Uma breve história da peste – II

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Por YURI ULBRICHT*

O significado da peste em Hipócrates, Tucídides, Cícero e Boccaccio

1.

Nas epístolas que participam do Corpus hippocraticum e que, como gênero, tomam parte na história, a peste ainda condiz com a vontade divina, por não gerar-se a partir da natureza, mas o dom divino da arte substitui o divino sacrifício da religião no cuidado dela: “[O grande rei dos reis Artaxerxes com Paito se congraça]”. “A doença a que chamam pestilenta acometeu nosso exército e, por muito que tenhamos feito, não nos deu descanso. Pelo que, de todos os modos e por todos os dons que te dou, peço-te, ou alguma das tuas invenções da natureza, ou alguma das práticas da arte, ou interpretação de algum outro homem que nos possa sarar, envia rápido; fustiga o padecimento, peço-te; pois inquietação no vulgo e muita agitação torna funda a respiração, e frequente. Não guerreando, somos guerreados, tendo por inimigo a besta que perde as greis; em muitos penetrou, fê-los difíceis de sarar, amaras setas sobre setas despede; não suporto; já não sei tomar conselho com varões fecundos. Resolve isso tudo, não desista da boa notícia. Vale!”

Recorrendo às artes, conselhos, invenções tiradas da natureza, não consegue o homem conter a investida pestilenta, cujos ferrões vulneram homens e bestas, cujo enxame não se vê chegar. A peste paira fantasmagórica sobre o exército, os que contra ela combatem golpeiam a sombra, atração vazia que envolve, desespera, e perde. Eis a resposta ao rei: “[Paito com o grande rei dos reis Artaxerxes se congraça]” “Os auxílios naturais não resolvem a epidemia do pestilento padecimento; a enfermidade que se gera a partir da natureza, a própria natureza, discernindo-a, sana; as que a partir de epidemia, a arte, artificialmente discernindo o modo dos corpos. O médico Hipócrates cura este padecimento. É de origem dória, da cidade de Cós, seu pai, Heráclide, filho de Hipócrates, filho de Gnosídico, filho de Nebro, filho de Sóstrato, filho de Theodoro, filho de Cleomitides, filho de Crisâmides. Este gozou de natureza divina, e promoveu a medicina do pouco e rude ao grande e artificial. Gera-se, então, o divino Hipócrates, a nona a partir do rei Crisâmides, décima oitava a partir de Asclépio[i], vigésima a partir de Zeus; sua mãe, Praxitéa, filha de Fenarete, da casa dos Heráclidas; de modo que de ambos os troncos seja oriundo dos deuses o divino Hipócrates, sendo pelo do pai asclepíade, pelo da mãe heráclida. Aprendeu a arte com o pai Heráclide e com o avô Hipócrates. Mas com eles, ao que parece, iniciou-se nos princípios da medicina, que era provável eles então os soubessem; já a totalidade da arte, ele mesmo ensinou a si, usou da divina natureza e tanto superou na boa índole de alma os progenitores, que deles se estremou na virtude da arte. Purga muita terra e mar, não de gênero de animais, mas de enfermidades animais e agrestes, disseminando por toda parte, assim como Triptólemo as sementes de Deméter, os auxílios de Asclépio. Logo, justissimamente foi ele consagrado em muitos locais da terra, foi pelos atenienses dignificado com os mesmos dons com que Héracles e Asclépio. Manda trazê-lo, ordenando dar-lhe quanto de prata e de ouro quiser. Pois ele sabe não único modo de sanar o padecimento; ele, pai da saúde; ele, o salvador; ele, o que acalma a dor; ele, simplesmente o regente da ciência dos deuses. Vale!” [ii].

Enfermidades geram-se ou a partir da natureza, e são esporádicas e esparsas, pois semelhantes às anteriores e cotidianas, sendo familiares e conhecidas, pois se discerne quais sejam e se sabe que com o tempo saram e passam; ou a partir de epidemia, sendo contínuas e frequentes, pois não param de comunicar e não cessa a infecção, sendo desconhecida e anormal, pois chega de longe e, diferente, não se sabe como diante dela proceder, nem o tempo que vai levar. Contra estas, as práticas familiares não podem, mas, por serem estrangeiras, as artes trazidas de fora podem porventura delas tratar. A genealogia de Hipócrates aqui importa, pois, traçando-a, se traça a genealogia da arte. A origem divina da arte médica explica por que ela vale para aquilo que não se gera por natureza: assim como a pestilenta epidemia, também a arte que dela trata é trazida de fora: ambas descendem do céu. A transmissão da medicina artificial ou arte médica, envolve a iniciação nos segredos da arte, que são restritos às gerações masculinas oriundas do ramo paterno que a conserva, havendo assim o devido dever, para com a gênese e o nome, de defender e conservar o divino dom transmitido, o que envolve o cuidado da arte na preservação da própria gente. O que a recebe toma para si princípios já aumentados por seus antecessores, cumprindo-lhe acrescentamentos que engrandeçam os princípios aos pósteros; mas o que se acrescenta à prática se liga antes à virtude do prático, pois foi a boa índole de Hipócrates que fez maior a medicina. O dom divino serve, assim, à virtude, pois o que o médico pode se sujeita ao que o deus quer.

Desesperado de si e persuadido pelo parecer de Paito, Artaxerxes envia então epístola ao comandante de cavalaria do Helesponto Histânio, solicitando a vinda de Hipócrates, propondo as referidas recompensas juntamente com honra igual à dos melhores persas. Histânio transmite a Hipócrates a solicitação. Eis a resposta do médico:

“O médico Hipócrates com o hiparca do Helesponto Histânio se congraça.

Quanto à epístola que enviaste dizendo ter ela vindo do rei, envia ao rei o que digo escrevendo-lhe o quanto antes que dispomos de provimentos e veste e habitação e toda substância suficiente à vida. Da riqueza dos persas, não me ser fasto tomar parte, nem deter doenças de varões bárbaros, sendo eles inimigos dos helenos. Vale!”[iii]

E o parecer em que justifica sua conduta:

“Hipócrates a Demétrio saúda.

O rei dos persas manda chamar-me, não sabendo que comigo o discurso da sapiência pode mais que ouro. Vale!”[iv]

O dever para com seu nome e o de sua gente impede Hipócrates de que se valha de sua arte para interceder em favor dos persas, cujo costume recai na luxúria, vício que os não faz dignos da virtude da arte. O compromisso genealógico vinculado à sua prática impõe um modo certo de proceder; limitam-lhe o uso leis divinas, que lhe dizem ser nefasto dar fim a justiçamento divino. Aos nela iniciados cumpre a conservação de sua gente, não de todas e quaisquer, pois a culpa dos padecimentos se acham nos desvios da religião e nos vício vinculados às manias da mente.

“Hipócrates com o conselho e o demo dos abderitas se congraça.

(…) Beatos os demos que sabem os bons varões seus protetores, e não as torres, nem os muros, mas os conselhos sábios dos sábios varões. Quanto a mim, acredito sejam as artes graças dos deuses, já os homens, obras da natureza, e não vos irriteis, varões abderitas, parece-me, não vós, mas a natureza mesma me chama para conservar vosso feito, em perigo de tombar pela doença. (…) Nem a natureza, nem o deus prometeriam dinheiro para eu vir, de modo que não me violeis vós, varões abderitas, mas permiti de arte livre sejam livres também as obras. (…) Miserável é a vida dos homens, porque por toda ela entra, como vento invernal, a intolerável avareza, contra a qual, quem dera todos os médicos se juntassem, vindo medicar doença mais molesta que a mania, porque é beatificada, sendo doença e fazendo mal. Quanto a mim, penso todas as enfermidades da alma serem manias veementes inserindo algumas opiniões e fantasias no raciocínio, das quais se cura o que se purga pela virtude.”[v]

O demo, assim como as cidades, consiste antes no convívio dos homens do que nos edifícios e locais em que eles vivem, de modo que sua proteção proceda de uma articulação, segundo razão e conselho, em que todos cubram as carências de cada um, na qual os bons valem mais, o que manifesta o preceito aristocrático do cuidado da plebe pelos que são melhores e instala uma ética de mútua preservação das existências ligadas pelo pertencimento a um e mesmo demo. As artes surgem entre os homens como dons que lhes amplificam a natureza e a vida, pois as produções e as práticas da técnica acrescentam ao humano o divino. Como graça, as artes favorecem, alegram, seduzem; como divino dom, elas demandam uso e conduta segundo a religião e o deus, sendo ingratidão valer-se do que ela pode afastando-se do costume por ela transmitido. De graça tal não se estima preço, pois a presença da prata apaga a liberalidade da arte e, sujeitando-lhe irremediavelmente o favor, a alegria, a sedução, enfim, as graças das obras às cadeias do negócio, viola a virtude oriunda da boa índole, envolvendo-a no furor e na fantasia do dinheiro. Tendo a arte médica por virtude o cuidado em salvar, quando a salvação pelo cuidado a muitos toca, como no caso da cura de pestilências epidêmicas, a graça da arte distingue publicamente o artífice:

Dogma dos atenienses.

Decretou-se pelo conselho e pelo demo dos atenienses. Como Hipócrates de Cós, médico pertencente à geração de Asclépio, demonstrou aos helenos grande benevolência para a salvação, quando, vindo a peste dos bárbaros para a Hélade, aos locais enviou os próprios aprendizes, prescreveu de que terapia haviam de usar para seguros fugir da peste iminente, de modo que a arte médica de Apolo, distribuída aos helenos, com segurança lhes salva os afligidos; e editou escritos abundantes acerca da arte médica, querendo fossem muitos os médicos que os salvassem; e, requisitando-o o rei dos persas com glórias iguais às suas dele e com dons que o próprio Hipócrates elegesse, desprezou as promessas do bárbaro, porquanto fosse ele hostil e inimigo comum aos helenos; diante disso, o demo dos atenienses manifesta-se ostendendo os préstimos desde sempre a favor dos helenos e, para que retribua graça adequada a Hipócrates pelas boas obras, foi decretado pelo demo iniciá-lo a expensa do erário nos grandes mistérios, assim como Héracles, filho de Zeus, e coroá-lo com áurea coroa de mil dracmas de ouro; e proclamar a coroa nas grandes Panatenaicas, no certame gímnico; e ser lícito aos filhos de Cós exercitarem-se em Atenas assim como os filhos dos atenienses,  porquanto a pátria deles tenha gerado tal homem; e haver a Hipócrates tanto cidadania como comida no Pritaneo por toda a vida.[vi]

A liberalidade hipocrática e a prática médica, ante o evento da peste, envolvem: a benevolência em relação ao cuidado de toda a vida helênica, o que as implica nas deliberações que envolvem a saúde comum; o aprendizado compartilhado da arte, o que aumenta o alcance da prática e amplifica os favores da arte; a preceituação terapêutica, que orienta a conduta segura; a gratuita publicação de seus institutos, que patenteia a todos a chance da salvação. A gênese apolínea da medicina revela a origem celestial do escudo de que os helenos se valem na contenção da doença bárbara que por eles penetra. A guerra subsiste como evento histórico gerador da pestilência: o choque com o bárbaro dispara a infestação pestilencial que escapa das mãos e infesta. De um lado ela invade os persas, diz Artaxerxes; do outro, deles provém, dizem os helenos; é, porém, aparecimento gerado pelo repique das armadas de ambos. A repercussão da peste interrompe a loucura bélica e os excessos da guerra, que, suspendendo as fronteiras, confundem os limites das coisas e degeneram as ordens natural e divina. Mal comum ao humano, ela excede o conflito, pois aumenta a aflição e retira do homem a razão do conselho e a força da decisão; interpondo-se entre os homens, ela passa a reger as ações, reorientando o curso dos sucessos. Se, durante a guerra, a gestão das ações concorre para a morte de muitos, com a vinda da peste, o conjunto das ações volta-se à conservação da vida de cada um. A arte marcial é substituída pela apolínea. O padecimento da alma coletiva que leva à desrazão coletiva geradora da peste, pois são a mania e a loucura que respondem pelo espalhamento da doença, demanda a sanidade das almas para o saneamento dos corpos. A arte médica existe como contenção, mas é antes a conduta exemplar na prática da arte, aliada aos esforços mútuos por que se reconciliam os homens, que promovem a salvação e ligam cidades com vínculos da gratidão.

2.

Nas histórias, o aparecer da peste gera-se a partir de sua anterior aparência poética. No sétimo livro das Histórias, acha-se que

“na terceira geração, depois de morto Minos, geraram-se as Tróicas, em que não se mostram os cretenses os piores em vingar Menelau. Após isso, tendo eles retornado de Tróia, geraram-se fome e peste, a eles mesmos e aos quadrúpedes; assim, pela segunda vez devastada Creta, juntamente com os que restaram, os cretenses que ora a habitam são os terceiros”.[vii]

Na história, a fome e a peste, conjuntamente com a guerra, decidem a fortuna e a composição dos povos e de seus rebanhos, e ditam em alguma medida os rumos da história dos povos: a guerra, seguindo o conselho dos homens; a fome e a peste, excedendo-lhes a vontade. Na História da guerra do Peloponeso, Tucídides:

“Tendo caído em tal padecimento, afligiam-se os atenienses, os homens dentro morrendo, a terra sendo fora devastada. Em meio ao mau, decerto lhes veio à memória o seguinte dito, que os mais velhos outrora diziam cantar-se:

Virá a guerra dórica e, com ela, a peste!

gerou-se, porém, contenda entre os homens acerca de não ter sido no carme nomeada pelos antigos peste (loimós), mas fome (limós), e, por ora, venceu ter-se verossimilmente dito peste (loimós), pois os homens faziam a memória de acordo com o que sofriam. Mas, se porventura suceder outra guerra dórica e depois dela acontecer de se gerar a fome (limós), devido à verossimilhança, penso eu, assim cantarão.”[viii]

A peste acompanha a guerra, assim como acompanha a guerra a fome. O recontro entre estranhos durante a luta aberta coincide com a entrada da desconhecida doença que se alastra e com a devastação das lavouras e das criações que leva a fome para dentro das casas, de modo que, ocorrendo externamente, a morte bélica leve a efeito a política fragorosa entre estrangeiros, já a pestilenta e a famélica sejam silentes mortes intestinas pertencentes aos lares, oikonomikaí.

3.

Não à toa, na boca do orador romano, o nome latino pestis se torna modo frequente de maldizer e acusar, já não a doença, mas o mesmíssimo réu cuja doença são maquinações que contaminam os mais, cujo negotium atenta contra a pátria e a república:

“mostro teres tu por todas as partes da província pervagado tal como alguma calamitosa tempestade e peste”.[ix]

Em Cícero, a peste torna-se o homem que afeta os ópidos, a um após outro levando a audácia obscena que condensa aglomerados humanos que espalham calamidade por onde passam vagabundos.

“afastavam-se todos, esquivavam-se todos, fugiam todos como de alguma imane e perniciosa besta e peste”.[x]

Todos de tudo fazem para evitar a besta nociva, a peste humana que infesta os homens. Mas há quem teime em ficar.

“porventura apelaste nominalmente à peste daquele ano, à fúria da pátria, à tempestade da república, a Clódio?”[xi]

Assim como Clódio outrora vestido de mulher contaminara impudentemente os locais das pudicíssimas cerimônias das virgens vestais e por tanto malefício fora a peste da república naquele ano; assim, agora, ela se traveste no homem, cujo vício parte da boca virulenta que com força repentina golpeia a população. A tempestade popular oriunda do direito iníquo que perverte a república não cessa enquanto o mesmíssimo povo não aplica as penas justas que a restabeleçam inviolada[xii].

“não é isso medicina, quando para parte sã do corpo e íntegra se recorre a escalpelo, é isso aí carnificina e crueldade: curam a república os que extraem alguma peste tal como uma parótida da cidade”.[xiii]

A glândula salivar, infectada, enraivece os outros; para a interrupção da raiva, é a extração a fonte da sanidade. Curam a república, não os que apelam à fúria da pátria, mas aqueles que extraem cirurgicamente a parte doente e flácida da cidade, para que viva o restante corpo.

“Há que se ter grande gratidão aos deuses imortais e a este mesmíssimo Jove Stator, antiquíssimo guardião desta urbe, por tantas vezes termos desta tão sombria, tão horrível e tão infesta peste da república já fugido”.[xiv]

A proveniência divina da peste permanece entre os latinos, e sua pertinência celeste a liga à tempestade, servindo o céu à significação da vinda de ambas, esta pelos indícios da natureza, aquela pelos sinais da divinação. E como os princípios dos deuses sejam o céu e a terra, sendo os deuses em parte celestes e masculinos, em parte terrestres e femininos, cumpre sobretudo a Júpiter, que no céu em virilidade antecede, o poder das causas com que se faz algo no mundo, sendo mais frequentemente este o deus do justiçamento humano e, assim, emissário do maligno influxo celeste.

A peste oratória vincula-se à genealogia mítica da peste como recurso dos deuses celestes à correção dos maus costumes terrenos: a primeira, por via da condenação civil do réu pestífero, a segunda, pela condenação religiosa dos modos ímpios.

4.

No século XIV, em sua Genealogia dos deuses gentios, Giovanni Boccaccio ensinará serem o Labor (labor)[xv], o Medo (metus)[xvi], a Pobreza (egestas)[xvii], a Miséria (miseria)[xviii], a Fome (fames)[xix], a Doença (morbus)[xx] filhos de Érebo, o qual julga ser o mesmo Tártaro, também dito Orco, e o nono filho de Demogorgon. Concebeu-o Terra, pois se escondeu no útero dela, que se estimava não sem razão ser o lugar das almas que penam, pois não havia do céu lugar mais remoto onde se lavassem as penas dos ímpios do que o centro da terra. É dito Érebo, porque, como diz Ugúcio, adere-se demasiado àquele a quem capta; Tártaro, a partir da tortura, porque torce os que engole; Orco, porque é escuro[xxi]. A Doença e a Fome são irmãs filhas de Érebo e Noite. A Fome é pública ou privada, sendo a pública a que acontece pela penúria universal de grãos, cuja causa é a ira divina, ou a guerra diuturna, ou os vermes subterrâneos roedores de sementes, as pragas. Assim, a Fome que se conjuga com a peste mítica é fome pública provida pelo deus, sendo, por sua genealogia térrea, terrena e feminina a divindade que a causa. Quanto à doença:

“É a Doença filha de Érebo e da Noite, como apraz a Túlio e a Crisipo. Ela, porém, pode ser defeito da mente e do corpo, e, assim como é causada no corpo pela discordância dos humores, assim na mente pela inconveniência dos costumes, e, então, merecidamente de tais pais, isto é, da cegueira intrínseca, a filha toma o nome, e, porquanto pareça tender à morte da saúde, morbus, como a muitos apraz, foi chamada”.[xxii]

A Doença que se diz peste é a causada na mente pelos desvios do bom costume, uma vez que os deuses causantes ditam os dos homens, de modo a ser ela a morbidade da mente da cidade, pois por esta se espalha. Sua infestação se não manifesta, não se vê sua chegada, mas o efeito por onde passa, pois silencia. Por ser causada por um modo de agir cego e que se reprova e que se repete, vincula-se a peste a um dos irmãos da Doença e da Fome, o Labor, a que hoje chamamos trabalho:

“Está escrito por Cícero ser filho da Noite e de Érebo o Labor, cuja quididade por ele mesmo se designa do seguinte modo: Labor é alguma função, da alma ou do corpo, de mais grave obra ou encargo. Observando-a, com mérito se pode dizê-lo filho da Noite e de Érebo, é ele deveras danoso e com mérito há de ser reprovado. Pois, assim como no Érebo e na Noite é perpétua a inquietação dos criminosos, assim também nos segredos penetráveis nos corações daqueles que, arrastados pela cega cupidez acerca do supérfluo e minimamente oportuno, se agitam com contínua cogitação, e, porquanto tais cogitações no obscuro peito se causam, com mérito Labor tal é dito filho da Noite e de Érebo”.[xxiii]

A função danosa, que se reprova e que se exerce, envolve as ações que participam dos costumes desviantes que a peste corrige, de modo que o agir laboral cego, dirigido pelo vício da cupidez por o que é supérfluo, pelo inoportuno agir que agita o corpo e a mente de quem labora em uma maquinação contínua, seja o modo do labor que vem a peste interromper. Eis a explicação mítica das causas da peste, cujos efeitos históricos se consideravam então a correção moral dos homens visada pelos deuses celestes, e alcançada pelo culto da religião pelos sobreviventes.

5.

É  a peste tratada, historicamente, pelo mesmíssimo Boccaccio, pois na primeira jornada do Decameron, há uma demonstração da ocasião em que o autor diz da la mortifera pestilenza que em 1348 sobreveio à Florença, insistindo, como os antigos pagãos, em ser a bubônica a correção mandada aos mortais por operazion de’ corpi superiori e por giusta ira di Dio; ensina, porém, que, tendo-se iniciado nas partes orientais, continuando sem descansar, após alguns anos a peste se amplia miseravelmente até o ocidente. Seu percurso dela, tornado mais amplo e continuado, já atravessava então as partes do mundo, mas permanecia adstrito ao ritmo da vela, da cavalgadura e de seus vetores animados, não sendo a mesma ao mesmo tempo, pois não se fez como no oriente, onde sangue no nariz era sinal inevitável da morte. Então, foram ordenados oficiais que purgassem a cidade das imundícies, foi vedada a entrada de todo e qualquer enfermo no circuito dos muros de Florença, além de outros muitos conselhos para a conservação da salubridade, o que todavia não evitou que entre março e junho daquele ano 100.000 tenham tido tolhida a vida.

