Antero Greco (1956-2024)

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Por ERIK CHICONELLI GOMES*

Antero nos deixou um exemplo claro de como a prática jornalística pode e deve estar alinhada com os valores de justiça social e compromisso democrático

Antero Greco, um dos grandes nomes do jornalismo esportivo brasileiro, nos deixou recentemente, vítima de um câncer. Em sua trajetória, Antero Greco não apenas cobriu eventos esportivos com uma competência inquestionável, mas também trouxe para o jornalismo uma consciência histórica e sociológica rara em sua área. Este texto busca homenagear seu legado, ressaltando sua importância não apenas como jornalista, mas como intelectual comprometido com as lutas democráticas.

Antero Greco iniciou sua carreira jornalística em um momento conturbado da história brasileira, durante os anos de ditadura militar. Seu trabalho sempre foi pautado pela busca incessante pela verdade e pela justiça, qualidades que o tornaram uma referência não só no jornalismo esportivo, mas também no jornalismo como um todo. Antero Greco era conhecido por sua capacidade de contextualizar eventos esportivos dentro de uma narrativa maior, reconhecendo e expondo as relações intrínsecas entre esporte, política e sociedade.

Em seus textos e comentários, Antero Greco frequentemente abordava temas como racismo, desigualdade social e a luta pela democracia. Ele compreendia que o esporte não está isolado das dinâmicas sociais e econômicas que moldam a realidade. Suas análises iam além das quatro linhas do campo, envolvendo discussões sobre os impactos sociais dos grandes eventos esportivos e as políticas públicas relacionadas ao esporte. Essa abordagem crítica e engajada fez com que ele se destacasse em um meio muitas vezes dominado por análises superficiais e despolitizadas.

Antero Greco trabalhou por muitos anos no jornal O Estado de S. Paulo e na ESPN Brasil, onde se consolidou como um dos principais nomes do jornalismo esportivo. Sua relação com outras personalidades críticas do jornalismo, como José Trajano e Juca Kfouri, foi marcada por uma parceria que transcendeu o âmbito profissional, unidos por uma visão de mundo que sempre privilegiou a justiça social e a defesa da democracia. Esses laços fortaleciam suas vozes em um cenário muitas vezes adverso.

Sua paixão pela Itália, país de origem de sua família, era notável e influenciou muitos aspectos de sua vida pessoal e profissional. Antero não só era um grande conhecedor da cultura e do futebol italiano, mas também mantinha uma vasta biblioteca de livros, refletindo seu amor pela leitura e pelo conhecimento. Essa erudição transparecia em seus textos, onde frequentemente citava obras e autores relevantes, oferecendo uma profundidade rara em suas análises.

Antero Greco também foi um defensor fervoroso das lutas democráticas no Brasil. Ele não se furtava a criticar arbitrariedades e abusos de poder, seja no campo esportivo ou na esfera política mais ampla. Sua postura firme e ética serviu de inspiração para muitos jovens jornalistas, que viam nele um exemplo a ser seguido. Sua voz se destacou em momentos cruciais da história recente do país, sempre em defesa da liberdade de expressão e dos direitos humanos.

Infelizmente, a batalha contra o câncer nos privou precocemente de um jornalista que ainda tinha muito a contribuir. No entanto, o legado de Antero Greco permanece vivo. Seu trabalho continua a influenciar e inspirar aqueles que acreditam que o jornalismo tem um papel fundamental na construção de uma sociedade mais justa e igualitária. Antero Greco nos deixou um exemplo claro de como a prática jornalística pode e deve estar alinhada com os valores de justiça social e compromisso democrático.

A morte de Antero Greco é uma perda imensa para o jornalismo brasileiro e para todos aqueles que acreditam no poder transformador da informação. Seu legado, entretanto, continua vivo, nos lembrando diariamente da importância de um jornalismo comprometido com a verdade, a justiça e a democracia. Que sua memória nos inspire a continuar lutando por um mundo melhor, onde a informação seja um instrumento de transformação social.

*Erik Chiconelli Gomes é pós-doutorando na Faculdade de Direito na USP.


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