As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Por que chamar de fascismo importa

Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por SCOTT GILBERT*

Mais especialistas estão, agora, debatendo se Trump é um fascista, se o que estamos assistindo agora é fascismo, se é, de fato, o momento de usar a palavra com inicial F

Eu só fui saber que minha mãe e Anne Frank eram colegas de infância quando eu trouxe para casa o Diário de Anne Frank, na sétima série. Naquele dia, minha mãe me mostrou uma foto de sua infância com ela, sua prima Ellen, e Anne e Margot Frank.

Foi um raro vislumbre do passado de minha mãe. Ela nunca conversou sobre crescer na Alemanha e na Holanda ocupada, sobre a guerra, sobre viver escondida, sobre o Holocausto. Ela recusou-se a falar alemão até conosco, seus dois filhos.

Mais tarde eu descobri que, em 1960, minha mãe tornou-se a primeira pessoa de sua geração a processar o governo Alemão demandando reparações. Seu advogado foi Robert Kempner, que sobreviveu a um campo Nazista e tornou-se conselheiro-chefe assistente dos Estado Unidos durante o Tribunal Militar Internacional em Nuremberg. O julgamento arrastou-se por catorze anos antes do caso ser rejeitado por falta de fundos legais. Apenas depois de sua morte eu pude ler as transcrições descrevendo suas cicatrizes físicas e psicológicas e pude começar a entender por que ela nunca saía de casa, mesmo quando eu ganhava prêmios no colégio.

Alguns argumentaram que o povo Alemão não sabia ou entendia o que acontecia ao seu redor. Pode ser que isso seja verdade, apesar de que os sinais estavam lá desde o princípio. Havia, essencialmente, uma recusa a ver o que acontecia em sua frente, e um fracasso de liderança moral em momentos-chave quando o regime poderia ter sido interrompido. Diferentes facções políticas — comunistas, socialistas, a União Judaica, o movimento trabalhista — falharam em trabalhar de forma conjunta para por fim ao programa nazista de “Tornar a Alemanha Toda Novamente” por mais que todos eles, em certa medida, reconhecessem o perigo. Eles não perceberam que chegaria um momento em que a porta seria violentamente fechada contra qualquer chance de impedi-lo.

Hoje assistimos à mesma espiral de eventos sob o programa “Torne a América Grande Novamente” de Donald Trump — programa de ódio e intolerância, rasgando as normas do estado de direito enquanto crianças como Darlyn Cristabel Cordova-Valle morrem em campos de concentração na fronteira ou enquanto manifestantes são assassinados nas ruas de Kenosha, WI, pela auto-proclamada milícia nacionalista branca. Tudo isso avançou de maneira significativa nos últimos meses: Trump negando a ciência da pandemia enquanto 181.000 pessoas morriam; grupos federais paramilitares sem insígnias perseguindo manifestantes em vans não identificadas, e forças similares se disseminando para outras cidades; manobras para sabotar ou cancelar o núcleo da democracia: as eleições.

Mais especialistas estão, agora, debatendo se Trump é um fascista, se o que estamos assistindo agora é fascismo, se é, de fato, o momento de usar a palavra com inicial F. Especialistas políticos dizem que Trump está performando fascismo, usando táticas fascistas, agindo como um ditador, ou acenando à sua base, mas ainda se recusam a dizer abertamente que Trump é um fascista ou a chamar o regime que ele montou de fascista. Alguns dizem que isso não é fascismo porque ainda temos um Estado bi-partidário; porque a Gestapo não está batendo na porta de todos; porque ainda há algum semblante de liberdade; porque Trump não começou uma nova guerra, apesar de suas ameaças belicosas.

Se esse é o critério para rotular um regime de fascista, então os nazistas também não eram fascistas quando eles chegaram ao poder. Mas eles eram. Você não pode julgar se um regime é fascista por seus retrocessos ou pelo que ele ainda não fez. Você olha para o que Trump fez. Você olha para o que ele disse e promete fazer. Você olha para os objetivos de seu regime e para a direção que ele nos está levando.

Logo antes de sua morte, minha mãe foi entrevistada pela fundação Shoah de Steven Spielberg. Ela descreveu o avanço — uma mudança da lei e um decreto aqui e ali; de repente ela não podia mais ir à sua padaria preferida. Depois, ela assistiu ao diretor de sua escola levar um tiro por recusar-se a hastear a bandeira nazista. Então, chegou o dia em que ela não podia mais ver sua amiga Anne Frank.

Eu penso em minha mãe e em Anne Frank à mesa de jantar, com nossa família, celebrando o sucesso de seus netos se o povo alemão tivesse expulsado os nazistas antes que fosse tarde demais.

