Os manifestos dos arrependidos

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Por LUÍS FERNANDO VITAGLIANO*

Num momento político bastante delicado, tentar recriar o clima de “Diretas já!” tem cheiro de armadilha, pior, usando muita gente bem intencionada que não fez leitura política da situação

Monica Bergamo noticiou que Lula se recusou a sentar a mesa com FHC e Temer. Na mesma coluna, expôs que Lobão e Caetano assinaram juntos um manifesto antifascista por parte de artistas e que o advogado Kakay outro manifesto de personalidades juristas: “Basta!”, ao lado de um procurador da LavaJato. Num momento político bastante delicado, tentar recriar o clima de “Diretas já!” tem cheiro de armadilha, pior, usando muita gente bem intencionada que não fez leitura política da situação. Essas iniciativas parecem como vindas de certa espontaneidade intelectual e formadora de opinião defender democracia. Mas, de fato, configura-se como um risco político para as esquerdas e o pensamento progressista que tem sido marginalizado e atacado. O que se desenha no final é mais uma tentativa asquerosa da direita oligárquica de colocar a conta da própria estupidez na caderneta do PT.

Precisamos, antes de qualquer atitude impulsiva, entender o que ocorre no Brasil depois de 2014. Quando, após perder as eleições, Aécio Neves declara que perdeu para uma “quadrilha”, não reconhece o resultado das urnas, não faz a protocolar e importante ligação para Dilma em que reconheceria a derrota e, ao invés de agir como oposição, inicia uma reação predatória de boicote contra o governo, apoiando, inclusive, a eleição de Eduardo Cunha para presidente da Câmara e planta a semente do impeachment.

Desde então, o Brasil se divide em dois campos políticos consistentes: os petistas e os antipetistas. Mas, antes não era assim? Não, não era. Havia dois projetos claros no Brasil que se polarizaram desde as eleições de 1989: liberais e sociais democratas. Ou como Armando Boito Jr coloca: neoliberais e neodesenvolvimentistas. Claro que é uma simplificação. Entre os liberais de Collor a FHC, do PSDB e do PMDB tem varias colorações; assim como a síntese da social democracia petista passa pelo comunismo e por um liberalismo social.

O antipetismo não foi forjado para eleger Bolsonaro. Foi feito para tirar o PT do poder de qualquer maneira, ás custas da própria política. Quem organizou isso não era ingênuo e sabia que podia haver consequenciais danosas. O bolsonarismo é a consequência não esperada desse processo. A politização de parte da classe média no Brasil que foi chamada pela Rede Globo a se manifestar na rua; os Arnaldo Jabor, Ferreira Gullar, Marco Antônio Villas etc. de pouca expressão política, ganharam visibilidade midiática para vociferar palavrões em análises ridículas. Alguns se arrependeram, outros se calaram novamente. A caserna foi convocada a voltar a cena política. A PM virou amiga, das pessoas de bem. Os direitos humanos para humanos direitos. Todos esses exemplos ajudam a dizer que os meios de comunicação oligopolizados que chamamos de grande mídia e parte importante dos intelectuais orgânicos da direita romperam com o pacto forjado nas campanhas das “Diretas já” e com a constituição de 1988. É importante que hoje estes carrasco se dizem democratas, mas foram responsáveis por matar a nova república que ajudaram a construir em 1984. Agora não bastam palavras em jornais e manifestos, sem pacto, sem compromisso.

O que vimos desde 2014 foi uma parte da elite intelectual do país romper com a democracia e ser valorizada pelos meios oligopolísticos de comunicação. A consequência direta foi uma polarização da política contra a antipolítica; simplificações que fizeram do petismo representar a política e as instituições e do antipetismo representar uma espécie de justiça moral, conservadora e tradicional que se coloca até mesmo contra as instituições. Mesmo quem era simplesmente a favor do devido processo legal se tornou petralha, esquerdista comunista.

Nesse contexto, o que não foi percebido é que o melhor representante dos rumos para essa ruptura institucional não era o tradicional adversário do petismo: o PSDB (demasiado preso às instituições para essa ofensiva contra as próprias instituições). Daí vem o antisistemico movimento bolsonarista, que desde o inicio não cabe na democracia.

Para agilizar nossa leitura, o resultado da ruptura foi a eleição de Bolsonaro. Como uma síntese que reúne o ataque ao petismo, a antipolítica e o neoliberalismo individualista.  O Brasil foi surpreendido por uma nova politização. Agora, de um lado, a liderança de Bolsonaro representando o slogan vazio de ser “contra de tudo que está aí” assumiu um terço dos eleitores e, do outro lado, resiliente aos golpes, manteve-se a liderança de Lula e do PT, com outro terço dos eleitores. Os 40% que gravitam entre uma opção e outra são personagens a procura de um autor. Lula, Haddad e o PT tem estrutura para conseguir perto de 1/3 dos votos em eleições nacionais majoritárias, assim como Bolsonaro e sua máquina de fakenews antisistêmica.

É preciso entender que as opções políticas e a vontade geral das pessoas estão submetidas as regras do sistema. O sistema de eleições em dois turnos faz com que se formem dois polos. A ausência de um espectro de centro direita não é culpa do PT, como muitos querem pontuar, mas de uma opção eleitoral da maioria da direita por Bolsonaro. Também não é culpa do PT que a centro-esquerda não seja atraída por Doria, Hulk ou qualquer candidato que saia diretamente de um Talk Show para a política. O fato do PT ainda manter parte da sua base nos movimentos orgânicos dos trabalhadores, o mantem como opção progressista adequada a um perfil de eleitorado.

Se o sonho de Bolsonaro em implantar um regime autoritário no Brasil tem dificuldades para se concretizar (e a tensão com as instituições ainda o coloca limites nos seus arrombo fascistas), também se frustra a busca da direita (nada moderada) neoliberal, institucional oligárquica em convencer parte do eleitorado de que é a opção viável. É nesse contexto que surgem os manifestos dos golpistas arrependidos. Mas, enquanto não se fizer um pacto sério em relação a direitos políticos, esse discurso de que é preciso tirar o Bolsonaro do poder apresenta-se como uma crômica estratégia da direita reacionária brasileira que fez o golpe de 2016. Uma direita que existe há muito tempo, Ademarista, Lacerdista e que faz lembrar os governadores de São Paulo (Adhemar de Barros), Rio de Janeiro (Carlos Lacerda) e Minas Gerais (Magalhaes Pinto) pré-golpe de 1964. Desses políticos aventureiros que, assim como em 1964, ganharam e não levaram.

Sobre os manifestos que agora surgem democráticos. É importante fazer uma leitura à esquerda. Na pratica e no contexto da leitura política eles querem dizer: “apoiei Bolsonaro para tentar enterrar de vez as pretensões e estruturas do PT. Estou, em parte, arrependido porque a conta tem saído cara demais e pode custar ainda mais caro. Era apenas uma tática transitória aceitar Bolsonaro. Achamos que podíamos controla-lo. Agora quero acelerar a transição para meu governo. Mas ironicamente, preciso do PT para isso. E, se o PT não me apoiar, talvez eu consiga jogar sua base social e popular contra o próprio partido e me dar bem de qualquer forma.”

Sabemos que se as instituições voltarem a funcionar, provavelmente o PT volta ao poder. Bolsonaro joga com isso com seus radicais e com o pouco de apoio que tem contra o isolamento. Lula está do outro lado tentando segurar a rendição, mas já percebeu o movimento conspiratório desses manifestos; basta assistir sua fala na reunião do diretório nacional de primeiro de junho. Entretanto, é bom destacar que esse quadro desenhado entre formadores de opinião e mídia, seja um freio para que os movimentos sociais ir para as ruas. Pelo contrário, esses devem sim aparecer. Parabéns a gaviões da fiel, aos torcedores antifascistas, aos trabalhadores e estudantes. Mas não podemos confundir esses movimentos, com os manifestos da direita pseudemocrática oportunista. Nem deixar que se apropriem dessas bandeiras. Se as oligarquias liberais agora precisam das esquerdas para corrigir seus próprios erros por Bolsonaro, que se reconheça na prática isso: devolvam as instituições democráticas práticas republicanas, devolvam os direitos políticos que caçaram, devolvam os recursos que apreenderam dos trabalhadores, e repararem as violações que cometeram – e que nenhum movimento democrático sente à mesa de negociações com golpistas, novos ou antigos.

*Luís Fernando Vitagliano é cientista político e professor universitário.