As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Relatos do Mundo

Rubens Gerchman, Assegure seu Futuro, 1967. Reprodução fotográfica autoria desconhecida.
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por DANIEL BRAZIL*

Comentário sobre o filme dirigido por Paul Greengrass

Relatos do Mundo, filme protagonizado por Tom Hanks, deve receber uma penca de indicações para o Oscar. Um faroeste humanista, melancólico, com bela fotografia, direção e trilha sonora, que se encaixa bem na linha revisionista da história dos Estados-não-muito-Unidos da América.

O capitão Jefferson Kyle Kidd, veterano da guerra civil, tem como atividade levar notícias aos rincões mais isolados do Sul ainda marcado pela derrota. Lê jornais em troca de algumas moedas, em cada povoado. E logo no início da narrativa encontra uma garota órfã, Johanna, de origem alemã (vivida de forma impressionante por Helena Zengel), cujos pais foram mortos e foi criada por índios da nação Kiowa, também eliminados pelo sanguinário avanço branco nas pradarias. Ela é uma dupla órfã, abandonada e sem falar uma palavra de inglês.

O capitão toma como missão entregá-la a parentes distantes, tios que moram em outro estado, 500 km de distância. A jornada não será fácil, e a relação entre eles vai sendo construída de forma sutil, apoiada em imagens deslumbrantes e uma trilha sonora discreta e eficiente.

Quem quiser saber mais assista ao filme; não irá se arrepender. Uma releitura sensível e introspectiva do faroeste clássico americano, onde os cinéfilos irão reconhecer de cara a óbvia referência ao clássico Rastros de Ódio, de 1956. Ali o também veterano da guerra civil John Wayne reencontrava uma garota, sua sobrinha, que teve os pais mortos e foi sequestrada e criada pelos índios.

Quero aqui chamar atenção para um detalhe, uma subtrama que pode passar desapercebida para algumas pessoas, e que não vai interferir na fruição da narrativa. O filme, baseado num romance de Paulette Jiles, News of the Word, acompanha um apresentador de notícias pré-rádio, pré-televisão. E as notícias que ele narra nem sempre são boas.

O diretor Paul Greengrass escancara as cicatrizes da guerra de Secessão, mostrando o rancor incontido dos sulistas quando a notícia se refere ao “governo central”. O público se comporta de maneira desigual: ou reage de forma figadal, xingando os políticos, ou passivamente, acatando bovinamente as informações selecionadas pelo capitão-leitor.

Poucas moedas pingam na sua caneca, o suficiente para que ele vá até outra localidade continuar sua tarefa. Numa delas, é rudemente cercado por uma gangue, chefiado por um sujeito que é a lei do lugar: é prefeito, delegado e juiz, e todos trabalham para ele. Imagine uma espécie de Serra Pelada, nos anos 70, com um repórter se deparando com um Major Curió…

A cena em que o torturado Capitão Kidd (sim, ele tem crises de consciência!) consegue maior empatia com o seu público é quando abandona os relatos políticos ou econômicos, que afetam diretamente a vida das pessoas, e narra um fait divers, uma mera curiosidade, que arranca risos gerais. A audiência aumenta, as moedas tilintam com mais ressonância.

Está ali retratado o embrião do “jornalismo” de nossos tempos. O entretenimento em lugar do que realmente interessa. A espetacularização da notícia, o destaque às bizarrices ao invés das manobras políticas e econômicas que irão afetar diretamente a vida das pessoas. A dramatização dos fatos, jogando poeira nos olhos do espectador. Em vez de dizer que a gasolina subiu 7%, e isso vai afetar toda a cadeia produtiva, até o preço do arroz no mercado, nossa TV envia um/a repórter (bonito/a, de preferência) até um posto, onde ele/a dirá de forma teatral que “a gasolina agora nesta bomba custa 5,10 o litro”. Ah, que raiva da bomba do posto de combustível!

Capitão Kidd nem precisa de tal artimanha. Intuitivamente descobre que falar do suposto morto que ressuscitou, do pai que jogou a filha pela janela, da briga de fulaninho com fulaninha no BBB, pode render mais audiência (e lucro) que falar de assuntos sérios que afetem a comunidade e a levem a uma mobilização. A notícia que não vai mudar nada na vida de ninguém, devidamente teatralizada, é um sucesso garantido. Trata-se de um precursor da mídia de nossos tempos, sem dúvida.

O capitão irá encontrar os tios e devolver a menina? Bem aí é com vocês. Preparem a pipoca e boa diversão!

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

Referência


Relatos do Mundo (News of the World)

EUA, 2020, 119 minutos.

Diração: Paul Greengrass

Elenco: Tom Hanks, Helena Zengel, Elizabeth Marvel, Tom Astor, Andy Kastelic, Travis Johnson, Mare Winningham.

 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Afrânio Catani Marcos Silva Fernando Nogueira da Costa Chico Alencar Luciano Nascimento Paulo Nogueira Batista Jr Armando Boito Luiz Bernardo Pericás Gilberto Lopes Heraldo Campos Boaventura de Sousa Santos Maria Rita Kehl Priscila Figueiredo Lorenzo Vitral João Carlos Loebens Jorge Luiz Souto Maior Juarez Guimarães Francisco Fernandes Ladeira Flávio Aguiar João Lanari Bo Leonardo Avritzer Leonardo Sacramento Leda Maria Paulani Vladimir Safatle Valerio Arcary Eugênio Trivinho Gilberto Maringoni Gerson Almeida Carlos Tautz Annateresa Fabris Rodrigo de Faria Paulo Sérgio Pinheiro José Dirceu Slavoj Žižek Marilia Pacheco Fiorillo Paulo Fernandes Silveira Alexandre de Lima Castro Tranjan Luiz Werneck Vianna Ronaldo Tadeu de Souza Ricardo Musse Francisco de Oliveira Barros Júnior Vanderlei Tenório Henri Acselrad Berenice Bento Rubens Pinto Lyra Anselm Jappe Dênis de Moraes Tadeu Valadares Mariarosaria Fabris Igor Felippe Santos José Machado Moita Neto João Adolfo Hansen Remy José Fontana Luis Felipe Miguel Sandra Bitencourt Ladislau Dowbor Daniel Costa Luís Fernando Vitagliano Tales Ab'Sáber Ricardo Fabbrini Luiz Costa Lima Alexandre de Freitas Barbosa Daniel Brazil Manuel Domingos Neto Fábio Konder Comparato Jorge Branco Samuel Kilsztajn Tarso Genro André Singer Milton Pinheiro Paulo Martins Eugênio Bucci Luiz Roberto Alves José Costa Júnior Eleonora Albano Bento Prado Jr. Mário Maestri Bernardo Ricupero Lucas Fiaschetti Estevez Marilena Chauí Rafael R. Ioris Leonardo Boff Alexandre Aragão de Albuquerque Paulo Capel Narvai João Paulo Ayub Fonseca José Luís Fiori Luiz Eduardo Soares Roberto Bueno Ari Marcelo Solon Vinício Carrilho Martinez Airton Paschoa Dennis Oliveira Valério Arcary Ricardo Antunes Marcos Aurélio da Silva Érico Andrade Eduardo Borges Celso Frederico José Micaelson Lacerda Morais Lincoln Secco Osvaldo Coggiola Ricardo Abramovay Eliziário Andrade Otaviano Helene Thomas Piketty Antônio Sales Rios Neto João Feres Júnior Elias Jabbour Francisco Pereira de Farias Flávio R. Kothe Jean Marc Von Der Weid Anderson Alves Esteves Walnice Nogueira Galvão Marcus Ianoni Carla Teixeira Plínio de Arruda Sampaio Jr. Chico Whitaker Michael Roberts Eleutério F. S. Prado Antonio Martins Salem Nasser Yuri Martins-Fontes Roberto Noritomi Gabriel Cohn Ronald Rocha Celso Favaretto Jean Pierre Chauvin João Sette Whitaker Ferreira Julian Rodrigues Sergio Amadeu da Silveira Caio Bugiato Bruno Machado João Carlos Salles André Márcio Neves Soares Bruno Fabricio Alcebino da Silva Renato Dagnino Luiz Renato Martins Luiz Carlos Bresser-Pereira Kátia Gerab Baggio Daniel Afonso da Silva José Raimundo Trindade Everaldo de Oliveira Andrade Denilson Cordeiro Marjorie C. Marona Claudio Katz Alysson Leandro Mascaro Atilio A. Boron Andrew Korybko Fernão Pessoa Ramos Benicio Viero Schmidt Manchetômetro Marcelo Guimarães Lima Liszt Vieira Luiz Marques Antonino Infranca Michael Löwy José Geraldo Couto Marcelo Módolo Ronald León Núñez Henry Burnett

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada