O peso dos BRICS na geopolítica mundial

Leda Catunda - Eldorado - 2018
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Por SCOTT RITTER*

Os BRICS já superam o G7 no PIB corrigido pela paridade do poder de compra.

No verão boreal passado (de 26 a 28 de junho de 2022), o Grupo dos Sete (G7), um fórum autoproclamado de nações que veem a si mesmas como as economias mais influentes do mundo, reuniu-se no Castelo de Elmau, nos Alpes da Baviera, Alemanha, para realizar sua cúpula anual. O foco desse encontro [a que o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, participou virtualmente] era como punir a Rússia através de sanções adicionais, como armar ainda mais a Ucrânia e como conter a China.

Simultaneamente, a China sediava, por canais de videoconferência, uma reunião do fórum econômico dos BRICS. Composto por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, esse conjunto de nações, relegadas ao status de economias em desenvolvimento, focou no fortalecimento dos laços econômicos, no desenvolvimento econômico internacional e em como lidar com o que coletivamente consideravam como políticas contraproducentes do G7.

Em princípios de 2020, o vice-ministro de Relações Exteriores da Rússia, Sergei Ryabkov, previa que, com base na paridade do poder de compra (PPC), os índices projetados pelo Fundo Monetário Internacional sugeriam que os BRICS poderiam ultrapassar o G7, em termos de participação na economia global, em algum momento lá pelo final daquele ano. (O produto interno bruto de uma nação corrigido pela paridade do poder de compra, ou PPC, considerando as taxas de câmbio, é a soma do valor de todos os bens e serviços produzidos no país, equiparados aos preços que prevalecem nos Estados Unidos, servindo como uma expressão mais precisa da capacidade econômica relativa do país do que o mero cálculo do PIB).

Então veio a pandemia, e o reinício da economia global que se seguiu tornou controversas as projeções do FMI. O mundo ficou singularmente focado em se recuperar do evento pandêmico e, logo em seguida, em administrar as consequências das sanções maciças do Ocidente à Rússia, após a operação militar na Ucrânia iniciada por esse país em fevereiro de 2022.

O G7 não prestou atenção ao desafio econômico dos BRICS e, em vez disso, concentrou-se em consolidar sua defesa da “ordem internacional baseada em regras”, que se tornara o mantra da administração Joe Biden nos Estados Unidos.

Erro de cálculo

Desde a “invasão russa” da Ucrânia, uma divisão ideológica tomou conta do mundo, com um lado, liderado pelo G7, condenando a “invasão” e buscando punir economicamente a Rússia, e o outro, liderado pelos BRICS, assumindo uma postura mais nuançada, nem apoiando abertamente a ação russa nem participando da política de sanções. Isso criou um vácuo intelectual quando se trata de avaliar o verdadeiro estado das coisas nos assuntos econômicos globais.

Agora é amplamente aceito que os Estados Unidos e seus parceiros do G7 calcularam mal o impacto que as sanções teriam sobre a economia russa, bem como o efeito bumerangue que se abateria sobre o Ocidente. Angus King, senador independente do Estado do Maine, observou recentemente que se lembrava que: “Quando isso começou, há um ano, toda a conversa era que as sanções iriam paralisar a Rússia. Ela ficaria fora do mercado e viriam os distúrbios nas ruas… que absolutamente não vieram. (…) Teriam sido as sanções erradas? Não teriam sido bem aplicadas? O Ocidente subestimou a capacidade russa para contorná-las? Por que o regime de sanções não desempenhou um papel de maior envergadura neste conflito?”.

Cabe assinalar que o FMI calculou que a economia russa, como consequência das sanções, se contrairia em pelo menos 8%. O número real foi de 2%, e a economia russa, apesar das sanções, deve crescer em 2023, e ainda depois.

Esse tipo de erro de cálculo permeou o pensamento ocidental a respeito da economia global e dos respectivos papéis desempenhados pelo G7 e pelos BRICS. Em outubro de 2022, o FMI publicou seu World Economic Outlook (WEO) anual, centrado nos cálculos tradicionais do PIB. Com ele, os principais analistas econômicos se consolaram com o fato de que, apesar do desafio político trazido à baila pelos BRICS no verão de 2022, o FMI calculava que o G7 ainda se mantinha forte como principal bloco econômico global.

Em janeiro de 2023, o FMI publicou uma atualização ao relatório World Economic Outlook anterior, reforçando a posição de força do G7. Conforme Pierre-Olivier Gourinchas, economista-chefe do FMI, “o balanço de riscos para as perspectivas permaneceu inclinado para baixo, mas está menos inclinado para resultados adversos do que na edição do World Economic Outlook de outubro”.

Essa alusão positiva (para o Ocidente) impediu que os principais analistas econômicos ocidentais mergulhassem nos dados contidos na atualização. Posso atestar pessoalmente a relutância dos editores conservadores em tentar extrair relevância atual de “dados antigos”.

Felizmente, existem outros analistas econômicos, como Richard Dias, da britânica Acorn Macro Consulting, uma autodenominada “pequena empresa de pesquisa macroeconômica, que emprega uma abordagem do topo para a base na análise da economia global e dos mercados financeiros”. Em vez de aceitar a rósea perspectiva do FMI como um evangelho, Dias fez o que se supõe que os analistas devem fazer: vasculhar os dados e extrair conclusões relevantes.

Depois de escarafunchar a base de dados do World Economic Outlook, do FMI, Dias realizou uma análise comparativa da porcentagem do PIB global, ajustado pela PPC, entre o G7 e os BRICS e fez uma descoberta surpreendente: os BRICS haviam superado o G7.

E essa não foi uma projeção, mas sim a declaração de um fato consumado: os BRICS foram responsáveis por 31,5% do PIB global ajustado pela PPC, enquanto o G7 entrou com 30,7%. Para piorar as coisas para o G7, as tendências projetadas sugerem que a brecha entre os dois blocos econômicos só irão aumentar daqui para frente.

As razões para uma acumulação acelerada de influência econômica global por parte dos BRICS podem estar relacionadas a três principais fatores: (i) as consequências colaterais das políticas durante a pandemia de covid-19; (ii) o efeito bumerangue das sanções à Rússia sobre as nações do G7, acompanhado de um ressentimento crescente, entre as economias dos países em desenvolvimento, para com as políticas econômicas do G7; e (iii) o reconhecimento das prioridades do G7 como arraigadas na arrogância colonial, antes que num desejo genuíno de assistir as nações no desenvolvimento de seu próprio potencial econômico.

É verdade que a influência econômica dos BRICS e do G7 é fortemente influenciada pelas economias da China e dos Estados Unidos, respectivamente. Mas não se podem descartar as trajetórias econômicas relativas dos outros Estados membros desses fóruns econômicos. Enquanto as perspectivas econômicas para a maioria dos países dos BRICS apontam para o crescimento nos próximos anos, as nações do G7, em grande parte por causa da ferida autoinfligida representada pelas atuais sanções à Rússia, estão tendo um crescimento lento ou, no caso do Reino Unido, negativo, com poucas perspectivas de reversão dessa tendência.

Além disso, enquanto a adesão ao G7 permanece estática, os BRICS estão crescendo, com a Argentina e o Irã se candidatando a fazer parte, do mesmo modo que outras potências regionais, como a Arábia Saudita, a Turquia e o Egito. E o que torna esse potencial de expansão de fato explosivo é a recente conquista diplomática chinesa na normalização de relações entre o Irã e a Arábia Saudita.

As perspectivas decrescentes da dominância global de dólar americano, combinadas com o potencial econômico da união econômica transeurasiana, promovida pela Rússia e pela China, colocam o G7 e os BRICS em trajetórias opostas. Nos próximos anos, esses últimos devem ultrapassar os primeiros também no PIB nominal.

Não é preciso segurar a respiração, esperando que os principais analistas econômicos cheguem a essa conclusão. Felizmente, pontos fora da curva existem, como Richard Dias e a Acorn Macro Consulting, que procuram encontrar novos significados em dados já conhecidos.

*Scott Ritter, ex-oficial de inteligência do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, foi inspetor-chefe de armas da ONU no Iraque de 1991-98.

Tradução: Ricardo Cavalcanti-Schiel.

Publicado originalmente em Consortium News.


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