100 Anos de Clóvis Moura

Imagem: Francesco Paggiaro
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Por CHRISTIAN RIBEIRO*

As esquerdas devem interpretar as pautas antirracistas e de negritudes, como elementos interpretativos da realidade social brasileira

Ao partirmos da premissa de que um dossiê se compõe enquanto um conjunto de informações e evidências organizadas acerca de uma específica autoria, tópico, pessoa ou fenômeno. É uma forma de compilação sistematizada em que se realiza análise profunda, a partir de um balanço crítico sobre determinados tópicos. Assim, possibilitando compreender como tais trajetórias se constituíram, se desenvolveram e quais foram (são) os seus impactos, influências e legado.

Num país de parca e seletiva memória, a produção de dossiês desempenha fundamental importância por garantir o não apagamento e silenciamento sobre saberes, trajetórias e biografias que tradicionalmente não se fariam sustentar. Quando muito, relegados aos conhecimentos de poucos, tal qual um segredo precioso, de pouca ou nenhuma circulação, quase como uma lenda. E nunca como sapiências válidas e oriundas de historicidades e sociabilidades que se dão fora dos cânones legitimadores de nossa pretensa elite intelectual.

E aos dias finais do ano de 2025, a edição Cadernos Cemarx – nº 19, apresentou o “Dossiê em homenagem ao centenário de Clóvis Moura” – oriundo do seminário “20 anos sem Clóvis Moura”, realizado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) entre os dias 21 e 23 de novembro de 2023 – que organiza a função de se apresentar um painel amplo e diversificado das diferentes facetas de um pensador social de trajetória tão singular e significativa, quanto foi Clóvis Moura (1925-2025).

Intelectual comunista, polímata de formação autônoma e popular, de atuação libertária e radical por mais de seis décadas. Atravessando e enfrentando, os rigores do Estado Novo (1937-1945) de Getúlio Vargas e da ditadura civil-militar (1964-1985) e o elitismo reacionário do campo intelectual nacional em sua luta por constituir o negro enquanto elemento político coletivo modernizador e revolucionário – através dos processos de rebeliões e revoltas dos [ex]escravizados e dos quilombolas – da sociedade brasileira. Tendo nesse bojo o racismo e a questão racial, como elementos basilares de nosso sistema social historicamente discriminatório.

Para dessa forma, pioneiramente, constituindo divergência na seara da pensata progressista, ao definir nosso modelo de diferenças sociais enquanto elemento potencializador de nossas mazelas e incompletudes civilizatórias. Portanto, para Moura é a questão racial que define nosso sistema de discriminações e exclusões sociais e não o contrário.

Autor original em sua produção teórica e radical, ao desenvolver como premissa de seu pensamento histórico-sociológico, os processos de resistências negras enquanto peça política central da luta de classes no Brasil. Buscou constituir o seu ofício intelectual por uma interpretação de nossa sociedade, de maneira inovadora e revolucionária em seus métodos e premissas. Não havendo espaços para concessões ou acordos na sua práxis de pensador social da negritude brasileira, de cunho antirracista e anticapitalista.

Pensador social de produção vasta e constante, apesar de todas as dificuldades materiais e financeiras que envolvem o desenvolvimento de ciência fora do mundo acadêmico. Mais de 40 livros publicados, com além de uma série de artigos em revistas científicas ou periódicos da grande imprensa, da mídia alternativa, partidária e sindical. Que comprovam a sua presença e circulação ao cenário político e intelectual brasileiro, mesmo sofrendo uma série de clivagens no exercício de sua atividade.

Um intelectual de ruas e quebradas. De portas abertas a diálogos e debates. Sem nunca fugir de embates ou escaramuças. Por vezes ácido e corrosivo em suas interpelações, de humor ferino e preciso, mas sempre generoso e leal no exercício de sua pensata e militância. Comunista de sonhos moldados em lutas, pela busca do devir revolucionário de um outro e melhor Brasil. Sempre aberto ao processo dialético de ensinar-aprender com as novas gerações. Que circulava pelos espaços coletivos populares como escolas de samba, bailes negros, candomblés, associações culturais negras, para dali estabelecer diálogos e debates sobre as contradições e inequidades sociais brasileiras diretamente dos processos de vivências das populações historicamente marginalizadas.

Nesse contexto, inserindo o direito à memória e as narrativas das populações negras, enquanto legítimos constituintes ao bojo, ao arcabouço historiográfico e das ciências sociais no Brasil.

Autor de uma trajetória e práxis, que contra todas as probabilidades e perspectivas, atravessou o mar tempestuoso das nossas conveniências e alienações acadêmicas, sempre pontuando a necessidade de assumirmos – enquanto sociedade – não apenas a existência do racismo, mas da sua superação de fato. Para isso, tendo a questão racial e o racismo enquanto elementos presentes ao debate político nacional.

Não havendo possibilidade de edificarmos uma sociedade racialmente democrática e socialmente justa e igualitária, sem termos como prisma essa premissa civilizacional. Devendo as esquerdas de fato interpretarem as pautas antirracistas e de negritudes, como elementos interpretativos da realidade social brasileira. Além de uma possibilidade de diálogo direto com as camadas mais populares e socialmente periféricas de nossa população. O que nos revela a riqueza de sua analítica crítica e questionadora, mas ao mesmo tempo nos situa o quanto a realidade do racismo e suas implicações para as populações negras seguem ainda preeminentes e na centralidade de nossas relações sociais autoritárias e discriminatórias de poder.

Particularidade do pensamento mouriano, que o dossiê centenário nos revela em uma diversidade e amplidão, de interpretações e recortes, acerca da sua produção intelectual. Organizada a partir de chamada pública e organizada em onze eixos temáticos, que orientaram a recepção dos trabalhos: trajetória política e intelectual de Clóvis Moura; tradição intelectual afrodiaspórica nas Américas; particularidade da formação social brasileira; movimentos negros e lutas sociais; revolução brasileira; historiografia e memória social; pensamento social brasileiro; debate sobre a questão social; Moura e os diferentes marxismos; crítica à sociologia academicista; cultura e linguagem. Um diálogo interdisciplinar, desde as áreas da História e Sociologia, passando por Geografia, Direito, Economia, Psicologia, Relações Internacionais e Serviço Social, ao qual orna um mosaico, que bem exemplifica a influência desta obra ao atual cenário intelectual e político. Um fenômeno de alteridade em relação a produção dos discursos e das narrativas acadêmicas, que se origina pelas novas gerações de intelectuais, pesquisadores e militantes negros que se inserem ao universo universitário nacional, a partir de meados dos anos 2000, ao qual o resgate e [re]valorização da obra e trajetória de Clóvis Moura é um de seus exemplos mais significativos. Na perspectiva de reconhecimento da densidade crítica inovadora, radical e conceitualmente revolucionária dessa obra.

Obra tão divergente e dissidente em relação aos seus pares geracionais, que por isso acabou invisibilizada e negligenciada em suas potências analíticas. Tornando Moura um mal dito por tantos e maldito por outros quantos. Intelectual militante de práxis pública, que se viria resgato e legitimado enquanto pensador social a partir dos denominados novos movimentos negros constituídos no Brasil em meados dos anos 1970. E que hoje se revela senhor de um arcabouço seminal para se interpretar e reimaginar o Brasil para além das conciliações pacificadoras ou das normatividades conservadoras modernizantes, que – aparentemente – tudo mudam, para ao final tudo continuar estruturalmente como sempre foi. Nesse processo compreendendo que marxismo e negritude, marxismo e antirracismo, embora possuam diferentes abordagens teóricas e políticas, não são excludentes ou contraditórios. E nem se anulam mutuamente. Pois acabam por fornecer conjuntamente, uma maior abrangência analítica e de crítica. O que se revela fundamental para se compreender e problematizar uma sociedade tão complexa e contraditória em suas relações sociais e de poder, como a brasileira.

Uma obra radical que por seus méritos, se faz atual, contemporânea e necessária. Em especial diante do recrudescimento civilizatório neofascista que se torna cada vez mais presente e comum aos cotidianos de nossa sociedade. Um conjunto teórico de um autor que nunca se furtou aos desafios de se buscar descortinar e interpretar as potências, as contradições, os amiúdes e os segredos dessa grande esfinge devoradora de corpos e almas, chamado Brasil.

Ontem, hoje e sempre, VIVA ao incontornável, e mais vivo do que nunca, Clóvis Moura!

Referência Bibliográfica:

Caderno Cemarx – Volume 19, 2025. [Dossiê 100 Anos de Clóvis Moura]. In: https://econtents.sbu.unicamp.br/inpec/index.php/cemarx/issue/view/1114

_________________ 

*Christian Ribeiro é Professor Titular da SEDUC-SP e membro do grupo de pesquisa “Pensamento social: contextos, instituições, intelectuais e movimentos” do IFCH/UNICAMP.

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