Toni Negri, operaista

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Por JEAN TIBLE*

Depois de cada derrota Toni Negri já se jogava na retomada da gioia [alegria] comunista, pois o revés não significa que findou o sonho, mas sim que as forças subversivas subterrâneas subirão novamente em breve à superfície

Sexta no fim da tarde, sob o impacto das abomináveis notícias de Gaza, nessa nova fase da limpeza étnica na Palestina e de estarmos presenciando em tempo real um genocídio em curso, bambeando e quase tomado pela desesperança, fui tomar um ar. Andando me veio com força e nitidez um sentimento intenso da potência da vida (sempre coletiva), da nossa base material, muito mais abundante que todos esses horrores e injustiças. “Nós somos a força”. Nessa noite, do outro lado do Atlântico, Toni Negri partia aos 90 anos, após uma existência plena, intensamente dedicada à luta e ao pensamento. Não tenho como não considerar que tenha sido uma mensagem do amigo se despedindo.

Nascido nos anos 1930 no Vêneto camponês e pobre, ele é imediatamente atravessado pelos confrontos entre projetos de vida e morte. Seu pai, fundador do Partido Comunista (PCI) na região, é assassinado pelos fascistas ao ser obrigado a beber óleo de rícino. Seu irmão, soldado italiano, some na guerra e seu cunhado, partigiano antifascista, o inspira decisivamente. Toni Negri milita na juventude da Ação Católica e depois se filia ao Partido Socialista, dirigindo sua seção local. Sempre articulando a paixão de conhecer e a de transformar, Antonio é o mais jovem professor universitário italiano, na Universidade de Pádua, onde assume a cátedra de Teoria do Estado. E é nessa época que mergulha no “operaismo”.

A classe operária está acomodada, diziam tantos nos anos 1950 e 1960. Seja à esquerda ou à direita (com sinais invertidos) se assinala sua domesticação pelas inéditas conquistas sociais do pós-guerra. Alguns pequenos grupos dissidentes (em relação ao PCI) repelem tal abordagem e se propõem a investigar, no chão de fábrica, as novas condições e suas contradições.

Subverter, não interpretar o mundo

Em torno das revistas Quaderni rossi [Cadernos vermelhos], e depois Classe operaia [Classe operária], tomam corpo práticas de pesquisa operária, que Romano Alquati batiza de conricerca [copesquisa]. Seu objetivo? Produzir conhecimento com e para a luta, alimentando ações desde baixo, por fora dos partidos e sindicatos existentes. Uma ciência proletária. A pesquisa não é um método objetivo, mas sim subjetivo, de construção de relação e autonomia: busca não é a interpretação do mundo, mas a organização de sua subversão.

Como descobrir e golpear nos pontos decisivos da extração de valor e, desse modo, mostrar os flancos na prepotência e vulnerabilidade dos patrões? Perspectivismo proletário. A sociedade burguesa, sustenta o “operaismo”, é marcada pelo antagonismo permanente de classe e seus enfrentamentos constantes. Mario Tronti propõe então uma inversão de Marx. Antes o desenvolvimento capitalista era o início e depois vinham as subjetividades trabalhadoras. Erro crasso! As coisas devem ser postas no seu devido lugar e para isso é necessária uma mudança total: no princípio era (e é) a luta operária. Uma revolução copernicana.

O ponto de partida está nos instantes de recusa, rebelião e sabotagem cotidianos contra o poder do capital e como esse se expressa na fábrica. A ação criativa proletária é o motor, ao mesmo tempo, da progressão capitalista e da sua crise. A investigação encarna uma retomada do saber, sem intermediários e mediações, para traçar estratégia de luta. Daí se forma uma rede de intervenção nas fábricas do norte italiano, em particular Turim, e que vai inspirar outros grupos nas grandes cidades ou polos industriais, como Milão, Veneza/Porto Marghera e Roma. Antes de 1968, os coletivos ligados a essas revistas vão se desfazer, mas as mobilizações desse ano acabam indicando a argúcia dessas tendências de peleja anunciadas ao longo da década.

Infelizmente muito pouco conhecido (e isso é um resultado da sinistra e eficaz repressão), o 1968 italiano dura mais de uma década (até as prisões de 1979). Se inicia na primavera de 1968 e segue no outono quente de 1969, quando cinco milhões e meio de operários em greve afirmam: “a fábrica é o nosso Vietnã”. Surgem novas reivindicações, como o aumento salarial igual para todos e o fim das divisões por categoria e função, que se expressam em pujantes absenteísmo e oposição ao ritmo intenso da labuta.

A recusa do trabalho constitui seu horizonte existencial: aí se situam as bases das primeiras experiências da autonomia e sua organização, que anunciam um programa de poder operário. “Tomemos essa riqueza, tomemos tudo”. Esse chamado indica uma percepção de gastança e destruição (por exemplo, com as bombas atômicas e indústria militar) da imensa riqueza que produz a classe trabalhadora e um entendimento do trabalho na forma de uma perda de tempo livre, fator de mal viver, comer e dormir. Não ir trabalhar se conecta a preservar sua existência.

A fábrica é o nosso Vietnã

No léxico operaista, a composição de classe é compreendida como análise da organização na fábrica – formas sociais, políticas e organizativas do proletariado, sua subjetividade em meio ao processo de produção. Isso passa pela contestação do sindicato, por seu papel de mediação nos acordos com o patronato, sendo parte da dinâmica capitalista como negociador do preço da força de trabalho e, além disso, instrumento de controle. A sociedade e seus locais de trabalho são vividos como locais de enfrentamento entre o trabalho e sua recusa.

Toni Negri propõe o conceito de operário-massa para dar conta dessas transformações, vinculando-o a um novo saber da classe. Nascem comitês dos trabalhadores, elegíveis mesmo sem filiação sindical. A única forma na qual o movimento se reconhecia era em sua democracia direta baseada no sistema das assembleias, com mandatos diretos, provisórios, vinculativos e revogáveis. Daí Rosa Luxemburgo, antes pouquíssimo conhecida, irromper, assim como são relembrados os conselhos de Antonio Gramsci ou da Comuna de Paris. Uma nítida opção anti-institucional/estatal: sem mediação, rompendo com determinados vocabulários e aparatos da esquerda, do partido como guia ou da ditadura do proletariado, acima do movimento.

As conquistas na usina eram concretas (dias de descanso, readequação salarial, redução das horas extras), mas havia um quero mais/tudo. Esse novo rumo é sentido pelos grupos e Potere operaio ([Poder operário], fundado por Toni e camaradas) vai se dissolver na sequência (e transmuta em Autonomia Operaia). A recusa do trabalho, elaborada desde a década anterior, ganha radicalmente essa nova geração nos anos setenta. Em meio à reestruturação da produção, flexibilização do mercado de trabalho e precarização dos empregos (uma resposta às sublevações), uma nova cena composta por centenas de coletivos, comitês, assembleias e locais ocupados prolifera. Do operário-massa para o operário social (precarizado, dos serviços, das universidades, periferias e pequenas empresas), teoriza Toni Negri.

A auto-organização incorpora significados e práticas mais profundos e concretos, com a autoconstituição de comunidades proletárias solidárias e sua invenção de trocas, produção e vida alheias ao modo burguês (à propriedade privada, ao seu tempo e aos seus valores), inspiradas no clássico mutualismo obreiro. A autonomia no sentido primeiro, o de determinar suas regras, apontando para uma organização do básico cotidiano, isto é comer, dormir, conversar, se amar, criar juntos. O poder operário já não rimava com tomada do aparelho estatal, mas agora ganha materialidade e outras camadas com a multiplicação de zonas liberadas de vida coletiva.

