Getúlio, Jango e Lula

Clara Figueiredo, sem título, ensaio Filmes Vencidos Fotografia analógica, digitalizada, Florianópolis, 2017
image_pdf

Por MARIA RITA LOUREIRO*

As elites do atraso sempre reagiram de forma violenta contra todos os que tentaram romper com as mazelas nacionais

Mesmo sabendo que a história não se repete de forma sempre igual, é preciso retomar o passado para melhor compreender os impasses do presente e as resistências que impedem o nascimento de um novo tempo.

Na triste história brasileira, as elites do atraso sempre reagiram de forma  violenta contra todos os que tentaram romper com as mazelas nacionais, mesmo que de forma moderada. Líderes e partidos que apoiaram ou lutaram com os trabalhadores, constituindo-os como atores políticos, que ousaram construir um país menos injusto e economicamente soberano, são sempre intoleráveis para os conservadores de hoje como para os do passado. Em uma sociedade em que a escravidão  continua presente na mente das classes dominantes e de grande parte das classes médias, em que a indiferença à desigualdade é a marca de seus sentimentos, em que a participação política dos trabalhadores não é entendida como direito, e sim como mais um dos muitos privilégios dos quais as oligarquias não abrem mão, o passado insiste poderosamente em sobreviver.

Garantir direitos trabalhistas, mesmo que de forma controlada, dobrar o valor do salário-mínimo como Getúlio fez no longínquo 1º. de maio de 1954, apoiar a luta por reforma agrária e a distribuição de terra para os que nela trabalhavam, como Jango tentou fazerem seu governo, acabar com  a fome, reduzir a pobreza, incluir pobres e negros no ensino superior, que Lula e Dilma conseguiram tornar realidade, realizando políticas minimamente necessárias que tornam civilizado um país, são aqui intoleradas pelos reacionários. Estes sempre reagem e buscam a todo custo impedir que elas se efetivem. Mesmo que para isso, tenham que transformar seus defensores em figuras a serem destruídas e retiradas da cena política: Da tragédia à farsa, levaram Getúlio ao suicídio, Jango ao exílio,  Dilma ao impeachment e Lula à prisão.

Nunca é demais lembrar que em 1950, quando Getúlio começava a se preparar para voltar ao poder por meios eleitorais, Carlos Lacerda, um dos mais conhecidos porta-voz dos reacionários da época, declarou na imprensa: “Getúlio não pode se candidatar, se candidatar não pode ser eleito, se eleito, não pode tomar posse, se tomar posse, não pode governar”. Com isso, ele delineou o itinerário da reação política que golpearia a democracia brasileira, não só contra aquele presidente, mas contra todos os líderes populares (retoricamente desqualificados de populistas) que ousassem alterar a ordem estabelecida.   Acirrando a crise que levaria Getúlio ao suicídio, seus opositores bradavam contra a corrupção e o “mar de lama” no palácio do Catete, assim como os opositores de Jango, preparando o golpe civil e militar de 1964, também gritavam contra a “república sindicalista” e a “ameaça comunista” que supostamente aquele governante representava.

Hoje, a retórica intransigente dos conservadores acrescenta outro chavão, mais compatível com os tempos neoliberais: “ Lula é um risco à economia”.

Diante desta história que não cessa de se repetir, cabe a nós – os que compartilham o projeto de construção de outra realidade para nosso povo e nosso país – iluminar a luta política  do presente com os ensinamentos do passado. Com a esperança de que o futuro não nos traga, como até agora, só tragédia e farsa. E, quem sabe, uma ampla aliança democrática possa se concretizar para  vencer a barbárie.

*Maria Rita Loureiro, socióloga, é professora aposentada da FEA-USP e da FGV-SP.

 

 

 

 

 

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
3
Daniel Vorcaro e o "novo capitalismo" brasileiro
10 Mar 2026 Por JALDES MENESES: O novo capitalismo brasileiro forja um Estado Predador onde o rentismo digital, o crime organizado e a política se fundem numa aliança que corrói o pacto de 1988
4
No radar geopolítico – EUA x Irã
14 Mar 2026 Por RUBEN BAUER NAVEIRA: O que o Irã pretende é forçar os americanos a pedirem por negociações que não serão por algum "cessar-fogo", mas que envolverão concessões dolorosas, como o fim de todas as sanções e o desmantelamento das bases militares americanas no Oriente Médio
5
Hamnet – a vida antes de Hamlet
11 Feb 2026 Por GUILHERME E. MEYER: Comentário sobre o filme de Chloé Zhao, em cartaz nos cinemas
6
O coturno no pátio
09 Mar 2026 Por JOSÉ CASTILHO MARQUES NETO: O silêncio imposto pelo coturno nos pátios escolares não educa, apenas endurece o solo onde a liberdade e o pensamento crítico deveriam florescer
7
Uma batalha depois da outra
11 Mar 2026 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Considerações sobre o filme de Paul Thomas Anderson, em exibição nos cinemas
8
Contraste entre lulismos
12 Mar 2026 Por FERNANDO NOGUEIRA DA COSTA: O ponto cego atual da esquerda é ela ganhar no PIB, ganhar no emprego, ganhar na redução da pobreza, mas perder na pergunta fundamental: “para onde estamos indo?”
9
Um país (des)governado
13 Mar 2026 Por PAULO GHIRALDELLI: A guerra no Irã não é imperialismo, é o espasmo de um país sem projeto, governado por um homem que trocou promessas por bombas
10
Linguagem inclusiva
12 Mar 2026 Por BEATRIZ DARUJ GIL & MARCELO MÓDOLO: Mais sintaxe, menos torcida: permitir não é prescrever, inovar não é normatizar
11
Nota sobre a capacidade estatística do PIB
09 Mar 2026 Por MARCIO POCHMANN: O PIB, bússola do século XX, já não captura sozinho a complexidade da economia financeirizada, digital, do cuidado e ambiental
12
A imprensa como ideologia
11 Mar 2026 Por LUIZ MARQUES: A neutralidade da imprensa é a mais eficaz das ideologias: faz o golpe parecer democracia e o genocídio, conflito
13
Marx e Engels – Entrevistas
08 Mar 2026 Por MURILLO VAN DER LAAN: Apresentação do livro recém-editado
14
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
15
O comunismo como festa
11 Mar 2026 Por FELIPE MELONIO: O comunismo como festa não é metáfora, mas a afirmação de que a vida em comum só vale quando transborda os enquadramentos do poder
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES