Wittgenstein e a moralidade

Jon Rafman, Vista do porto
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Por JANYNE SATTLER*

Prefácio do livro de Matheus Colares do Nascimento

1.

É uma honra e uma alegria poder escrever as linhas que prefaciam o livro de Matheus Colares do Nascimento. Resultado das pesquisas realizadas em seu mestrado em filosofia na Universidade Federal de Santa Catarina, este livro atesta o pesquisador autônomo e engajado que é o Matheus, em sua tarefa de análise, muito fina e detalhada, de um dos filósofos mais importantes da contemporaneidade, Ludwig Wittgenstein.

Não é o caso de que meus elogios se devam às inúmeras concordâncias exegéticas que compartilhamos. Nem o é caso de que seguimos ainda uma parceria de estudos que nos permite a convivência filosófica. O caso é que esse é de fato um trabalho cuidadoso e bem-acabado, com uma argumentação segura e uma escrita prazerosa.

Quando menciono autonomia e engajamento estou pensando não apenas nos modos de realização da pesquisa – no tracejado independente de propósitos e linhas argumentativas descobertas por sua conta e risco – mas também no desenhar das suas reflexões interpretativas.

Que essas duas qualidades caminhem juntas, aqui, significa que a autonomia filosófica não licencia o desenvolvimento de argumentos levados às últimas consequências em prol dos próprios argumentos – o que pode muitas vezes levar a pensamentos de ordem moral e politicamente questionável – mas que ela está comprometida com uma busca aderente a valores filosóficos que se desdobram, se estendem e se enredam na realidade, e que ecoam o modo como vivemos nossas vidas com nossos conceitos.

Isso exige responsabilidade. Sim, o trabalho do Matheus Colares do Nascimento é um trabalho de exegese. Mas, não por isso, descolado do mundo. As implicações de suas conclusões exegéticas reverberam o seu engajamento como filósofo e a salutar abertura a reflexões futuras.

Seu propósito é a defesa de uma dupla continuidade em Wittgenstein: tanto aquela afeita à concepção de linguagem e que estabelece uma comunicação (e não uma ruptura) entre as obras, especialmente entre o Tractatus Logico-Philosophicus e as Investigações Filosóficas, quanto aquela relativa à concepção de ética, estando ambas profundamente imbricadas.

A sua linha argumentativa se coloca contra os movimentos de interpretação tradicional e resoluta da obra de Wittgenstein, e recontextualiza e restabelece as concepções de ‘ética’ e de ‘linguagem’ como legitimamente pertinentes ao tecido integral da filosofia wittgensteiniana. Contra a ideia do vazio da ética nas Investigações, Matheus Colares do Nascimento estabelece não apenas a sua vigência como a sua continuidade e importância desde o Tractatus. E, assim, contra a noção de que temos mais de um “Wittgenstein” a perscrutar filosoficamente, ele percebe as linhas de contiguidade.

2.

Se há mudanças ao longo do caminho, elas não são radicais a ponto de supor o abandono de conceitos cruciais ao pensamento wittgensteiniano, especialmente aquele de ‘ética’, que desde o início já estabelecia para o filósofo o enquadramento das implicações morais advindas de nossa concepção (inúmeras vezes filosoficamente equivocada) de linguagem.

Afinal, a atitude antimetafísica que informa o Tractatus tanto quanto as Investigações parte das armadilhas e consequências nefastas da linguagem sobre a vida moral. E não é à toa que podemos falar aqui de um certo tipo de filosofia como terapia. Para Matheus Colares do Nascimento, isso também significa rever aquelas leituras que compreendem a ética como um mero subproduto da linguagem.

Não há, diz ele, prioridade conceitual da linguagem sobre a ética. E não há, portanto, um abandono da ética advindo das mudanças realizadas sobre a concepção de linguagem pós-Tractatus. Há tão somente “ajustes”, e eu gostaria de salientar o quanto me agrada essa palavra que o Matheus Colares do Nascimento utiliza em sua análise dos textos intermezzos de Wittgenstein em sua caminhada rumo às Investigações Filosóficas.

É aliás o modo como Matheus Colares do Nascimento interpreta os principais conceitos das Investigações – ‘jogos de linguagem’, ‘semelhanças de família’ e ‘formas de vida’ – que lhe permite a refutação da leitura convencional quanto à ausência da ética, insistindo em sua permanência na obra tardia de Wittgenstein.

Vou deixar que se verifique na leitura as particularidades desta interpretação, mas gostaria de enfatizar a percepção de que o desenvolvimento conceitual das Investigações se dá em continuidade aos propósitos ético-linguísticos já claramente colocados pelo Tractatus, nunca efetivamente abandonados por Wittgenstein, embora modificados em vista de certos erros e “ajustes” necessários – como as correções advindas do problema das cores; e de que uma distinção importante do Tractatus, entre dizer e mostrar, que ajuda a compreender o sentido da recusa proposicional da ética, tem implicações sobre a compreensão que se retira das observações explícitas, pontuais e escassas, sobre a ética nas Investigações.

Matheus Colares do Nascimento realiza essa interpretação e a defende contra leituras canônicas, tradicionais, convencionais de Wittgenstein, e desbanca os equívocos exegéticos de vários comentadores com muita classe e fina ironia. Que é mais um elemento de sua escrita prazerosa.

*Janyne Sattler é professora do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Referência


Matheus Colares do Nascimento. Wittgenstein e a moralidade: a continuidade de uma concepção metaética. Curitiba, Appris Editora, 2025, 164 págs. [https://amzn.to/4b8DLkV]

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