Vladimir Herzog

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Por EMILIANO JOSÉ*

O sol que chega após a noite mais longa não é um acaso da natureza, mas a colheita da coragem plantada pelos que enfrentaram o terror

1.

Chegava outubro de 1975. Após quatro anos preso, ganhara a liberdade havia apenas um ano. Liberdade condicional. Ditadura, a todo vapor. Trabalhava no Jornal da Bahia. “Mataram Vlado”. Correu a notícia. Outubro, com gosto de sangue na boca. Frio na espinha.

O terror voltava a nos assombrar, não obstante a promessa da distensão lenta e gradual do general Ernesto Geisel, inspirada na formulação do bruxo, também general, Golbery do Couto e Silva. Iludiu-se quem quis. O novo ditador nunca enganou a ninguém. Ou não deveria. Dissera, sem arrodeio, é preciso continuar a matar. Continuou.

O bárbaro assassinato de Vladimir Herzog, notório jornalista, não era uma exceção, ato isolado. Ditadura vinha sequestrando, prendendo, torturando, matando desde 1964, desde o nascedouro. Terror, era o próprio terror. Há leituras, aqui e acolá, tentando separar Ernesto Geisel e a extrema direita das Forças Armadas.

Não se negue: contradições existiam. Luta pelo poder entre duas visões – as duas, no entanto, componentes de uma mesma ditadura. Talvez caiba, por isso, situar a morte de Vlado num contexto mais amplo, de modo a não nos enganarmos. Ernesto Geisel queria dar passos no sentido, quem sabe, de uma retirada negociada. Transição pactuada. Na retirada, seguir matando, limpando terreno.

Não se dê a Ernesto Geisel, vou insistir, qualquer pretensão democrática. De modo nenhum. Ditadura, não obstante contradições, era uma só. A rigor, por ser o que era, demorou para largar o osso. Só o fará, em 1985, depois da força das Diretas Já. Derrotada, não obstante, Diretas Já fez ver à ditadura ter terminado o tempo dela. E Tancredo Neves, eleito. Não vamos discutir o momento da chegada a essa fase.

Em 1975, fase de limpeza de terreno, ainda. Seguir matando, insista-se. Havia massacrado organizações revolucionárias defensoras e praticantes da luta armada. Mártires e mais mártires da luta do povo brasileiro. Em janeiro de 1976, ditadura mata o operário Manoel Fiel Filho, na sequência repressiva contra o PCB. Entre tantos horrores, o do Araguaia, concluído, sob Ernesto Geisel, com o Massacre da Lapa, também em 1976.

Naquele outubro, naquele 1975, a sequência de uma ofensiva planejada contra o PCB, na esteira da qual Vlado é assassinado. O fato de o PCB não defender a luta armada, ser partidário da luta de massas como mecanismo para derrotar a ditadura, não o livrou, muito ao contrário, da violência do regime de terror. Às vezes, isso é esquecido. Creio ser imperdoável o esquecimento.

2.

Aconselho, e há muitas outras leituras, o livro de Marcelo Godoy – Cachorros: A história do maior espião dos serviços secretos militares e a repressão aos comunistas até a Nova República. Imperdível, por revelar a ação de um ex-integrante da Executiva do Comitê Central do PCB, Severino Theodoro de Mello, e a partir dele, a morte de mais de uma dezena de integrantes da direção do partido: mortos, esquartejados, incinerados, e nada disso é metáfora.

Antes daquele outubro, em julho de 1975, já sentira frio na espinha: na Bahia, repressão, prisão de mais de uma centena de pessoas, com direito à presença de Carlos Alberto Brilhante Ustra e Sérgio Fernando Paranhos Fleury, dois dos maiores torturadores e assassinos do período ditatorial.

Houve forte reação da sociedade civil baiana, inclusive do cardeal dom Avelar Brandão Vilela, e isso constrangeu o terror: ninguém chegou a ser morto. Como decorrência da ação repressiva, onze daqueles presos foram condenados, homens e mulheres, dirigentes do PCB, então na linha de tiro. Vladimir Herzog, vítima daquela ofensiva, quando ela chega a São Paulo com toda força.

Há um bom acervo sobre o assassinato de Vlado. Por isso, não me estendo sobre isso. Apenas registro ter sido um momento de virada. Forças da sociedade civil resolvem enfrentar a besta. Dar a cara a tapa. Encarar o monstro.

Para ser justo, dois anos e pouco antes, diante de outro assassinato, o de Alexandre Vannuchi Leme, 30 de março de 1973, foi celebrada missa na Catedral da Sé pelo arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, com presença de cinco mil pessoas, a contar com artistas, oposições sindicais, sindicatos, associações, centenas de estudantes, indignados com a violência da ditadura. Eppur si muove. Apesar de tudo, sociedade começava a reagir.

Insisto, no entanto: a reação à morte de Vlado, na ofensiva contra o PCB, foi um ponto de virada. A partir daquele momento, as forças da sociedade civil, e mesmo o mundo político estrito senso, incluindo o MDB, caminharam de modo mais decisivo no combate à ditadura, e seguiram pavimentando o caminho para derrotá-la. Principalmente, insisto, com a campanha das Diretas Já, quando milhões de pessoas saíram às ruas, depois de consistente acúmulo de forças entre aquele outubro de 1975 e o início dos anos 1980. A morte de Vlado não foi em vão.

3.

O assassinato dele valeu uma missa, e muito mais. Foi a mais impressionante manifestação de massas depois do AI-5, de dezembro de 1968. A cerimônia ultrapassou em muito a natureza sagrada do ato, embora nada tirasse do significado religioso dela. As milhares de pessoas presentes não couberam na Catedral da Sé naquele 31 de outubro de 1975.

Espalhavam-se pela praça.  Não foi propriamente uma missa. Um ato inter-religioso. Manifestação de massas. Com o corajoso, destemido cardeal dom Evaristo Arns à frente. Ao lado dele, o pastor presbiteriano Jaime Wright e o rabino Henry Sobel, além do cardeal dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife. E tantos outros sacerdotes.

“Ninguém toca impunemente no homem que nasceu do coração de Deus para ser fonte de amor”. Palavras de Dom Evaristo Arns.

Necessário, para um ato como aquele, pudesse a indignação e a esperança suplantarem o medo. O secretário de Segurança, nome conhecido da repressão, Erasmo Dias, espalhou bloqueios por toda a cidade. Tentava de todas as maneiras criar dificuldades para a chegada de manifestantes à Praça da Sé. A multidão foi chegando a pé, e ao chegar encontrava a praça totalmente tomada por policiais, cavalos, cachorros.

Clima de terror. Incapaz, no entanto, de evitar a impressionante mobilização. No coração de cada um, apesar do medo, a solidariedade a Vlado, a certeza da não existência de ditaduras eternas, a confiança na unidade de tanta gente em favor da democracia e da liberdade.

Braços dados, a multidão seguiu estrada afora, e um dia assistiu ao fim da ditadura, como decorrência dessa força estranha: ter fé na vida. E certeza de que sempre haverá amanhã, sol raiando depois da noite escura. O sol, chega. Cedo ou tarde. Cedo à tentação, e volto a Thiago de Mello, pedindo licença:

“Faz escuro mas eu canto
porque a manhã vai chegar.
Ver ver comigo, companheiro,
A cor do mundo mudar”.
Mudou. Vlado, presente!

*Emiliano José é jornalista, escritor, membro da Academia de Letras da Bahia. Autor, entre outros livros, de O cão morde a noite (EDUFBA). [https://amzn.to/46i5Oxb]


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