Visão holística ou sistêmica financeira

Imagem: John Lee
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Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA*

Para tomar melhores decisões individuais, necessita-se de uma visão macroeconômica do conjunto da economia, reunindo os elementos dispersos

A distinção entre fluxo e estoque, em economia, é crucial. Fluxo se refere a movimento dinâmico, isto é, ao longo do tempo, de um bem, serviço, moeda ou título financeiro. Ele é iniciado em um determinado mercado e realizado no interior da economia em seu conjunto. Por exemplo, no processo produtivo são gerados um fluxo (real) de produtos e um fluxo (nominal) de renda. Este último pode ser destinado ou aos gastos ou às aplicações em saldos e estoques. Aquele primeiro dirige-se para atender à demanda no mercado.

O circuito dos dois fluxos pode não se encontrar na mesma proporção, em dado momento, gerando estoques. Estes se referem à quantidade armazenada, entesourada ou em conservação de um bem, moeda ou título. Esse bem pode ser uma matéria prima, um produto semiacabado ou acabado. Os bens podem ser estocados para futura venda, abastecimento de entressafra, ou especulação.

O volume total e o valor dos estoques, em uma economia, estão sujeitos a flutuações conjunturais de curto prazo, relacionadas às taxas de inflação, juros e de câmbio. No período do mercado, caso o preço pedido pelo ofertante (vendedor) não achar nenhum demandante (comprador), o estoque daquela mercadoria se acumula e o comerciante tem de pedir emprestado um capital de giro para pagar seus compromissos.

Ele vai comparar entre a despesa financeira com juros e o custo de oportunidade de deixar de vender e não poder ganhar juros com o dinheiro, em vez de os pagar. Sua decisão poderá ser uma liquidação, ou seja, dar liquidez aos estoques acima dos planejados ao vendê-los mais baratos diante do preço pedido antes.

Caso achar não valer a pena a liquidação e planejar manter o estoque, sinalizará para os fornecedores não necessitar de mais mercadorias. Estes diminuirão a produção e com capacidade produtiva ociosa, inclusive com colocação dos trabalhadores em férias coletivas, poderão também adiar decisões de investimento em ampliação da capacidade produtiva. Em termos sistêmicos, gera uma recessão com queda de empregos e renda.

A demanda efetiva é uma variável crucial para determinar o nível dos estoques. Não se trata apenas do consumo e investimento, mas também da substituição desse gasto privado, quando ele se ausentar na economia em recessão, pelo gasto público.

Para tomarmos melhores decisões individuais, necessitamos de uma visão macroeconômica do conjunto da economia, reunindo os elementos dispersos. Isso impõe o abandono da ótica individualista dos problemas econômicos, para alcançar uma visão sistêmica, coletiva ou holística.

A análise do processo social de produção e consumo, costumeiramente, começa da noção de circulação de mercadoria em lugar de circulação monetária. Desde o passado, o foco no ciclo de produção agrícola sugeria a produção ser, essencialmente, um processo circular: os mesmos bens apareceriam, seja entre os produtos, seja entre os meios de produção, por exemplo, as sementes para futura plantação.

Entretanto, antes dessa visão fisiocrata, no século XVIII, segundo a enciclopédia The New Palgrave, em escrito de 1484, já se lia “a moeda é para o Estado como o sangue é para o corpo humano”. O processo de circulação de mercadoria e moeda entre diferentes classes sociais (senhores da terra, lavradores e mercadores) e áreas (campo e cidade) já era claramente descrito.

A economia política marxista, no século XIX, apresentou a circularidade como uma característica essencial da economia capitalista. Nela, a produção para a venda, um valor de troca em lugar de valor de uso só para atender ao consumo, era vista como um fim em si mesmo.

Desde o insurgimento da economia pura neoclássica, os economistas passaram a debater se a pedra fundamental da teoria econômica seria o ponto de vista do homo economicus em torno da escassez – e as melhores decisões individuais nessas condições – ou seria o princípio do fluxo circular com o ponto de vista da reprodução do sistema.

Nessa visão sistêmica, o comportamento econômico de cada indivíduo é visto como determinado pelas exigências de reprodução do sistema capitalista. Essa abordagem teórica é associada com a defesa de algum tipo de planejamento central pelos socialistas, ou regulação sistêmica pelos keynesianos, como consequência do receio em relação à “anarquia” do livre mercado.

Em contraponto, os neoliberais defendem os capitalistas (e/ou os rentistas) serem agentes livres na determinação da produção final ou oferta agregada. Aos trabalhadores restaria o seguinte “grau de liberdade” em suas decisões: vender sua força do trabalho ou morrer sem poder nada consumir…

Em seus termos mais básicos, a abordagem da circulação assume, desde logo, a produção depender de moeda para contratar a força de trabalho e comprar as matérias primas, em resposta às pressões da demanda efetiva, também validada por moeda. Esta moeda é essencialmente moeda bancária, isto é, crédito disponível na conta corrente, circulante (e multiplicada) em uma sequência particular de passos ou rodadas.

Uma análise desses passos revela a possibilidade de ocorrerem crises de numerosas maneiras, todas elas nascidas de falhas intertemporais ou “desproporcionalidades” em pagamentos monetários, devido a “vazamentos” no circuito monetário. O sistema capitalista se reproduziria sem crise caso as saídas do fluxo monetário sob a forma de gastos ou aplicações em saldos financeiros de qualquer classe social se tornasse pelo menos igual às entradas recebidas de volta.

Enquanto se desenvolve um fluxo real, gera-se, em simultâneo, esse fluxo monetário. Ao empregar os recursos produtivos das famílias (fluxo real), as firmas as remuneram com renda sob forma de salário, aluguel, juros, lucros (fluxo nominal). Com a renda recebida (fluxo monetário), as famílias adquirem poder aquisitivo. Têm o direito de adquirir os bens e serviços produzidos pelas firmas (fluxo real), de imediato, ou preservar para o fazer mais adiante no tempo, até mesmo na aposentadoria – ou deixá-lo com herança.

No mercado de recursos necessários à produção, envolvendo tanto o mercado de trabalho quanto o mercado de capitais, as famílias são ofertantes, enquanto as firmas são demandantes. No mercado de bens e serviços, os papéis se invertem: as firmas controlam a oferta e as famílias, a demanda.

Logo, os fluxos circulares de mercadoria e de moeda são interdependentes e explicam a inter-relação entre os agentes econômicos. As operações são possibilitadas pela circulação monetária e refletidas pelo sistema de preços relativos.

As economias capitalistas são “financeirizadas” desde a origem. Os problemas surgem do “vazamento monetário”, isto é, eventual falta de moeda no circuito – e não excesso. Existe uma hierarquia entre os agentes econômicos no circuito monetário. Toda produção exige um financiamento inicial em curto prazo, chamado finance, e um refinanciamento final ou definitivo com funding em longo prazo.

A moeda, como já dito, é uma moeda de crédito e, portanto, endógena, isto é, criada pelas forças do mercado. Há leis macroeconômicas só percebidas em uma visão holística das interações de seus componentes interdependentes – e não vistas nas relações microeconômicas (trocas) entre pares de indivíduos como expõe o neoclassicismo.

Por facilidade didática, distingue-se as famílias, as empresas não-financeiras, o Estado, os bancos e o resto do mundo. Mas as finanças pessoais, corporativas, públicas, bancárias e internacionais se entrelaçam nas partidas dobradas entre ativos e passivos.

Ao consolidar a evolução dos ativos financeiros líquidos por cada setor agregado, a diferença entre os ativos e os passivos financeiros revelou os setores institucionais liquidamente emprestadores da economia brasileira: as famílias (3/4 total concedido) e o resto do mundo (1/4). Os setores liquidamente tomadores eram as sociedades não financeiras (menos de 2/3) e o governo (mais de 1/3). As sociedades financeiras tinham a diferença entre ativos e passivos com resíduo próximo de zero, devido à intermediação de recursos. Por meio da “financeirização”, todos esses setores institucionais interagem através dos subsistemas de financiamento, gestão de dinheiro e pagamentos.

Os fluxos monetários do circuito são hierarquizados. As empresas não podem produzir sem acesso aos adiantamentos monetários dos bancos. As famílias não podem gastar sem as firmas não terem decidido produzir e distribuir rendas. As empresas não podem reembolsar os bancos, caso as famílias não façam dispêndio de suas rendas, seja pelo consumo, seja pela aquisição de títulos financeiros de dívida privada. Os bancos não podem emprestar senão se as firmas decidem a produzir, inclusive no caso de crédito direto ao consumidor.

Este repousa na antecipação da renda futura da família, dependente das decisões de emprego do grupo de empresas. O papel das famílias é, nesse sentido, totalmente dependente. A vida econômica é difícil, temos de aprender a lidar com isso…

*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/3r9xVNh]


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