As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

No Big Brother Brasil

Foto de Christiana Carvalho
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por THIAGO BLOSS DE ARAÚJO*

Comportamento suicida e o destino do sofrimento ético-político

A atual temporada do Big Brother Brasil é a que mais capilarizou, entre a população em geral, as polêmicas e controvérsias que costumeiramente caracterizam o programa, chegando inclusive ao conhecimento de pessoas que pouco sabem sobre sua existência. Infelizmente, não é novidade a espetacularização da violência e da tortura promovidas por esse reality show. Entretanto, pela primeira vez um participante (Lucas), após sofrer com recorrentes formas de humilhação, decidiu abandonar o programa.

Lucas, um jovem negro, pobre e bissexual, tragicamente faz parte dos segmentos que mais sofrem violência e também mais se matam no Brasil, a saber: a população pobre, não branca e LGBTQIA+. Estes segmentos, estruturalmente espoliados, revelam a correlação evidente entre violência (física ou simbólica) e o comportamento suicida.

Apesar de o Big Brother ser um dos tantos programas constituídos através da mentira planejada e administrada da indústria cultural, é inegável que ele reproduz (em partes) a dinâmica social. Um ambiente composto por um grupo de indivíduos em isolamento, em concorrência direta, constantemente vigiados, despojados de espontaneidade e forçados ao individualismo extremo visando à sobrevivência na competição, assemelha-se (e muito!) ao atual estágio do capitalismo de vigilância pandêmico, cuja base essencial é composta por trabalhadores precarizados de aplicativo.

Nesse sentido, o programa também reproduz inevitavelmente a violência social do racismo, da homotransfobia e da aporofobia, que atravessa a formação subjetiva de todos em maior ou menor grau. Lucas, que se mostrou frágil desde o início, tornou-se alvo da hierarquia que ali se formou, sofrendo intensa perseguição e humilhação televisionada. O ápice desta violência irracional, que culminou em sua desistência, se deu logo após expressar a espontaneidade de seu desejo, em que protagonizou, junto com Gilberto, o primeiro beijo entre homens da história do programa. Esta rara expressão livre do desejo, foi imediatamente punida, invalidada, silenciada.

Com efeito, em um programa de televisão, artificial em sua base, há ainda a escolha de pedir “demissão”. E na realidade concreta? Lucas, em sua desistência, encenou espetacularmente “a saída” encontrada pela população não branca, pobre, periférica, LGBTQIA+ violentada dentro de uma sociedade burguesa branca heterocisnormativa: o suicídio.

Seu sofrimento é resultado de relações de poder, portanto, é um sofrimento essencialmente político. Apesar de se expressar no indivíduo, trata-se de um sofrimento que é particular e, ao mesmo tempo, universal. Ele revela o sofrimento psíquico do indivíduo, dos seus semelhantes e de todas as gerações que o antecederam, oprimidas por conta da raça, da classe e da orientação sexual há séculos. Ao mesmo tempo em que é presente, esse sofrimento ético-político exprime uma longa história de violência e dominação, o que torna o suicídio daquela população algo um tanto ambíguo, pois muito mais próximo de um homicídio. Nesse sentido, o programa repete a realidade social: impede que Lucas possa ser e existir tal como deseja ser e existir.

Que a sua saída inesperada, após sucessivos episódios de tortura espetacularmente exploradas pelo reality show, revele o quanto o sofrimento mental não se reduz a mero fenômeno individual, ou seja, não se trata de mera expressão da incapacidade interna de o indivíduo se adaptar às relações com o outro e com o mundo; muito menos o resultado de uma “falta de resiliência”, palavra aliás muito em moda no atual estágio pandêmico do capitalismo.

Pelo contrário, esse sofrimento não é resultado de uma falta de adaptação, mas sim de um excesso de adaptação do indivíduo às relações de poder, materialmente e historicamente constituídas, que o atravessam desde o nascimento e que o mutilam em suas cifras de liberdade, em sua espontaneidade, em seu desejo. Negação da subjetividade e desistência da vida, violência e suicídio, são fenômenos inseparáveis na realidade brasileira. Trata-se de um dos destinos do sofrimento ético-político.

Por fim, àqueles que defendem com unhas e dentes o poder de superação do indivíduo, eu pergunto: depois de toda tortura transmitida ao vivo, você se atreveria a dizer que Lucas saiu do Big Brother Brasil devido a sua falta de resiliência?

*Thiago Bloss de Araújo é mestre em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo (USP).

 

 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Vanderlei Tenório José Raimundo Trindade Eduardo Borges Rodrigo de Faria Flávio Aguiar Celso Favaretto Liszt Vieira Armando Boito Tarso Genro Luís Fernando Vitagliano Berenice Bento Otaviano Helene Alexandre de Freitas Barbosa Remy José Fontana João Adolfo Hansen Paulo Martins Luiz Marques Dennis Oliveira Leonardo Avritzer Denilson Cordeiro Igor Felippe Santos Marcos Silva Leonardo Sacramento Gerson Almeida Paulo Capel Narvai Fernão Pessoa Ramos Érico Andrade Caio Bugiato Luiz Carlos Bresser-Pereira Rafael R. Ioris Bento Prado Jr. Mariarosaria Fabris Slavoj Žižek Thomas Piketty Fernando Nogueira da Costa Plínio de Arruda Sampaio Jr. Ricardo Abramovay Ronald León Núñez Elias Jabbour Eugênio Bucci Marcus Ianoni Leonardo Boff João Feres Júnior Manchetômetro Claudio Katz Salem Nasser Antônio Sales Rios Neto Yuri Martins-Fontes Francisco de Oliveira Barros Júnior Henri Acselrad Samuel Kilsztajn Luiz Bernardo Pericás Ari Marcelo Solon Chico Whitaker Lucas Fiaschetti Estevez Carlos Tautz João Sette Whitaker Ferreira Daniel Afonso da Silva Milton Pinheiro Ronaldo Tadeu de Souza Jorge Branco Anderson Alves Esteves Afrânio Catani Bernardo Ricupero Lincoln Secco Chico Alencar Walnice Nogueira Galvão Jorge Luiz Souto Maior Renato Dagnino Luiz Eduardo Soares Fábio Konder Comparato José Micaelson Lacerda Morais Dênis de Moraes Alexandre de Lima Castro Tranjan Airton Paschoa Marilena Chauí Luciano Nascimento Benicio Viero Schmidt Luiz Werneck Vianna João Carlos Salles Boaventura de Sousa Santos Eleutério F. S. Prado Ronald Rocha Luis Felipe Miguel Jean Pierre Chauvin José Costa Júnior Eliziário Andrade Henry Burnett Sandra Bitencourt Gilberto Maringoni Alysson Leandro Mascaro Michael Roberts Daniel Costa Priscila Figueiredo Luiz Renato Martins Ladislau Dowbor Celso Frederico Valério Arcary Vinício Carrilho Martinez Flávio R. Kothe Rubens Pinto Lyra Andrew Korybko Eleonora Albano Marjorie C. Marona Atilio A. Boron Michael Löwy Everaldo de Oliveira Andrade Marcelo Guimarães Lima Mário Maestri Kátia Gerab Baggio Sergio Amadeu da Silveira João Lanari Bo Eugênio Trivinho Ricardo Fabbrini Alexandre Aragão de Albuquerque Antonio Martins Maria Rita Kehl Luiz Roberto Alves Roberto Bueno Tadeu Valadares Vladimir Safatle Lorenzo Vitral José Dirceu José Luís Fiori Julian Rodrigues Antonino Infranca Roberto Noritomi Tales Ab'Sáber Bruno Fabricio Alcebino da Silva Ricardo Musse Francisco Pereira de Farias José Geraldo Couto Daniel Brazil Anselm Jappe Manuel Domingos Neto Bruno Machado Gabriel Cohn Paulo Fernandes Silveira Marcos Aurélio da Silva Jean Marc Von Der Weid João Carlos Loebens Gilberto Lopes Heraldo Campos Osvaldo Coggiola Juarez Guimarães Luiz Costa Lima João Paulo Ayub Fonseca Valerio Arcary Marcelo Módolo Ricardo Antunes Carla Teixeira Francisco Fernandes Ladeira Marilia Pacheco Fiorillo Leda Maria Paulani André Singer André Márcio Neves Soares José Machado Moita Neto Annateresa Fabris Paulo Sérgio Pinheiro Paulo Nogueira Batista Jr

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada