Dois minutos de ódio branco

Foto de Christiana Carvalho
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Por THIAGO BLOSS DE ARAÚJO*

O atual Big Brother da Rede Globo não apenas se assemelha àquele de George Orwell pelo nome, como também por operar o mesmo mecanismo de manipulação

Se há uma proeza do programa Big Brother Brasil, certamente é a de ter aglutinado o discurso progressista e coletivo da militância, com o discurso conservador e individualista do liberalismo. O resultado desta falsa síntese foi o então “militante neoliberal empresário de si”, que se utiliza de discursos emancipatórios para fins pessoais, competitivos.

Frente às diárias notícias absurdas que caracterizam a política brasileira sob o bolsonarismo, essa forma estranha do “militante empresário de si” forjado pela indústria cultural seria desprezível, caso seus principais representantes não fizessem parte dos segmentos mais espoliados socialmente: negro e LGBTQIA+.

Não sem razão, o público rejeita o uso enviesado do discurso crítico militante que visa justificar a violência e a humilhação que ali se naturalizam. Entretanto, essa rejeição à postura moral dos participantes se converteu em ódio administrado, cujos alvos são justamente negros e negras.

No famoso romance distópico1984, George Orwell descreve uma curiosa prática realizada pelo Estado totalitário de Oceania sobre seus habitantes, cujo nome era bem sugestivo: “Dois Minutos de Ódio”. Todos os dias se projetava em uma tela a imagem de Emmanuel Goldstein, que era um inimigo do Estado, defensor da libertação do povo e da derrubada daquele regime totalitário organizado pelo Big Brother (Grande Irmão). A reação era imediata: a população dirigia todo o ódio oriundo de seu mal-estar à figura do revolucionário na tela, fazendo caretas, gestos de reprovação e sons intimidadores.

Tratava-se de uma falsa catarse administrada diariamente, cujo objetivo era de mantê-los ainda mais vinculados à reprodução social. Nada muito distante daquilo que Theodor Adorno apontou como a lógica da propaganda nazista: realizar uma psicanálise às avessas, ou seja, impedir que os conteúdos irracionais do inconsciente se tornassem conscientes, racionalizáveis, o que criava condições subjetivas propícias à ação da ideologia massificadora.

Pois bem, o atual Big Brother da Rede Globo não apenas se assemelha àquele de Orwell pelo nome, como também por operar o mesmo mecanismo de manipulação. Ao mesmo tempo em que gerencia os personagens do programa, que foram escolhidos a dedo, também forja os seus espectadores. O ódio aos participantes negros – em sua maioria defensores de uma sociedade antirracista e antimachista – cumpre uma função política específica: contribui para a formação de uma opinião pública ainda mais avessa ao discurso militante e engajado, apesar da explícita compaixão com o participante Lucas, o qual foi vítima de violência racista espetacularizada pela produção do reality show.

Soma-se a isso outra questão explorada incansavelmente: a de que negros também reproduzem o racismo. Aparentemente, a audiência do BBB descobriu apenas em 2021 que os segmentos oprimidos também reproduzem os valores e os comportamentos de seus opressores. Em linguagem lacaniana, parece que só agora perceberam que negros também são sujeitos faltantes, como qualquer outro sujeito divido da sociedade capitalista.

No último país do Ocidente a sair da escravidão, cujas estruturas patriarcais, escravocratas e coloniais pouco se alteraram desde 1888, é um fenômeno social infelizmente esperado que a consciência de qualquer cidadão se forme segundo as premissas do machismo e do racismo. Isso, aliás, é a essência da violência simbólica. Entretanto, o fato de negros reproduzirem o comportamento racista e mulheres o comportamento machista, em nada muda a estrutura do racismo e do patriarcado lapidada pelo homem branco.

Esse ponto é fundamental, pois o que ocorre no Big Brother tem se capilarizado socialmente, manifestando-se inclusive na política institucional. Dentre essas manifestações, um tanto bizarras, está a apresentação de notícia-crime na Decradi (Delegacia de Combate a Crimes Raciais e Delitos de Intolerância), assim como um ofício ao Ministério Público, contra uma das participantes negras do reality (Lumena) por “racismo reverso”. “Lumena”, por sinal, tornou-se o novo significante para nomear os considerados “militantes chatos” da internet.

Igualmente bizarra foram as comparações realizadas pela audiência nas redes sociais. Negro Di foi “eliminado” com o segundo maior nível de rejeição da história do programa (98,76%), justamente no mesmo dia da prisão do deputado bolsonarista Daniel Silveira, que ficou famoso por quebrar uma placa com o nome de Marielle Franco. Resultado: muitos compararam o participante negro com o deputado branco racista. Ambos foram “cancelados” no mesmo dia.

Tão violenta quanto foi a comparação de Karol Conká, participante “eliminada” com a maior rejeição da história do programa (99,17%) com Jair Bolsonaro, por conta de seu comportamento autoritário na competição. Sua saída do reality gerou uma mobilização dos espectadores, que celebraram com fogos de artifício, xingamentos nas varandas e aglomerações em locais públicos.

Não por acaso, esses dois minutos de ódio administrados diariamente sobre figuras negras ocorreram na semana em que Bolsonaro assinou quatro decretos que flexibilizam o uso e a compra de armas de fogo. Sabe-se, a partir de dados concretos, que tal flexibilização implicará no aumento de homicídios e suicídios, cujas principais vítimas são, exatamente, as populações negra e periférica. Essa população será também a mais impactada com a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) apresentada pelo presidente na semana passada, que prevê o fim do gasto obrigatório em áreas essenciais como saúde e educação públicas.

É por essas e outras razões que não se torna uma futilidade refletir sobre o discurso produzido e os afetos mobilizados pelo Big Brother Brasil, sobretudo, por ser a temporada com a maior audiência dos últimos oito anos e por suas figuras de ódio coletivo serem, em sua maioria, negras.

A despeito do comportamento moral de algumas delas – que foram efetivamente violentas nesse reality show competitivo que sempre explorou a violência alheia – cabe questionarmos de onde vem esse afeto mobilizado dia a dia sobre figuras negras selecionadas. Que ódio é esse? Que função cumpre a satisfação oriunda desse ódio dirigido à Karol Conká, Negro Di, Lumena e Projota?

Esses quatro participantes compõem aquilo que o público nomeou como o “gabinete do ódio” do BBB21, cuja líder foi Karol Conká. Com efeito, alguns setores, ingenuamente, insinuaram que o ódio massivamente organizado à cantora poderia ser canalizado para as eleições de 2022, visando a derrubada do autoritarismo no Brasil. Outros, entenderam como saudável a “catarse” dirigida à participante, ou seja, um processo coletivo de “purificação da alma” tal como ocorria nos teatros da Grécia Antiga.

Entretanto, esses setores se esqueceram de um detalhe: diferentemente da espontaneidade política das massas ou da catarse sobre uma obra de arte dramática, todo o afeto em jogo nesse caso foi mobilizado por um programa da indústria cultural, cuja fim último, o lucro, em nenhum momento é escamoteado por seus produtores. Inclusive, corre-se o risco de o efeito dessa falsa catarse ser exatamente o oposto do que se deseja, precisamente por ter sido uma expressão típica da projeção paranoica conduzida pelo programa. O que se explicitou com a “eliminação” daquelas duas figuras negras da competição não foi uma reflexão sobre o autoritarismo, mas sim como direcionamos o nosso ódio sobre figuras pelas quais nos identificamos. A audiência comemorou o fim do autoritarismo de Karol Conká sendo tão autoritária quanto. Aliás, o filho da cantora, de 15 anos, sofreu ameaças de morte. Esse é o efeito de gado.

Enfim, os “dois minutos de ódio ao negro” diariamente administrados pelo Big Brother Brasil – cuja satisfação é compartilhada inclusive por grupos progressistas – nos empurra para uma espécie de comportamento de algoritmo, que de forma alienada e compulsiva associa a imagem negra ao “deslike”, ao “cancelamento”. Se há algum tipo de afeto associado ao algoritmo das redes sociais, que condiciona aquilo que vemos e o que deixamos de ver, certamente é o ódio branco. Nesse sentido, talvez a questão capciosa induzida pelo BBB21 à sua audiência seja: que tipo de solidariedade deverei ter com a pauta antirracista – e com a população vítima do racismo estrutural – se os próprios negros são racistas e autoritários? Talvez sejam esses alguns afetos geridos no perigoso discurso da branquitude inculcado pelo reality show.

*Thiago Bloss de Araújo é mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).

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