Por que é tão importante dizer que é fascismo? Porque se nós, enquanto povo, reconhecermos abertamente a terrível verdade, nós então poderemos começar a agir para impedir que esse regime fascista assuma seu poder antes que seja tarde demais. Se o povo alemão tivesse sabido o que sabemos, e tivesse tido a chance de remover Hitler e o partido nazista com protestos firmes e não-violentos, eles não deveriam tê-la aproveitado? Eles não deveriam ter se recusado a aceitar o que já estava acontecendo?

Essa é a questão à qual nos confrontamos agora. Se não somos capazes de assumir a verdade, esse não é um debate mas um chamado ao delírio em massa. Quantas Anne Frank ou Darlyn Cristabel Cordova-Valles ou Joseph Rosenbaums estaremos permitindo, quantas vidas estaremos sacrificando, se não rompermos com a ilusão imediatamente?

*Scott Gilbert é médico e ativista da organização RefuseFascism.org.

Tradução: Daniel Pavan

Publicado originalmente no portal CounterPunch.

 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Mariarosaria Fabris Leonardo Boff Eugênio Bucci João Sette Whitaker Ferreira Luiz Costa Lima Luiz Marques José Machado Moita Neto Renato Dagnino Fernando Nogueira da Costa Roberto Noritomi Paulo Martins Anselm Jappe Gilberto Lopes Flávio R. Kothe Kátia Gerab Baggio Antônio Sales Rios Neto José Costa Júnior Fernão Pessoa Ramos Eugênio Trivinho Salem Nasser Andrew Korybko Paulo Nogueira Batista Jr José Luís Fiori Osvaldo Coggiola Luciano Nascimento Daniel Costa Boaventura de Sousa Santos Luis Felipe Miguel Marcelo Guimarães Lima Elias Jabbour Antonino Infranca Juarez Guimarães Lucas Fiaschetti Estevez Chico Alencar Ladislau Dowbor Claudio Katz Otaviano Helene Carlos Tautz Samuel Kilsztajn Eleonora Albano Denilson Cordeiro Vladimir Safatle Gabriel Cohn Érico Andrade Daniel Afonso da Silva Celso Frederico Igor Felippe Santos Airton Paschoa Alysson Leandro Mascaro Luiz Werneck Vianna Eleutério F. S. Prado Leda Maria Paulani João Adolfo Hansen Ronald León Núñez Dennis Oliveira André Márcio Neves Soares Ronaldo Tadeu de Souza Tales Ab'Sáber Liszt Vieira Paulo Capel Narvai Rafael R. Ioris Antonio Martins Alexandre Aragão de Albuquerque Sandra Bitencourt Marcelo Módolo Valerio Arcary Armando Boito Luiz Eduardo Soares Ricardo Musse Luiz Carlos Bresser-Pereira João Paulo Ayub Fonseca Slavoj Žižek Bento Prado Jr. Gilberto Maringoni João Carlos Salles Valério Arcary Marilena Chauí Francisco Fernandes Ladeira José Geraldo Couto Luiz Roberto Alves Sergio Amadeu da Silveira Eliziário Andrade Anderson Alves Esteves Fábio Konder Comparato Manuel Domingos Neto Bruno Fabricio Alcebino da Silva Gerson Almeida Jean Marc Von Der Weid Bernardo Ricupero Priscila Figueiredo Leonardo Avritzer Henri Acselrad Francisco Pereira de Farias Vinício Carrilho Martinez Ronald Rocha Leonardo Sacramento Dênis de Moraes Carla Teixeira José Micaelson Lacerda Morais Tarso Genro Jorge Luiz Souto Maior Vanderlei Tenório Remy José Fontana Ricardo Fabbrini José Raimundo Trindade João Carlos Loebens Alexandre de Lima Castro Tranjan Luiz Bernardo Pericás Atilio A. Boron Heraldo Campos Roberto Bueno Paulo Fernandes Silveira Thomas Piketty Manchetômetro Chico Whitaker Flávio Aguiar Maria Rita Kehl Lincoln Secco Everaldo de Oliveira Andrade Jorge Branco José Dirceu Marjorie C. Marona Luís Fernando Vitagliano Tadeu Valadares Milton Pinheiro Michael Löwy Jean Pierre Chauvin Ricardo Abramovay Luiz Renato Martins Bruno Machado João Feres Júnior Berenice Bento Benicio Viero Schmidt Lorenzo Vitral Caio Bugiato Walnice Nogueira Galvão Rubens Pinto Lyra Francisco de Oliveira Barros Júnior Marcos Silva Henry Burnett Marilia Pacheco Fiorillo Julian Rodrigues Eduardo Borges Ricardo Antunes Alexandre de Freitas Barbosa André Singer Yuri Martins-Fontes Marcus Ianoni Afrânio Catani Marcos Aurélio da Silva Michael Roberts Celso Favaretto Plínio de Arruda Sampaio Jr. Annateresa Fabris Rodrigo de Faria Ari Marcelo Solon Mário Maestri Paulo Sérgio Pinheiro Daniel Brazil João Lanari Bo

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada