Por CRIXUS BABEUF & ULYSSES BATKO*
A resistência ao ICE em Minnesota ensina que a defesa passiva não basta quando o inimigo não recua um milímetro
1.
Enquanto escrevemos isto, já se passaram cerca de dez dias desde o assassinato, em 24 de janeiro, de Alex Pretti, pelas mãos de Jesus Ochoa e Raymundo Gutierrez, os veteranos agentes da CBP, com o auxílio de outros quatro agentes federais de segurança ainda não identificados. Há décadas em que nada acontece, semanas em que décadas acontecem, e, então, existem décadas em que o mundo se recusa a se abalar e em que aquilo que deveria ter acontecido luta para emergir.
O movimento real engasga e gagueja, enquanto breves conflagrações de vingança proletária resistem a se aglutinar para a ruptura necessária. Os policiais são expulsos de Whittier, apenas para que as barricadas sejam demolidas por esses mesmos policiais na manhã seguinte, tal como foram depois que Renee Good foi assassinada.
A rede de hotéis Home2 Suites by Hilton em Minneapolis foi violada e os agentes do ICE alojados ali foram evacuados, e, dois dias depois, centenas de manifestantes se reuniram em frente ao SpringHill Suites em Maple Grove e hesitaram cruzar uma linha sacralizada de fita policial, a única barreira entre eles e a propriedade do hotel onde, em um quarto cujo número é conhecido por alguém lá dentro, Bovino repousa sua cabeça desengonçada.[i]
Muito embora as manifestações noturnas diante dos hotéis tenham persistido, ampliando seu alcance até os subúrbios mais periféricos, os manifestantes até aqui não conseguiram replicar o sucesso no Home2Suites, ao passo que as respostas das forças policiais municipais tornam-se cada vez mais vingativas, impondo aos detidos acusações cada vez mais draconianas pelo crime de fazer algazarra na calçada.
Todo gesto de escalada parece refluir de volta para a surreal nova vida cotidiana de patrulhar bairros, vasculhar placas de carros, e responder – em geral tarde demais – aos sequestros que uma multidão armada com apitos e celulares é lamentavelmente mal equipada para impedir, e que, de algum modo, ainda assim ocasionalmente consegue frustrar. “Rapid response” é o apelido que pegou, mas “ICE fishing” (para estender o termo do mais monótono dos passatempos minnesotanos) parece mais apropriado, dado o seu ritmo efetivo e a natureza altamente estocástica de seus raros sucessos. A nova vida cotidiana seria tão tediosa quanto a antiga, não fosse o fato de que é bem possível que você leve um tiro por vivê-la.
Até aqui, poucas das mentiras enumeradas por Phil Neel precisaram ser ditas. Em vez de nos assegurarem que os assassinos serão processados, um silêncio ominoso emana dos corredores do poder municipal e estadual; talvez saibam que, desta vez, nós não acreditaríamos neles? E, enquanto aguardamos ansiosamente o dilúvio de cujos destroços um novo “Umbrella Man” poderia ser fabricado, os filetes de chuva insurrecionária têm sido parcos demais para que a ala esquerda da contra-insurgência sequer se dê ao trabalho de invocar o espectro do agente provocador ou do “agitador outsider”.[ii]
A polícia e a Guarda Nacional reforçaram a capacidade operacional do ICE e, ainda assim, não houve motins, nem greves e nem sequer (na falta de um acerto de contas coletivo) qualquer revide desesperado a tiros por parte de indivíduos.
2.
A mentira predominante durante este período de delírio é que nós estamos vencendo e que o que estamos fazendo está funcionando. Como toda mentira, esta também comporta seu momento de verdade. No rescaldo do assassinato de Pretti, milhares admiravelmente redobraram seus esforços de patrulhamento e ajuda mútua, enquanto milhares mais foram recém-atraídos. O compromisso e a dedicação de tantos minnesotanos aparentemente infatigáveis, sem dúvida, salvaram vidas e mitigaram os horrores que a Gestapo federal teria, de outro modo, infligido aos nossos vizinhos.
