ter algum tipo de apoio mais amplo da sociedade.

Os memes do impeachment que ridicularizaram os deputados que votaram por Deus, pela Bíblia, pela família, pela pátria, pela bandeira e pela netinha não atingem o alvo. O momento é para reflexão, não para risos tristes. Minha proposta é que tais temas sejam repensados pela esquerda, e possam ser assumidos pela esquerda porque também a refletem. Como? E por quê?

A Religião não pode ser monopólio da direita

Isto porque não existe apenas a direita religiosa, temos no Brasil também uma Esquerda religiosa (embora seja minoritária), representada por exemplo por Frei Betto e Leonardo Boff, pela pentecostal Benedita da Silva e mesmo por Marina Silva, que se apenas se mantiver no centro já é de grande ajuda por tirar votos evangélicos da extrema-direita religiosa de Bolsonaro. Não podemos deixar que aconteça no Brasil o que aconteceu nos EUA, onde o Partido Republicano é o partido de Deus, da família, do patriotismo e o Partido Democrata é o partido dos laicos, feministas, LGBT+, anarquistas e ateus, uma eterna minoria no Senado mesmo que ganhe de vez em quando a presidência.

A votação do impeachment, com seu endeusamento de Deus, foi uma derrota para o ateísmo e o laicismo. Isso é curioso pois, embora a Direita inteligentemente retrata a esquerda como bando de ateus comunistas, uma pesquisa de opinião dentro da Esquerda provavelmente mostraria uma maioria de religiosos ou pelo menos pessoas que cultivam algum tipo de espiritualidade: Espírita, religiões de matriz africana ou indígenas, Budismo, Nova Era, Auto-Ajuda Espiritual, e até mesmo Jedaismo (que já é a quarta religião oficial do reino Unido). No presente momento histórico, os ateus ainda são minoria, e além disso temos muitos ateus neoliberais e mesmo de direita que votam contra a esquerda. Ou seja, a linha divisória importante não é a religião, mas sim a ideologia política. Ateu é minoria mesmo nas esquerdas, e verdadeiro comunista também é minoria. Ou seja, a atual Esquerda brasileira é tudo menos ateia e comunista. Então, por que não propagandear isso e calar a boca da Direita?

Além disso, tanto o Deus judaico-cristão como a Bíblia estão intimamente relacionados com a emergência no mundo antigo dos conceitos de igualdade de todos e justiça social (em contraste com as sociedades de castas greco-romanas e orientais). A primeira Utopia social foi a Terra Prometida dos judeus primitivos, onde a propriedade das terras é das famílias e não existem faraós, reis, príncipes ou nobres e uma reforma agrária radical ocorre a cada 49 anos.

Isso é a verdade profunda da Teologia da Libertação (TL), motivadora de inúmeros fundadores do PT, PSOL (Plínio de Arruda Sampaio era militante católico) e de movimentos sociais, que precisa ser ressuscitada, talvez eliminando-se dessa Teologia a supérflua análise marxista (pois essa conjunção permitiu caracterizar a TL como doutrinação marxista). Uma análise mais científica e consensual à la Thomas Piketty já é mais que suficiente para defender os programas sociais e buscar melhor distribuição de renda, algo já difícil em tempos de bolsonarismo. Caso o leitor se interesse, busque em uma Bíblia online as palavras “pobre”, “rico” e “justiça”, e leia os versículos correspondentes. A direita ficará escandalizada, a esquerda ficará confortada e mesmo impressionada. Quem sabe teremos um dia parlamentares religiosos de esquerda citando o Deus de Justiça da Bíblia para defender os oprimidos. Isso não precisa ser visto como quebra do laicismo, mas sim como enorme força cultural, a mesma que motivou Martin Luther King e Cardeal Arns. A religião não é monopólio da direita.

A Família não pode ser monopólio da Direita

A Esquerda deve demonstrar que os programas sociais como o Bolsa Família, o combate à violência doméstica e ao machismo, e até mesmo o casamento homossexual, apoiam todos a ideia de família estável e organizada. Deixemos o conceito de família como instituição machista opressora para um feminismo datado dos idos de 1950. A família moderna, inclusive a heterossexual, é hoje muito mais que isso. Divulguemos a série de TV Modern Family e celebremos as famílias acolhedoras. Inclusive, se comentou nas redes sociais que o fato dos deputados de esquerda não citarem suas famílias parecia indicar que não tinham nenhuma, seriam os solitários e misantropos da sociedade, gerando enorme desconfiança do povo mais simples (que deveria ser o eleitorado da Esquerda). A família não é monopólio da direita.

A Bandeira e o Hino nacionais não podem ser monopólio da Direita

Infelizmente, por motivos históricos, a esquerda se associou à cor vermelha, que tem valor simbólico e metafórico muito negativo: sugere sangue, violência e mesmo o Demônio. Nota vermelha, ficar vermelho no cheque especial, sinal vermelho etc.: inúmeras conotações negativas para a palavra “vermelho” (tente pensar em alguma expressão positiva, pode existir mas é difícil).

Que tal a esquerda mudar suas cores? Afinal, por que perder o poder e as eleições por causa de uma cor de bandeira? Sugiro as cores branca (símbolo da Paz, já usado pelo PT), a cor verde (símbolo do ambientalismo progressista e cor presente na bandeira do MST) e a cor amarela, assumida recentemente pelos movimentos pró democracia. Talvez pudéssemos usar o azul do céu da bandeira e da Virgem Maria eventualmente, para confundir as coisas… O que as esquerdas não podem deixar se implantar é a ideia de que a Direita é patriota e a Esquerda não o é e nem tem apreço pela bandeira brasileira. Lembremos o slogan (muito eficaz) “Minha bandeira nunca será vermelha!”. O mesmo pode-se se falar do Hino Nacional, que deveria ser cantado com a mão no peito em cada manifestação de esquerda. A Bandeira e o Hino não são monopólio da direita!

Fora essas escolhas simbólicas equivocadas, que só tem prejudicado o avanço das esquerdas, que tal tirar o nome “Comunista” de alguns partidos de esquerda? Afinal, o PT e o PSOL não são comunistas e o PC do B o é só no nome. Na prática, nas propostas concretas defendidas por esses partidos no Congresso, eles são todos socialistas-democráticos. Acho que ninguém (OK, quase ninguém) realmente defende o sistema de partido único. Atingir e sustentar um Welfare State como o do Canadá, países europeus avançados e mesmo o Japão (que tem a melhor distribuição de renda no mundo, descontando republiquetas pseudo-comunistas) seria uma imensa vitória para as esquerdas do Brasil no século XXI, pois já é um alvo muito difícil de alcançar em tempos de neoliberalismo.

Lembremos também que, para o eleitor comum, a foice não é um símbolo heroico de lutas camponesas históricas, mas sim um ícone que sugere violência gratuita, atraso tecnológico (quem ainda usa foices na agricultura moderna?) e quem sabe Jason em Sexta-feira 13. Realmente, em 2013, a foice e o martelo foram eliminados dos cartões de militante do Partido Comunista francês. Este desaparecimento é feito em nome da “modernização”, explicou o líder Pierre Laurent. Deixemos então a foice para a caveira Dona Morte. Que tal substitui-la por uma Árvore, símbolo da Vida, do Conhecimento e do Feminino?

Infelizmente um símbolo das esquerdas não poderá ser eliminado é a própria palavra “Esquerda”, que remete às metáforas do Sinistro, do Demoníaco, contrário ao Direito, ao Reto (os justos ficam à direita de Deus). Braço-direito é positivo, mas é uma ofensa cumprimentar alguém com a mão-esquerda, que era usada ao longo de toda a história da humanidade para limpar o ânus antes da invenção do papel higiênico. Bom, mas quanto a este infeliz acidente histórico, baseado no lado onde os revolucionário ficavam no parlamento francês depois da Revolução Francesa, não temos muito o que fazer, não é? Ou poderíamos apenas ficar conscientes das metáforas sugeridas pelo termo esquerda, metáforas que influenciam o povo simples, mas sem eliminar o rótulo de Esquerda em discussões acadêmicas?

O Ambientalismo não é monopólio da Direita

E que tal incorporar o discurso ambientalista moderno, a defesa da Biodiversidade e as novas propostas de energias alternativas que geram inovação tecnológica, empregos e competitividade econômica? Esse é o discurso dos Verdes europeus que tem cada vez mais ressonância na sociedade. Que tal recriar as pontes com Marina (que ainda tem influência simbólica e internacional, que pode captar o eleitorado evangélico para a centro-esquerda, que tem recall equivalente a Lula e muito menos rejeição que o mesmo)? Isso é possível, e demonstrado pelo pedido de cassação de Cunha capitaneados pelo PSOL e REDE. Um ambientalismo baseado em evidências científicas e na defesa da Biodiversidade é a bandeira de quase todos os cientistas brasileiros, intelectuais, artistas, formadores de opinião e mesmo de uma classe média mais generosa e com consciência social. O Ambientalismo não é monopólio da Direita.

O Anarquismo jovem de rede não pode ser monopólio da Direita

E que tal incorporar também um pouco de Anarquismo inspirado nas redes sociais e na Internet, Anarquismo que fascina nossos jovens que saíram às ruas nas grandes passeatas de 2013. Um pouquinho de Anarquismo de rede não faz mal a ninguém, desde que usado em prol dos oprimidos.

Finalmente, que tal angariar o apoio dos herdeiros do grande capital? Isso mesmo, dos jovens filhos de gente rica que, pela educação universitária e pela consciência existencial e social, não sabem o que fazer com seu dinheiro mas gostariam de ajudar um programa progressista e ambientalista. Essa gente existe, cito aqui o Instituto Serraapilheira, e seus recursos podem e devem ser usados pelas esquerdas em prol dos seres humanos e ecossistemas oprimidos.

E que tal mostrar aos liberais econômicos e políticos que seu apoio à extrema-direita secular ou religiosa é desastrosa para seus próprios interesses? Afinal, Hitler e os neo-Integralistas brasileiros nunca foram amigos do capital internacional e do verdadeiro liberalismo econômico. Que tal unir forças, taticamente, com os verdadeiros liberais, para barrar o domínio do Brasil pela bancada da direita religiosa, do ruralismo atrasadoe da bancada da bala? O capital cosmopolita, eco-socialmente responsável, não é monopólio da direita.

Será que minhas propostas são muito ingênuas ou radicais? Ou será que são extremamente práticas e realistas, por desmontarem o discurso da direita, por resgatarem temas importantes do monopólio religioso fundamentalista, por evitarem a polarização política que fortalece a extrema-direita brasileira, por facilitarem a criação de uma nova maioria progressista na sociedade e no Congresso? Ou será que não aprendemos nada com as derrotas para Reagan, Thatcher, a queda do Muro, a queda da URSS e Trump? Seremos tão dogmaticamente cegos, marionetes inerciais de uma simbologia datada, equivocada e desastrosa?

Uma esquerda renovada, que não tem medo de Deus, da Bíblia, da família e da bandeira brasileira, mas os incorpora como símbolos e temas em suas lutas sociais, será a única esquerda capaz de derrotar a extrema-direita brasileira.

*Osame Kinouchi é professor do Departamento de Física da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (USP).