“No condado, deixando estar os castelos, que semelhantes eram em sua pequenez à cidade, pelas quintas apartadas e pelos campos, os lavradores miseráveis e pobres e suas famílias, sem nenhum esforço de médico ou ajuda de servidor, pelas vias e pelas suas lavouras e pelas casas, de dia e de noite indiferentemente, não como homens, mas como se bestas morriam; coisa pela qual, eles, tornados em seus costumes tão lascivos quanto os cidadãos da cidade, de nenhuma coisa sua ou afazer cuidavam: assim, todos, como se esperassem por aquele dia em que vissem ser-lhes vinda a morte, esforçavam-se com todo o engenho, não em ajudar os frutos futuros das bestas e das terras e das suas fadigas passadas, mas em consumir aquilo que se achava presente. Pelo que, sucedeu os bois, os asnos, as ovelhas, as cabras, os porcos, os frangos e mesmo os cães, os fidelíssimos aos homens, serem repelidos para fora das próprias casas; pelos campos, onde ainda estava abandonado o feno, sem ter, não quem o colhesse, mas quem o ceifasse, andavam como melhor lhes prazia; e muitos, quase como os racionais, posto que haviam bem pastado de dia, à noite às suas casas sem nenhum constrangimento do pastor satisfeitos tornavam.”[xxiv]

A peste corretiva incide mais duramente sobre pobres e lavradores, ela lhes interrompe a vida cotidiana, alterando-lhes os costumes, a relação cotidiana com o tempo, então vinculada ao tempo das estações e dos ciclos laborais, se desfaz, o presente se dilata pelo encurtamento do futuro, a frequentação das casas muda com a ausência dos animais, os únicos que com o advento da peste saem para pastar.

*Yuri Ulbricht é mestre em filosofia pela USP

Para ler a primeira parte acesse https://aterraeredonda.com.br/uma-breve-historia-da-peste-i/

Notas


[i] Latinamente dito Esculápio.

[ii] Hipp. EPISTOLAI. DOGMA. EPIBWMIOS. PRESBUTIKOS. 2.

[iii] Hipp. EPISTOLAI. DOGMA. EPIBWMIOS. PRESBUTIKOS. 5.

[iv] Hipp. EPISTOLAI. DOGMA. EPIBWMIOS. PRESBUTIKOS. 6.

[v] Hipp. EPISTOLAI. DOGMA. EPIBWMIOS. PRESBUTIKOS. 11.

[vi] Hipp. EPISTOLAI. DOGMA. EPIBWMIOS. PRESBUTIKOS. 25.

[vii] Herod. VII, 171.

[viii] Th. II, 54.

[ix] Cic. Verr. II, 1, 97.

[x] Cic. Cluent. 42.

[xi] Cic. Vatin. 33.

[xii] Cic. Sext. LXVII.

[xiii] Cic. Sest. 135.

[xiv] Cic. Cat. I, 11.

[xv] Boccaccio, G. Gen. I, XVII.

[xvi] Boccaccio, G. Gen. I, XIX.

[xvii] Boccaccio, G. Gen. I, XXIII.

[xviii] Boccaccio, G. Gen. I, XXIV.

[xix] Boccaccio, G. Gen. I, XXV.

[xx] Boccaccio, G. Gen. I, XXVII.

[xxi] Boccaccio, G. Gen. I, XXIV.

[xxii] Boccaccio, G. Gen. I, XXVII.

[xxiii] Boccaccio, G. Gen. I, XVII.

[xxiv] Boccaccio. G. Decameron. Prima giornata: “lasciando star le castella, che simili erano nella loro piccolezza alla città, per le sparte ville e per li campi i lavoratori miseri e poveri e le loro famiglie, senza alcuna fatica di medico o aiuto di servidore, per le vie e per li loro colti e per le case, di dì e di notte indifferentemente, non come uomini ma quasi come bestie morieno; per la qual cosa essi, così nelli loro costumi come i cittadini divenuti lascivi, di niuna lor cosa o faccenda curavano: anzi tutti, quasi quel giorno nel quale si vedevano esser venuti la morte aspettassero, non d’aiutare i futuri frutti delle bestie e delle terre e delle loro passate fatiche ma di consumare quegli che si trovavano presenti si sforzavano con ogni ingegno. Per che adivenne i buoi, gli asini, le pecore, le capre, i porci, i polli e i cani medesimi fedelissimi agli uomini, fuori delle proprie case cacciati, per li campi, dove ancora le biade abbandonate erano, senza essere non che raccolte ma pur segate, come meglio piaceva loro se n’andavano; e molti, quasi come razionali, poi che pasciuti erano bene il giorno, la notte alle lor case senza alcuno correggimento di pastore si tornavano satolli”.