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Lázaro, o lazarento

Rosto de Senwosret III, ca. 1878-1840 ac
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Por THIAGO BLOSS DE ARAÚJO*

O espetáculo midiático em torno de sua caçada e de sua morte revela a sua origem: a identificação. Uma identificação que é insuportável

Nas últimas semanas o Brasil foi afligido por um serial killer, que ao calar da noite se movia sorrateiramente, destruía famílias e ameaçava a ordem. Ele causou medo, ao espalhar a morte entre a comunidade pacífica.

Esse serial killer sou eu, você, seu vizinho, alguns jogadores de futebol e o presidente da República. São todos aqueles que, ao calar da noite, foram encontrados em festas clandestinas ou, em plena luz do dia, aglomeravam de forma desnecessária em plena pandemia. Foram todos aqueles responsáveis por espalhar um vírus de forma sorrateira, irresponsável, contribuindo com as mais de 500 mil mortes por covid-19. Todos nós, sem exceção, acordamos um dia com a triste notícia do falecimento de alguém querido no dia anterior.

Lázaro é um sujeito que enraíza um adjetivo, “larazento”, cujo significado no dicionário, dentre tantos, é “insuportável”. O espetáculo midiático em torno de sua caçada e de sua morte – que envolveu quase três centenas de policiais – revela a sua origem: a identificação. Uma identificação que é insuportável.

O tal serial killer do Distrito Federal, cujo extermínio foi desejado por todo o país, representa o infamiliar, aquilo que para Freud nos é extremamente estranho, distante, insuportável e, ao mesmo tempo, próximo e familiar. Em seus atos brutais, repetidamente explorados pelos veículos de comunicação, ele dá contornos à nossa própria brutalidade.

Imagine se Lázaro não fosse assassinado e, logo após a sua prisão, concedesse uma entrevista ao Fantástico. Imagine se ele dissesse, em rede nacional, que o certo “era metralhar a população de Goiás”, que “não estuprou uma mulher porque ela não merecia”, que não liga para as pessoas que matou, pois “não é coveiro” ou que se pudesse “teria matado 30 mil pessoas”, coisa que a ditadura militar não fez. Certamente nos teria causado ojeriza. Uma ojeriza pela identificação.

A construção midiática de um serial killer cumpre uma função social específica, ao personificar o mal-estar que atualmente nos é tão normal, familiar e insuportável. A cobertura televisiva de um corpo alvejado por 40 tiros, sendo escorraçado em uma ambulância tal como um objeto descartável, encena como algo distante e alheio as tantas mortes evitáveis que foram enterradas às pressas em valas comuns, como objetos perigosos, da qual somos responsáveis direta ou indiretamente. Por outro lado, aquela cena nos lembra aquilo que podemos nos tornar (ou já nos tornamos): descartáveis.

Deste modo, a morte de Lázaro, o lazarento, o insuportável, trouxe-nos uma segurança denegada, por dar contornos pessoais de raça, classe e regionalidade à nossa violência social difusa e familiar, jogando-a para um lugar distante, no meio do mato de Goiás, na infamiliaridade de uma figura imaginária produzida pela indústria cultural. Com o desfecho de sua morte, até nos esquecemos que existe pandemia no país, que temos um presidente genocida e que Lázaro servia aos interesses do poder econômico dos latifundiários do Centro-Oeste, todos responsáveis por mortes silenciadas no país.

Por isso, não é de se estranhar que mal os rojões silenciaram e muitos já esqueceram o motivo da comemoração.

*Thiago Bloss de Araújo é doutorando na Escola de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da UNIFESP.

 

 

 

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