Por FRANCISCO FERNANDES LADEIRA*
O valor de um momento é medido pelo seu potencial de compartilhamento e curtidas: construímos “alter egos digitais”, perfis que projetam uma felicidade e uma vida idealizadas, frequentemente divorciadas da realidade
1.
É comum imaginar o desenvolvimento tecnológico como uma força autônoma, um destino inevitável ao qual a sociedade deve se adaptar. Essa visão é enganosa. A tecnologia não surge no vazio. Ela é concebida, adotada e ressignificada dentro de um contexto social, cultural, político e econômico específico. Em troca, altera profundamente esse mesmo contexto, reconfigurando desde as relações mais íntimas até a estrutura da sociedade.
Uma nova tecnologia comunicacional, por exemplo, não resistiria por muito tempo se não pudesse responder a alguma necessidade social. O desenvolvimento dos jornais impressos – ao informar diariamente a população sobre os principais acontecimentos – deu suporte à chamada democracia burguesa. O rádio concedeu um palanque único para que nomes como Churchill, Stálin e Vargas se dirigirem diretamente às massas, revolucionando o caráter da liderança política.
Cada novo meio de comunicação não substitui simplesmente o anterior, mas força todos os outros a se redefinirem. Após a televisão – e a consequente criação de uma geração de pessoas aculturadas para o apelo visual das mensagens – jornais e revistas passaram a apresentar informações integrando, na diagramação, imagens, textos sintéticos e dados numéricos com a finalidade de prender a atenção de seus leitores.
Com a internet trazendo a notícia em primeira mão, o jornal impresso migrou seu foco para a análise e a opinião sobre os principais acontecimentos. A popularização da internet nos anos 1990 alimentou a previsão de que os meios tradicionais morreriam. O que aconteceu, na verdade, foi uma convergência. Rádio, TV, jornal e telefonia fundiram-se na rede digital, gerando novas formas de comunicação e linguagens híbridas. As mídias antigas não desapareceram; foram “contaminadas” e transformadas pelas novas.
Esse processo de evolução dos meios de comunicação de massa também nos levou a uma mudança substancial: a vida analógica, baseada em átomos, funde-se com a vida digital, baseada em bits. Para Byung-Chul Han, o mundo material, de coisas que podemos sentir, está se dissolvendo em um mundo de informação, de “não coisas”, cada vez mais hibridizado com o mundo real, ao ponto de confundirem-se entre si. Surge, assim, o que alguns estudiosos como Martha Gabriel chamam de “cibridismo”: uma existência híbrida em que o online e o offline são indissociáveis.
2.
A inclusão massiva das tecnologias digitais no cotidiano mudou o que anteriormente se entendia como rotina de vida. Ao acordar, uma das primeiras ações do “indivíduo cíbrido” é checar o smartphone. Antes de sair de casa (“mundo off”), ele se conecta novamente à internet para verificar a previsão do tempo e o andamento do trânsito em sua cidade. As decisões sobre qual o trajeto seguir em direção ao trabalho, e qual a vestimenta adequada, de acordo com as condições atmosféricas, tem como base as informações adquiridas no “mundo on”.
O “cíbrido” possui uma característica que, segundo a principal tradição religiosa ocidental, só remeteria a Deus: a “onipresença”. Ele pode estar em vários lugares ao mesmo tempo, dependendo de quantas páginas estiverem abertas em seu dispositivo móvel. Nesse “admirável mundo novo”, boa parte de nossa memória não está mais em álbuns ou estantes, mas nas nuvens dos computadores. Nossa interação com o mundo é mediada pela tela de um smartphone, um dispositivo que se tornou uma extensão do nosso cérebro e do nosso corpo.
Assim, integrar “on” e “off” passou a ser cada vez mais corriqueiro. Se uma determinada reunião entre familiares, amigos ou colegas de trabalho não se apresenta tão atrativa, o cíbrido “migra” do espaço concreto para o espaço virtual, isto é, desliga- se da realidade presencial e imediata, acessando de seu aparelho celular um mundo de novas e inesgotáveis possibilidades, podendo, concomitantemente, conversar com alguém pelo WhatsApp, assistir a um vídeo no Youtube, ler seus e-mails ou ficar sabendo das últimas novidades presentes nos portais de notícias.
Essa conexão permanente redefine as relações humanas. A presença nas redes sociais tornou-se, para muitos, mais importante do que a presença física. Como observaram Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis, no livro Cegueira moral”, a versão atualizada do cogito de René Descartes é “Sou visto, logo sou” – e quanto mais pessoas me veem, mais eu sou. Consequentemente, o valor de um momento é medido pelo seu potencial de ser compartilhado e validado com curtidas. Construímos “alter egos digitais”, perfis que projetam uma felicidade e uma vida idealizadas, frequentemente divorciadas da realidade.
3.
Os resultados dessas “relações liquidas” são profundos. Os laços tornam-se mais fluidos, flexíveis e efêmeros. Conexões são estabelecidas e desfeitas com um clique, sem o “incômodo” do compromisso profundo. Essa lógica do descarte, em que sempre se suspeita que haja uma opção melhor, contamina até os relacionamentos amorosos, tornando-os mais rasos e avessos ao risco da dor.
Paradoxalmente, a tecnologia que promete conectar o mundo também facilita a fragmentação social. A capacidade de personalizar nosso ambiente digital nos permite bloquear visões divergentes e viver em “bolhas ideológicas”, convivendo apenas com quem pensa como nós. Isso inviabiliza o debate, amplia a polarização e nos torna menos capazes de lidar com opiniões contrárias.
No mundo do trabalho, a promessa de liberdade do e-mail e do home office revelou seu outro lado: a escravidão da conexão perpétua. As fronteiras entre o tempo profissional e o pessoal se dissolveram. Carregamos o escritório no bolso, e a cobrança por disponibilidade constante tornou-se a nova norma, uma forma sutil de exploração na era digital.
Nesse sentido, como bem observou Byung-Chul Han, do uso do smartphone, sinônimo de liberdade por causa de sua mobilidade, ironicamente, surgiu uma nova forma de exploração: a coação da comunicação, relacionada a carregarmos o trabalho em nossos dispositivos digitais, não sendo mais possível nos afastarmos de nossas atividades profissionais. Em outros termos, é plausível concluir que, atualmente, devido aos avanços comunicacionais, podemos trabalhar “em qualquer lugar” e “em qualquer momento”.
Portanto, longe de ser um processo unilateral, a relação entre sociedade e tecnologia é fundamentalmente dialética. Lembrando o pensamento de Marshall McLuhan, o ser humano, enquanto agente social, concebe e desenvolve ferramentas para responder a necessidades contextuais, mas, uma vez implementadas, essas mesmas ferramentas reorganizam as estruturas sociais, os modos de percepção e as interações humanas.
Em síntese, as tecnologias que desenvolvemos respondem a demandas sociais específicas, mas, uma vez integradas ao cotidiano, passam a reestruturar radicalmente as dinâmicas de trabalho, as relações humanas e a própria percepção da realidade.
Isso posto, o desafio que se coloca é exercer um controle crítico e deliberado sobre essas ferramentas, assegurando que sua implementação sirva aos interesses coletivos e não apenas à lógica do progresso técnico pela própria técnica.
*Francisco Fernandes Ladeira é professor de geografia na Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ). Autor, entre outros livros, de A ideologia dos noticiários internacionais [https://amzn.to/49F468W]
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