Os agentes de imigração em campo estão, ao que tudo indica, desmoralizados e exaustos,[iii] a opinião pública voltou-se decisivamente contra o ICE,[iv] e cerca de 700 federais estariam, alegadamente, saindo como parte do chamado “Drawdown” de Tom Homan, o nosso “Czar da Fronteira”. No entanto, o que o público pensa com bastante frequência tem pouco a ver com o que de fato acontece,[v] pois o assim chamado Drawdown é uma afirmação não corroborada vinda de uma agência sem qualquer credibilidade. Seja lá quantos agentes de fato ali continuam e permanecem – sejam 3.000 ou 2.300 –, eles estão sim desmoralizados, mas não foram embora e nem estão incapacitados.
Em um artigo recente, Ken Klippenstein nos assegura que “na guerra do ICE, o público está vencendo”. É um título involuntariamente irônico para um artigo que detalha o estoque de munições de controle de multidões que as autoridades federais acumularam para lidar com esse mesmo público.[vi] Suponha que pudéssemos acreditar no número de “setecentos” de Homan – isso ainda deixaria 2.300 agentes do ICE e da CBP em campo, mais de três quartos do contingente original do Surge (e não dois terços, como Klippenstein calcula).
Trata-se de uma ordem de grandeza maior do que o número de agentes de imigração estacionados aqui antes do Surge, e de mais pessoal do que as cinco maiores agências de segurança pública estaduais, de condado e municipais de Minnesota combinadas.[vii] Desde o assassinato de Renee Good, aproximadamente o mesmo número de pessoas foi sequestrado e transportado de avião para campos de concentração escondidos em desertos, pântanos e terras devastadas, para aguardar deportação, execução ou coisa pior.[viii]
Não obstante a retórica do “Drawdown”, Donald Trump enfatizou que os sequestros e as deportações continuarão sem trégua, e um juiz federal de Minnesota recentemente reafirmou a legitimidade da Operação.[ix]
3.
Nós não estamos vencendo. A mentira de que estamos funciona como uma fantasia compreensível, ainda que compensatória, forjada sob condições verdadeiramente impiedosas de sequestros e abusos cotidianos, ao lado da labuta não remunerada de uma resistência que esperamos desesperadamente que dê resultado.
Esse copium das massas, no qual todos nós não podemos deixar de nos entregar em graus variados, oferece um breve alívio diante da realidade insuportável de que a resistência tal como a temos conduzido não apenas fracassou em expulsar o ICE, como sequer em impedir que eles matem nossos patrulheiros, ao mesmo tempo em que expõe muitos de nós ao mesmo risco. “Todos os nossos esforços são fracassos até vencermos”, como disse certa vez um camarada já falecido.
Nós só venceremos quando todos os agentes do ICE e da CBP estiverem fora de Minnesota. Não nos deixemos enganar por proclamações confortadoras e prematuras de vitória. Concessões nunca são apenas concessões, mas tentativas de pacificação e desmobilização. A remoção de Gregory Bovino e sua substituição pelo “Czar da Fronteira”, Tom Homan, é precisamente uma dessas tentativas.
Em O Príncipe, Nicolau Maquiavel relata o recrutamento, por Cesare Borgia, o Duque da Romanha, do “cruel e inescrupuloso” Remmiro de Orco para supervisionar e subjugar os habitantes de um território conquistado.[x] Depois de aterrorizar a população até a submissão, por ordem de Borgia, o Duque tratou de se desfazer de seu ministro capanga, o seu homem do machado. Exibindo o corpo de Orco, partido ao meio, estendido na praça para que todos vissem, o espetáculo sangrento do Duque o elevou, na mente da própria população que ele havia subjugado, ao estatuto de libertador.
O cadáver mutilado de Bovino não precisou ser exibido na esquina da Rua 26 com a Nicollet; bastou enviá-lo para a aposentadoria para que as lideranças da cidade e do estado ficassem tão “satisfeitas e estupefatas” quanto os enganados habitantes da Romanha. Desse modo, o arquiteto da separação de famílias sob Trump e Biden torna-se, farsescamente, o garoto-propaganda do assim chamado “Drawdown”, enquanto estatísticas meticulosamente compiladas no terreno não mostram qualquer arrefecimento na atividade do ICE desde a partida do então “Commander-at-Large”.
Mesmo antes de Homan anunciar um número, o prefeito Frey nos assegurou que “alguns” agentes federais já haviam ido embora, como se isso bastasse, e como se ele tivesse a menor ideia (certamente teria fornecido um número se dispusesse de informação confiável). O governador Walz recuou imediatamente de qualquer pretensão de santuário para migrantes e anunciou sua disposição de “trabalhar com” o novo ministro que supervisiona o sequestro e o assassinato de membros de seu eleitorado. Bovino desaparece apenas para que os capangas se multipliquem. Seriam necessários muitos cadáveres em praças públicas para nos deixar satisfeitos.
4.
Apenas duas semanas atrás, enquanto Bovino e seus capangas aterrorizavam diariamente os moradores do sul de Minneapolis, qualquer fala em escalada encontrava a já conhecida repreensão e as admoestações para “não morder a isca”, sob pena de invocarem a Insurrection Act numa cidade já sob lei marcial de facto, ou de uma Alaska Airborne Division ser destacada para ruas já patrulhadas por 3.000 agentes federais com o dedo no gatilho e pela desajeitada Guarda Nacional.
Agora, com Bovino fora de cena, essas mesmas vozes estridentes nos dizem para não escalar, porque adultos razoáveis voltaram a estar no comando, e porque nós fizemos isso acontecer. Do nosso ponto de vista, pouco importa que o DHS (Department of Homeland Security) não tenha dado nenhuma razão oficial para a demissão de Bovino, ou que o “Drawdown” venha sem cronograma definido ou números corroborados. Coube aos liberais fazer girar a narrativa de uma vitória parcial, em grande medida por iniciativa própria, tropeçando, em seu estupor pacifista, em buracos abertos no lago congelado, cativados pelas cores brilhantes de um peixinho de plástico.
Isso sim é “morder a isca”! Dura ou branda, quando a contra-insurgência se avizinha, a prescrição estratégica desses covardes permanece a mesma: abaixe a cabeça e continue lutando a boa luta, exatamente como temos feito, sendo que aquilo em que isso consiste foi precisamente o resultado de escaladas anteriores, antes repreendidas sob esses mesmos argumentos. As espirais de pacificação e recuperação formam uma dupla hélice.
Estamos contentes com este novo business-as-usual? Quão sustentável é a recém-encontrada labuta de nossos modos puramente defensivos de resistência? As batalhas jurídicas intermináveis e sempre passíveis de derrota serão suficientes? Talvez, em cinco anos, elas resultem em algum oficial de patente intermediária recebendo um mero puxão de orelha por ter permitido que placas de carros fossem trocadas sob sua supervisão.
Até mesmo as formas mais participativas e empoderadoras de resistência – a rapid response acima de tudo – tiveram de se adaptar continuamente em meio às mudanças táticas do inimigo e começaram a mostrar seus limites sob o atual modelo legalista, em que os respondentes são concebidos como meros “observadores legais”, com o chapéu verde da NLG (National Lawyesrs Guild) sendo agora trocado pelo apito do ativista orgânico. Os mercadores da legalidade querem que acreditemos que não há mais nada a fazer.
Se a saída de Bovino e o “Drawdown” de Homan vão equivaler a uma concessão genuína conquistada “pelo movimento” é, neste momento, indeterminado. Vitória parcial ou truque pacificador, o desfecho depende da determinação dos minnesotanos em continuar escalando e experimentando, apurando suas táticas, ampliando seus alvos e se adaptando às condições alteradas, sem ceder um palmo ao inimigo. Continuar como temos feito é grosseiramente inadequado: para nós mesmos, para nossos vizinhos e para a memória de Renee Good e Alex Pretti.
5.
Independentemente do que façamos ou digamos, as pessoas (inclusive nós) continuarão a se engajar nas formas de resistência legal e oficialmente sancionadas que surgiram desde o fim de novembro, e de modo algum pretendemos sugerir que nenhuma delas dará frutos – a névoa do nosso momento delirante é opaca demais para proclamações categóricas -, mas certamente muitas dessas mesmas pessoas anseiam por algo mais do que a eterna recorrência dos últimos dois meses.
Para essas pessoas, há outra mentira que vale a pena assinalar, contada com tanta frequência que mal chega a ser percebida como mentira: a de que o significado das redes de “rapid response” que surgiram organicamente entre grandes contingentes de pessoas por todo Minnesota reside, e deveria somente residir, em servirem como veículos de “observação legal”. Treinamentos e manuais oficiais enfatizam – por boas razões, reconhecemos – que esses “respondentes” não são “manifestantes”, mas observadores legais.
Porém, isso nunca foi realmente assim. Na cabeça da maioria das pessoas comuns, inclusive dos respondentes de base, o valor da rapid response reside mais em seus sucessos ocasionais em impedir sequestros do que nas evidências que ela passivamente reúne para processos judiciais. Quem, afinal, arriscaria levar um tiro apenas para assistir passivamente enquanto seus vizinhos são sequestrados e somente para que depois haja algum material para os advogados?
Quando a rapid response tem sido bem-sucedida naquilo que a tornou uma força de mobilização de massas – a saber, impedir sequestros –, ela invariavelmente envolveu o tipo de escárnio, provocação e barulho excessivo (oficialmente proibidos nos treinamentos oficiais de rapid response) pelo qual a observação legal transborda para a obstrução ativa, drenando a moral dos agentes federais em campo até que desistam.
Mesmo os apitos ridicularizados não são (e nunca foram) apenas um instrumento para alertar nossos vizinhos, mas uma arma sonora de baixo calibre para desfazer a detenção de potenciais sequestrados. Como poderíamos impedir sequestros de modo mais eficaz e desfazer a detenção de nossos vizinhos? Está na hora de ampliarmos nossos arsenais.
Na verdade, é a prática da rapid response que abriga as sementes mais potentes de escalada estratégica. Não são as demonstrações barulhentas em frente a hotéis, nem os sick-outs de um dia anunciados como “greve geral”, nem mesmo a ação direta autônoma (tudo isso que apoiamos), e certamente não as marchas armadas pelas ruas do sul de Minneapolis em estilo LARPy[xi] ou machão, mas, antes, aquele modo de resistência mais juridicamente inócuo e inclusivo que, até aqui, exibiu o maior potencial para de fato obstruir o regime de deportação. (À parte: vale notar que, nos subúrbios e nas áreas rurais, patrulheiras e respondentes ativas são desproporcionalmente mulheres, muitas delas mães).
6.
Mas as sementes que gestam nas redes só brotarão quando a rapid response passar a reconhecer e a realizar a si mesma como aquilo que ela sempre foi, a não ser em suas codificações oficiais. Isso não escapa aos nossos adversários. Em um tuíte viral, o ex-chapéu-verde Eric Schwalm plagia o ChatGPT para inventar uma caracterização patentemente ridícula, mas reveladora, da “infraestrutura de insurgência de baixo nível” das redes de rapid response dos minnesotanos.[xii]
O SchwalmGPT observa, não sem acerto, a estrutura intrincada e sofisticada das melhores e mais desenvolvidas dessas redes, com suas “comunicações disciplinadas”, diferenciação e especialização de funções (dispatch, patrulheiros, observadores, respondentes, inteligência, checadores de placa), e uso hábil de tecnologia digital criptografada. Concebidas em resposta à adoção, pelo ICE, de táticas de captura tipo snatch-and-grab mais difusas e de menor perfil, as redes de rapid response exibiram uma estrutura altamente elástica e adaptável, que facilita um rastreamento mais rápido e mais proativo dos movimentos do inimigo.
Sem surpresa, um homem aparentemente incapaz de escrever seus próprios tuítes mal consegue conceber que milhares de pessoas comuns tenham logrado desenvolver por conta própria essas consideráveis capacidades coletivas, optando, em vez disso, pelo tropo estruturalmente antissemita de que esses plebeus não treinados devem ter sido “[f]inanciados [e] treinados (em algum lugar)”. Não podemos deixar de achar lisonjeiras as descrições mais extravagantes no tuíte do SchwalmGPT; mas é, ai de nós, decididamente falso que tenha havido muita “[e]scalada rápida da observação para a obstrução física, ou pior”. Ainda assim, ele aponta um caminho.
Muito mais difundida do que a narrativa do “agitador outsider” tem sido a ladainha comum de que respondentes que escalem contra o ICE correm o risco de atrair “atenção desnecessária” para populações vulneráveis. Se, por exemplo, agentes federais fora de serviço num restaurante fossem identificados, vaiados e provocados enquanto comem, eles poderiam (reza a preocupação), em retaliação, mirar a equipe do restaurante com maior severidade.
Vimos essa lógica operar em tensões entre a dispatch – que muitas vezes prioriza manter um perfil baixo – e os respondentes, que não raramente se inclinam a confrontos mais ousados com agentes federais. A dispatch em geral mobiliza respondentes apenas no caso de sequestro iminente detalhado num relatório SALUTE corroborado e, fora isso, desencoraja qualquer interação com agentes federais, para que os respondentes ou os vulneráveis não sejam expostos a um risco desnecessário de violência.
Porém, se o ICE de fato não é bem-vindo aqui, então não deveria surpreender que eles sejam rastreados, filmados, estimulados auditivamente e assediados em toda oportunidade possível, não apenas enquanto montam seu posicionamento para agir ou no ato de conduzir uma batida. (Isso não quer dizer que chats de rapid response de canal vermelho não devam limitar seu acionamento de respondentes apenas aos casos acima mencionados, corroborados, de sequestro iminente).
7.
O surgimento de brigadas de filtragem no sul de Minneapolis é um desenvolvimento promissor nesse tipo de emprego ampliado dos recursos da rapid response para perturbar as operações do ICE.[xiii] Se as hostilidades chegassem ao ponto de o ICE desistir por completo de restaurantes com serviço à mesa, recorrendo a devorar rapidamente cachorros-quentes de posto em estacionamentos enquanto olham, apreensivos, por cima do ombro, seríamos mais simpáticos às narrativas de vitórias parciais.
Sem dúvidas, é compreensível que redes de rapid response com poucos recursos reservem suas mobilizações para as intervenções defensivas mais críticas; mas devemos ter cuidado para não fazer virtude dessa necessidade, sobretudo à medida que novos recrutas engrossam nossas fileiras e expandem nossas capacidades latentes. A melhor defesa da equipe de restaurante é um ataque eficaz, em que o ICE aprenda, por amarga experiência, que sentar em qualquer lugar convida à possibilidade real de um distúrbio desmoralizante. Nisso, os respondentes da rapid response têm algo a aprender com os fazedores de barulho dos hotéis.
Além de seu potencial insurgente latente, as redes de rapid response das Twin Cities sinalizam a possível ressurgência de uma vida cívica proletária independente do sistema bipartidário dominante e das instituições de uma sociedade civil decrépita e de um meio esquerdista. Especialmente nos subúrbios, milhares de pessoas da classe trabalhadora vislumbraram a perspectiva de uma experiência de comunidade mais significativa, após décadas de atomização e de um tecido social em decomposição.
A formação dessas redes, de Minneapolis e Saint Paul aos subúrbios, e mesmo avançando por partes das exurbs e do interior rural, forneceu um rico suprimento de oxigênio e nutrientes ao cérebro antes comatoso da vida cívica da classe trabalhadora, estimulando a formação de novas conexões sócio-neurais. Essas redes proto-políticas abrigam o potencial de amadurecer em instituições de classe encarregadas de coordenar uma ação política e econômica oposicionista sustentada, ao mesmo tempo em que restauram um tecido social prometido, embora nunca entregue, por tantas campanhas de fachada que, não raro, pouco mais fazem do que canalizar nosso anseio por agência coletiva para listas de e-mail transferíveis.
8.
Não devemos ignorar os obstáculos que enfrentamos: como poderíamos fomentar laços orgânicos entre pessoas atomizadas atraídas para as redes de rapid response e os grupos atualmente visados que elas pretendem proteger, dado que o ambiente construído em geral tem sido hostil à fraternização entre esses diversos segmentos do proletariado? (As escolas públicas têm servido como um dos poucos bastiões dessa fraternização – daí por que também foram os centros de ajuda mútua ao longo da presente luta).
Embora a repressão intensificada por vezes tenha aproximado esses grupos, os protocolos necessários de segurança da rapid response também estreitam as possibilidades de vínculos íntimos entre quem está na linha de frente e aqueles sob maior risco. O interior das Twin Cities constitui um vasto e altamente atomizado ermo, povoado por aspirantes a atiradores escolares, lobos solitários, cultos planetários de morte e uma população ressentida que muitas vezes, de modo intuitivo e correto, reconhece a futilidade de muitos esforços de “organização” e de projetos de esquerda.
Apesar dessas contradições – solúveis, é claro, apenas no curso de experimentação no terreno –, as conexões e as insinuações de comunidade exibidas pelas redes de rapid response são de fato precisamente o tipo de coisa de que qualquer projeto político coerente e de longo prazo necessitaria, no mínimo, para se sustentar e para manter seus participantes sãos. Os subúrbios de Minneapolis, em particular, nunca, em qualquer memória geracional ainda existente, estiveram mais ativados do que agora, e seus habitantes estão encontrando um sentido considerável em sua resistência ao regime de deportação e, de fato, precisam estar, do contrário, não suportariam a labuta, muito menos o risco de morte.
As mentiras que nos têm sido contadas servem para constranger os vasos sanguíneos do cérebro social em crescimento das redes de rapid response, debilitando assim uma inteligência coletiva emergente. Se essas redes devem permanecer sustentáveis, é imperativo seguir expandindo sua infraestrutura e fomentar coordenação presencial. O ritmo vertiginoso, esquizofrênico, da Blitzkrieg de Trump, somado à fadiga do Signal de rolar intermináveis grupos de chat cheios de apelidos meio ridículos, certamente vai nos esgotar. E isso, se não nos enlouquecer.
Encontrar um equilíbrio entre segurança e construção de comunidade coloca um desafio real, visível no crescimento de uma paranoia destrutiva e do fed-jacketing em meio a infiltração e vigilância muito reais. Precisamos fortalecer os laços entre grupos de rapid response e os muitos locais de trabalho que pontilham as paisagens suburbanas e rurais, particularmente entre trabalhadores que tendem à despolitização, alguns dos quais são até sacralizados como tal pelas empresas para as quais trabalham.
Talvez aquela esquiva ressurgência do trabalho organizado – sempre proclamada nas páginas da Jacobin, por mais que todas as estatísticas digam o contrário – dependa de uma necessidade prévia de reparar laços comunitários básicos. Talvez, com oxigênio e coordenação suficientes entre redes e locais de trabalho, pudesse surgir uma coalizão de organizações que constituísse um sistema nervoso abrangente por todo Minnesota, capaz de impedir sequestros de modo eficaz e de montar ofensivas contra a arquitetura e os sistemas logísticos do regime de deportação.
Os motins, greves e bloqueios previstos no rastro do assassinato de Alex Pretti, até aqui, não se materializaram. No entanto, enquanto massas de pessoas recuarem diante de pôr em jogo as capacidades coletivas que desenvolveram numa ofensiva intensificada contra nosso inimigo, cresce a probabilidade de que um vigilante solitário substitua a violência individual pela insurgência coletiva.
As vozes estridentes da contenção e do “pragmatismo” legalista neste momento são os idiotas úteis da violência previsivelmente imprevisível que um ato assim desencadearia. A escalada e a ampliação estrategicamente coordenadas das nossas ações contra o Estado e suas instituições cúmplices – sobretudo no aprimoramento das capacidades dos respondentes da rapid response para prevenir ativamente sequestros – constituem o outro chifre do dilema que enfrentamos em nosso delírio.
Como sempre, não há adultos na sala e ninguém vem nos salvar: nem Walz, nem Frey, nem a Guarda Nacional, nem sequer um Luigi Mangione, e certamente não as forças policiais municipais e de condado, que estão mais preocupadas em sustentar a inviolabilidade da propriedade hoteleira do que a de vidas humanas. Somos nós, e apenas nós, que talvez possamos nos manter seguros. Quantos outros de nossos mortos terão de aparecer nas ruas antes que isso aconteça?[xiv]
*Crixus Babeuf é pseudônimo de um ativista norte-americano.
*Ulysses Batko é pseudônimo de um ativista norte-americano.
Tradução: Felipe Taufer.
Publicado originalmente em https://illwill.com/proto-politics-in-purgatory
Notas
[i] Anonymous, “The Noise Demonstrations Keeping ICE Agents Awake at Their Hotels,” Crimethinc, January 27, 2026. https://pt.crimethinc.com/2026/01/27/the-noise-demonstrations-keeping-ice-agents-awake-at-their-hotels-a-model-from-the-twin-cities
[ii] Logan Anderson, “Who was Umbrella Man?” The Star Tribune, May 30, 2026. https://www.startribune.com/umbrella-man-minneapolis-autozone-george-floyd/601357315
[iii] Rhian Luban, “Morale is plummeting among ICE agents over long hours, quotas and public hatred: report,” The Independent, January 26, 2026. https://www.the-independent.com/news/world/americas/us-politics/ice-agents-morale-reports-minneapolis-shooting-b2907742.html. Ver também Nicholas Nehamas et al., “A Crisis of Confidence for ICE and Border Patrol as Clashes Escalate,” New York Times, Jan. 26, 2026. https://www.nytimes.com/2026/01/26/us/politics/ice-border-patrol-trust.html
[iv] Matt Loffman, “Poll: Nearly two-thirds of Americans say ICE has gone too far in immigration crackdown”. PBS, February 5, 2026. https://www.pbs.org/newshour/politics/poll-nearly-two-thirds-of-americans-say-ice-has-gone-too-far-in-immigration-crackdown
[v] Martin Gilens; Benjamin I. “Testing Theories of American Politics,” in Perspectives on Politics, Cambridge, 2014). https://www.cambridge.org/core/journals/perspectives-on-politics/article/abs/testing-theories-of-american-politics-elites-interest-groups-and-average-citizens/62327F513959D0A304D4893B382B992B?utm_campaign=shareaholic&utm_medium=copy_link&utm_source=bookmark
[vi] Ken Klippenstein, “In ICE’s War, the Public Is Winning”. Substack, February 4, 2026. https://www.kenklippenstein.com/p/in-ices-war-the-public-is-winning
[vii] Cálculo dos autores. As agências relevantes são a Patrulha Estadual de Minnesota, o Gabinete do Xerife do Condado de Hennepin (HCSO), o Departamento de Polícia de Minneapolis (MPD), o Departamento de Polícia de St. Paul (SPPD) e o Gabinete do Xerife do Condado de Ramsey (RCSO).
[viii] Kat Lonsdorf, “Minneapolis now has daily deportation flights,” NPR, February 6, 2026. Acesso: https://www.npr.org/2026/02/06/nx-s1-5701432/minneapolis-ice-air-deportation-flights. O número se baseia em dados de rastreamento de voos meticulosamente compilados e interpretados por ativistas, e não nas cifras infladas do DHS, que, como tudo o que vem do regime atual, são altamente duvidosas.
[ix] Associated Press, “’Judge says she won’t halt,” NPR, January 31, 2026. https://www.npr.org/2026/01/31/nx-s1-5695219/judge-wont-halt-immigration-enforcement-surge-minnesota
[x] Maquiavel, Nicolau. The Prince. Trans. Peter Bondadella. Oxford: Oxford University Press, p. 27.
[xi] Nota do tradutor: “Meio LARP” (no original LARPy) se refere algo como sendo parecido com “live action role-playing” (LARP). LARP é quando um grupo de pessoas se fantasia como personagens — Dungeons & Dragons e coisas do gênero — e faz uma encenação, um role-playing, “ao vivo”. É uma gíria tipicamente norte-americana e virou uma expressão pejorativa na esquerda para falar de pessoas que fingem ser muito mais militantes do que são ou ainda que estão numa situação revolucionária muito mais grave e intensa do que realmente estão.
[xii] Eric Schwalm, post no X, January 25, 2026. x.com/Schwalm5132/status/2015470661490057540
[xiii] Anônimo, “Filter Blockades, A Tactic from the Twin Cities to Fight ICE and Defend Your Neighborhood,” Crimethinc, February 6, 2026. https://crimethinc.com/2026/02/06/filter-blockades-a-tactic-from-the-twin-cities-to-fight-ice-and-defend-your-neighborhood
[xiv] Este texto circulou primeiramente em formato de panfleto em 4 de fevereiro. Pequenas adições foram adicionadas posteriormente para essa publicação online






















