Introdução ao método de Leonardo da Vinci

Willem de Kooning, Untitled XIX, 1977

Por ALFREDO BOSI*

Comentário sobre o livro de Paul Valéry

A Introdução ao método de Leonardo da Vinci ilustra com perfeição a ideia de que é o ensaísta que constrói o objeto do seu ensaio. O puro artista da mente, o gênio da fantasia exata erigido por Paul Valéry como o supremo ideal da sua própria arte de escritor, é um dos Leonardos possíveis que a memória do Renascimento italiano nos legou. Entender essa imagem de Leonardo é a via real para compreender a poética de Valéry.

O poeta-crítico tinha apenas 23 anos, em 1894, quando redigiu a primeira versão desse texto, que, no entanto, consegue levantar problemas originais em torno de um mito literalmente submerso por 300 anos de grandes louvores e miúdas curiosidades. Valéry, com um golpe de intuição certeira, foi logo ao cerne da questão, ignorando a massa de escritos anedóticos que obstruíam a visão do gênio. Importava-lhe descobrir como Leonardo pensava o seu próprio modo de conhecer e de criar. E o ensaio cumpriu fielmente seu propósito.

O poeta de Charmes já se revelava, nestes seus primeiros escritos, refratário àquele hábito intelectual que o nosso irreverente José Paulo Paes chamava “obnubilação bibliográfica”, que é o vezo tedioso de só enxergar o seu objeto através das lentes de outros leitores, o que resulta em uma fieira pedante de citações. Como Leonardo, Paul Valéry queria começar olhando o mundo com os seus próprios olhos.

O que Valéry colhe no Tratado da pintura é, em primeiro lugar, o elogio vibrante que o artista fazia da imagem e, portanto, da visão como o caminho por excelência do conhecimento. Sabe-se a que extremos chegou Leonardo na sua comparação das artes plásticas com as artes da palavra, relegando estas ao modesto lugar platônico de cópias de segunda mão, sombras de objetos que o pintor -e só o pintor- transpõe e fixa com o seu engenho ao mesmo tempo mimético e construtivo.

Valéry, retomando livremente Leonardo, diz: “A maioria das pessoas vê com o intelecto muito mais frequentemente do que com os olhos. Em vez de espaços coloridos, elas tomam conhecimento de conceitos. Uma forma cúbica, esbranquiçada, vista em altura, e vazada de reflexos de vidro, é, para elas, imediatamente uma casa: a Casa! Ideia complexa, acorde de qualidades abstratas. Se elas se deslocam, o movimento das fileiras de janelas e a translação das superfícies que desfigura continuamente as suas sensações lhes escapam -pois o conceito não muda”. E adiante: “Mas as pessoas se deleitam com um conceito que pulula de palavras”.

O campo infinitamente vário do visível com as suas modulações de luz e sombras (como não pensar no mestre do sfumato?) ou o movimento incessante das ondas do mar, que a linha horizontal do pensamento abstrato ignora, são para o artista os verdadeiros objetos de sua invenção plástica. É o que Valéry sugere nas suas anotações à margem da Introdução ao método de Leonardo da Vinci: “Uma obra de arte deveria sempre nos ensinar que nós não tínhamos visto o que vemos”. E em nível mais alto de generalização: “A educação profunda consiste em desfazer a primeira educação”. Trata-se de uma renovada disciplina do olhar e pelo olhar.

Valéry, atento à aventura da mente criadora, parece não se interessar pela gênese cultural das ideias de Leonardo. É o processo interno de um pensamento ousado que o atrai. No entanto, as ideias têm a sua história e a sua função no âmbito de cada momento da arte ocidental. Leonardo conheceu, na Florença dos fins do século 15, a convivência tensa do idealismo dos neoplatônicos prestigiados no círculo de Lorenzo de Médici e o naturalismo pujante do novo ethos renascentista.

Quem examina de perto os seus fragmentos – às vezes concisos como enigmas – pode recortar ora passagens em que a mente humana é exaltada em si mesma como infinitamente mais rica do que a natureza, ora descrições entusiásticas do corpo humano, de que ele foi um dos primeiros anatomistas, ou da paisagem toscana ou alpina, onde tudo é cor, movimento, vida.

No primeiro caso, a pintura é cosa mentale: objeto da inteligência elaborado com hostinato rigore (“hostinato“, com “h”, em vez do correto “ostinato“, tem a ver com um Leonardo alheio à erudição letrada do seu tempo…). Trata-se aqui do rigor geométrico da perspectiva, criação então recente e que subordinava a matéria da visão à racionalidade de um olho centralizador. A perspectiva era, para Leonardo, a ponte que unia arte e ciência.

No segundo caso, a pintura é técnica em perene estado de experiência e invenção, perícia no uso dos materiais com o fim de figurar e transfigurar a variedade das formas corpóreas, os matizes, o jogo da luz e da sombra. Leonardo, no dizer de Valéry, é o “mestre dos rostos, das anatomias, das máquinas, aquele que sabe do que se faz um sorriso”.

De todo modo, Valéry alcançou reconstituir um artista-modelo intelectualmente coeso, um pensador que não só experimenta sem cessar, mas também reflete sobre o sentido do seu trabalho.

Não é possível nem desejável resumir as sutis observações que se multiplicam ao longo da Introdução ou na “Nota e Digressão”, de 1919; ou enfim na carta a Léo Ferrero, publicada em 1929 sob o título de “Leonardo e os Filósofos”. Este último texto é particularmente rico de reflexões ainda bastante atuais sobre o caráter redutor e uniformizante das estéticas que se pretendem universais. Em contraponto, o crítico valoriza as descobertas que os próprios poetas e pintores fazem quando falam da sua arte.

*Alfredo Bosi (1936-2021) foi professor Emérito da FFLCH-USP e membro da Academia Brasileira de Letras (ABL). Autor, entre outros livros, de Arte e Conhecimento em Leonardo da Vinci (Edusp).

Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo / Jornal de Resenhas no. 34, em 10/01/1998.

Referência


Paul Valéry. Introdução ao método de Leonardo da Vinci. Tradução de Geraldo Gérson de Souza. São Paulo, Editora 34.