Por JOSÉ GERALDO COUTO*
Comentário sobre o filme dirigido por Mariana Rondón, em cartaz nos cinemas
Um dos filmes mais fortes e originais da temporada, o venezuelano Zafari, corre o risco de ser descartado ou receber uma leitura simplista e enviesada por conta da polarização política que assola o país vizinho – e, aliás, boa parte do mundo.
A ação se passa numa grande cidade não nomeada, num momento de crise econômica e social aguda, em que escasseiam alimentos e os apagões de energia são cada vez mais frequentes e duradouros.
A diretora Mariana Rondón, que está exilada e rodou seu filme no Peru, no México e na República Dominicana, diz que o tema começou a lhe interessar em 2015, quando animais de um zoológico venezuelano começaram a ser roubados, tudo indica que para alimentar pessoas famintas. Em 2017 e 2018 a situação se agravou com o aprofundamento da crise na Venezuela.
Homens e feras
É nesse contexto de deterioração geral que a cineasta ambienta seu filme. A definição do espaço é essencial desde o início. Há um frondoso parque florestal que abriga um zoológico com espécies silvestres, e em cada lado dele um edifício residencial: um deles, modernista e estiloso, abriga apartamentos espaçosos de classe média; o outro, meio em ruínas, meio em construção, é ocupado por famílias pobres, um pouco à maneira de um cortiço.
A história começa com a chegada de um hipopótamo – o Zafari do título – ao zoológico. A cerimônia é assistida de binóculos por uma família do prédio de classe média, Ana (Daniela Ramirez), Edgar (Francisco Denis), e o filho adolescente do casal, Bruno (Varek la Rosa). Simetricamente, no lado pobre do parque, a família Romero – o pai, Ali (Ali Rondón), a mãe, Natalia (Samantha Castillo), e o filho adolescente – é encarregada de cuidar do hipopótamo.
O filme todo se desenvolve a partir dessa organização geográfica e social – duas classes sociais antagônicas, com uma selva no meio. A partir de um certo momento, a piscina do edifício bacana passa a ser frequentada também pelos pobres do outro lado.
Outro fator que aproxima os dois lados é a escassez, ou, melhor dizendo, a fome. O prédio de classe média está cada vez mais vazio, pois as famílias que conseguem abandonam o país. Com a desculpa de ser da associação de moradores e verificar vazamentos de água, Ana entra nos apartamentos vazios e recolhe para si tudo o que pode: ovos, alimentos enlatados, guardanapos de papel.
Enquanto isso, o marido tenta vender o terreno que era da sogra para financiar a fuga para o exílio. O terreno, como depois macabramente se revela, é o jazigo de onde a mulher foi retirada para ser cremada.
Cães selvagens
Com segurança e sutileza, Mariana Rondón cria um ambiente crescentemente de pesadelo, em que cada personagem parece se animalizar dia a dia, fazendo cair uma a uma as máscaras sociais e os escrúpulos éticos – analogamente aos cães que, abandonados pelos donos em fuga, voltam a ser selvagens.
Perpassando todo esse processo há uma tensão erótica latente, que se manifesta na sensualidade ostensiva de Natalia Romero e no esboço de sedução entre o casal “pobre” e o casal “rico”, incluindo o filho adolescente deste último. Incomoda a Ana e Edgar o fato de seu filho Bruno se aproximar do filho negro dos Romero e, mais ainda, da própria Natalia.
Pouco ou nada se vê do mundo urbano exterior a esse complexo prédio rico/selva/prédio pobre. Apenas o rugido das gangues de motoqueiros, uma ameaçadora milícia informal chavista.
A atmosfera claustrofóbica e de progressiva degeneração lembra O anjo exterminador, realizado por Luis Buñuel no México em 1962. Mas na sátira surrealista de Luis Buñuel era a aristocracia que se tornava prisioneira de sua própria vacuidade. Os criados fugiam a tempo. Na distopia realista de Mariana Rondón as classes sociais se igualam na degradação e na desumanização provocadas pela escassez. Não há saída, não há catarse.
Hoje ninguém vê o filme de Luis Buñuel como um retrato do México daquele período, mas sim como uma obra-prima universal. Mal comparando, um dia Zafari talvez venha a ser apreciado com esse olhar mais amplo, não contaminado pelo fla-flu em torno da Venezuela, uma ditadura cheia de equívocos que acaba de ser agredida por uma potência não menos ditatorial.
Em tempo: a diretora Mariana Rondón realizou em 2014 o ótimo Pelo malo, comentado aqui na época Cinema de cabelo duro – por José Geraldo Couto, e já tem um novo filme, Ainda é noite em Caracas, rodando com sucesso pelos festivais do mundo.
*José Geraldo Couto é crítico de cinema. Autor, entre outros livros, de André Breton (Brasiliense).
Publicado originalmente no blog do Instituto Moreira Salles.
Referência
Zafari
Chile, Peru, República Dominicana, França, México, Venezuela, 2024, 100 minutos.
Direção: Mariana Rondón
Elenco: Daniela Ramirez, Francisco Denis, Varek la Rosa, Ali Rondón, Samantha Castillo.






