O comunismo agora ou nunca

Essa efusão das lutas, das fábricas para os bairros, se manifesta em expropriações, autorreduções e ocupações. A base da massificação dos autodescontos vem das lutas nos locais de trabalho, como no caso do transporte, iniciadas pela mobilização dos operários da Fiat, ainda em 1969, em sua disputa pela reapropriação do tempo. Em meados dos setenta, é praticada em algumas centenas de milhares lares – no aluguel, transporte, gás ou eletricidade (ou seja, não pagam os preços definidos pelas empresas e proprietários, mas sim o que o é pelo movimento).

Em certos momentos, supermercados são obrigados a dar descontos ou seus produtos são expropriados. Em outros, são os cinemas, lojas de discos e outras nos centros das cidades. A fábrica torna-se a cidade inteira, a metrópole. Desponta um novo fermento com estudantes-trabalhadores e feministas (um levante no levante, questionando desde a divisão marxista entre trabalho produtivo e improdutivo até os fortes traços patriarcais dos próprios revolucionários), desempregados e “marginais”, trabalhadores precarizados e contracultura.

Em Milão, logo em seguida, nascem os Circoli del Proletariato Giovanile [Círculos do Proletariado Juvenil]. Tomam posse de lugares abandonados (fábricas, galpões, casas, apartamentos ou igrejas antigas) e inventam os centros sociais, que se espraiam para outras cidades. Comunas urbanas, com jardins de infância, ambulatórios e consultórios autogeridos, redes de abastecimento e boas doses de autorreduções. Incubadoras de existências-lutas. “O comunismo agora ou nunca”.

Interessante notar como num outro contexto esse “espírito da época” marca José Celso Martinez Correa, que percebe 1968 (e para além desse momento, as rebeliões, no teatro e demais esferas) como irrupção do “aqui e agora”. Nas suas frequentes viagens ao Brasil após se ver livre da cadeia e do exílio (ou seja, o período de 1979 até 2003), Toni Negri esteve pelo menos duas vezes no Teatro Oficina e é forte e simbólico que essas duas lindas figuras da celebração da vida coletiva tenham nos deixado em breve intervalo de tempo neste ano de 2023.

Esse “maravilhoso fervo” foi, possivelmente, o ponto em que se chegou mais perto de uma revolução no chamado capitalismo avançado, deixando marcas decisivas em quem participou – vejam como são influentes hoje as reflexões de quem viveu essa ebulição, como Silvia Federici e Bifo, entre tantas pessoas. Mas ele vai ser brutalmente interrompido pelas forças repressivas.

A repressão entra em cena

Em Bolonha, em março de 1977, chamados pelo prefeito do PCI alegando estar em guerra, mil carabinieri [policiais] pesadamente armados e acompanhados por tanques desocupam, primeiro a região da universidade e depois os espaços coletivos do movimento (inclusive a rádio Alice e revistas), tudo quebrando e confiscando.

Por fim, chegam às casas de muitos militantes e dezenas são presos – estado de sítio para esmagar, como em Praga em 1968, essa primavera. Após o assassinato de Aldo Moro no ano seguinte o processo se acelera. Em Pádua, grandes operações policiais tomam por alvo algumas pessoas de maior projeção pública e o Instituto de Ciências Políticas vai ser incriminado, levando à prisão de Toni Negri em abril de 1979. A editora Feltrinelli vai chegar a queimar os livros publicados coletivamente.

Parte de uma nova – e gigante – onda repressiva, com acusações de insurreição armada contra o Estado: por meio de tribunais de exceção, quarenta mil são acusados, quinze mil encarcerados e seis mil condenados, somando milhares de anos de cadeia. São ativados métodos de oposição ao crime organizado, na figura dos “arrependidos”, restrição dos direitos de defesa, isolamento e prisões especiais. Tal legislação de urgência, ao contrário da primeira fase (de 1969 a 1973), é consentida por praticamente toda a esfera política representada no Parlamento, inclusive o PCI. O combate posterior à máfia nos anos oitenta mantém e estende a legislação de urgência contra a “subversão política”.

Toni Negri é solto ao ser eleito deputado em 1983. Vislumbrando a cassação de sua imunidade parlamentar, opta pela fuga. Vive quatorze anos de exílio, interrompido pela sua volta à Itália, para reabrir as possibilidades de anistia geral aos presos – não funciona e ele amarga mais uns anos de prisão, em parte domiciliar; ele havia sido condenado à revelia a 30 anos de prisão, reduzidos para 18 anos posteriormente. Um traço marcante desse revolucionário é sua inabalável esperança e abundante energia para novos começos.

Depois de cada derrota, já se jogava na retomada da gioia [alegria] comunista, pois o revés não significa que findou o sonho, mas sim que as forças subversivas subterrâneas subirão novamente em breve à superfície – na imagem da revolução por Marx, da toupeira que cava túneis e prepara, lenta e constantemente, a sublevação por vir. Na prisão, revive e vibra com Espinosa, Jó e Leopardi.

A primavera sempre volta

Uma outra reinvenção se produz no exílio parisiense, nas colaborações com Deleuze-Guattari e outros mais, nos estudos de sociologia sobre o bairro do Sentier [equivalente do Bom Retiro paulistano], enfermeiras em luta e trabalhadores da telecomunicação e na elaboração do poder constituinte, seguindo a linhagem “contra o Estado” de Maquiavel-Espinosa-Marx (e Lênin). E, mais uma vez, busca a reconstrução, no momento da dissolução do bloco socialista (e, logo em seguida, dos debates da globalização): mobilizar o pensamento-luta dos movimentos produtivos do trabalho vivo.

O operaismo e todas essas experiências de copesquisa são o solo e a base de suas intervenções posteriores, em particular da sequência ImpérioMultidãoCommonwealthDeclaraçãoAssembly com Michael Hardt, seu grande parceiro das últimas décadas. “Devemos ser capazes de juntar a todo momento o nosso conhecimento acerca do inimigo e a reflexão sobre os elementos que constituem a nossa força”. As mutações do capitalismo e as lutas da multidão das singularidades – Império antecipa certo espírito de Seattle (e do movimento antiglobalização, ceifado pela repressão em Genova em 2001), pois a dupla já estava conectada com a insurreição zapatista e alguns outros sinais.

Toni se entusiasma, nesse século, pelos tute bianche, o novo proletariado cognitivo das relações e do cuidado, a pujança dos êxodos migrantes, o ciclo dos novos governos sul-americanos, o movimento das praças (Occupy, Tahrir, Plaza del sol e tantas) e das revoltas globais (2013, Taksim e mais), os coletes amarelos e as greves metropolitanas. “A primavera sempre volta, sempre nova” – conforme o trecho final “Que a eternidade nos abrace”, do terceiro e último volume de sua autobiografia.

O comunismo é sempre uma questão “prática”. Uma possibilidade concreta, material e não um valor abstrato ou longínquo. A revolução não é um ideal, mas uma tarefa, não uma escolha, mas sim uma necessidade ética. Significa trabalhar coletivamente, construir relações, estar juntos, se organizar desde baixo – desejo de produzir e ato de amor. Nesse presente apocalíptico de crises sobrepostas, de um planeta em combustão e de guerras imperiais-patronais a rodo, Toni clama pela (e aposta na) potência criativa da multidão.

Como disse seu/nosso amigo Michael Löwy, a melancolia e o pessimismo da Escola de Frankfurt funcionam como um polo negativo para Antonio Negri, que lhes contrapõe o engajamento corporal, a vivacidade do riso, do humor e da espontaneidade (Rosa, novamente) e a democracia absoluta da classe em luta. O manancial do comum da vida vibrante. Attivo maestro [professor ativo], il vecchio transmitiu em toda sua existência espinosiana o êxtase da luta, a paixão ética da subversão e a fé na libertação. Vida é movimento: como dizia, outra imensa perda recente, o poeta, lavrador e pensador quilombola Nego Bispo – começo, meio, começo.

*Jean Tible é professor de ciência política na USP. Autor, entre outros livros, de Política selvagem (Glac edições & n-1 edições).

Publicado originalmente na revista Jacobin Brasil.


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