“É do Valentim!”

Lucio Fontana, “Conceito Espacial”, 1968
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Por HAROLDO CERAVOLO SEREZA*

Texto de Valentim Facioli, de 1998, sobre crônica inédita de Machado de Assis

No começo de agosto (provavelmente) de 1998, um fax chegou ao jornal apresentando um possível “furo”. Imail, como brincava Valentim Facioli, ainda era novidade, e muita coisa chegava assim às redações. Mas não era um fax comum: vinha do interior paulista, DDD 18, e anunciava que um texto de Machado de Assis na Gazeta de Notícias havia escapado, até então, do olhar de tantos pesquisadores, passados quase 90 anos da morte do escritor.

Dei uma atenção especial ao caso, maior do que me exigia a função de pauteiro da Ilustrada, o caderno cultural da Folha de S.Paulo, e convenci meu editor à época, Sérgio Dávila, atual diretor de redação da Folha, a seguir adiante com a história. Pautei um jovem redator para apurá-la, entrevistar a pesquisadora e achar alguém do calibre de Roberto Schwarz ou John Gledson, os nomes de machadianos mais ouvidos naqueles tempos, para avalizar a descoberta.

Leonardo Cruz, que atualmente está no jornal O Estado de São Paulo,fez o trabalho e, provavelmente recomendado por Roberto Schwarz, chegou a Valentim Facioli, que eu não sabia quem era. A explicação para o sumiço era boa (a crônica foi publicada numa página diferente), e o “especialista” topou escrever um texto corroborando a descoberta.

Publicamos a história no dia 22 de agosto, numa das edições mais bacanas do meu período na função: uma reportagem, a republicação do texto de Machado (em fonte reduzida, para caber tudo), a explicação do que fora o jornal Gazeta de Notícias no século XIX e o texto “É de Machado! Uma típica ‘bala de estalo’!”

Para sorte da editoria, as eleições de 1998, como as eleições de 1885, ocorreriam num dia 4 (outubro em 1998, janeiro em 1885), o que rendeu uma chamada na primeira página do jornal assinada por Machado de Assis.

Valentim Facioli, que gostava de brincar com coincidências e trocadilhos, notou que a pesquisadora responsável pela descoberta, Daniela Mantarro Callipo, “trabalha em Assis, coincidentemente”: “Isso até cheira a sortilégios do estrambótico bibliômano das Memórias Póstumas, em que fica previsto que, depois de 70 anos de esquecimento, as memórias de Brás Cubas, ‘exemplar único’, seriam reencontradas ‘por acaso, no pardieiro de um alfarrabista’.” O estrambótico deste texto aponta para o “defuntinho”, o livro Um defunto estrambótico, que Valentim publicaria pela Nankin em 2002.

Pouco antes, em 2001, eu encontraria, sem me lembrar do que contei acima, Valentim numa saleta da organização da Semana Euclidiana, em São José do Rio Pardo. Começava ali uma ligação intelectual e afetiva que se encerrou no dia 22 de março de 2024, com a morte do meu orientador de doutorado, aos 82 anos, figura admirada por tantos outros que cruzaram com ele em sua trajetória.

Eu poderia passar horas brincando com as coincidências, que nada tinham de místicas para mim ou para ele, mas que, de alguma forma, também organizam nossas ideias, como sabia muito bem Machado de Assis. A mais impressionante, para mim, é que, em 2019, eu ajudaria Valentim Facioli a editar, também pela Nankin, as Badaladas do Dr. Semana, 1.500 páginas de inéditos em livro de Machado de Assis, publicados originalmente na Revista da Semana com a assinatura-fantasia de Dr. Semana. A recolha, a organização, as notas e a confirmação da autoria foi fruto do trabalho meticuloso de outra pesquisadora de Assis, a professora Sílvia Maria Azevedo. Coube-me ajudar Valentim Facioli a usar o computador para fazer a última revisão, cuidar da diagramação e da orientação para a feitura da capa do livro dos dois tomos do livro.

Relendo, uma semana depois da morte de Valentim Facioli, o texto de 1998 sobre Machado de Assis, percebo como o jeito de ele escrever estava marcado pela alegria de identificar no trabalho em si, de uma pesquisadora que ele não conhecia e que não tinha orientado, a qualidade metodológica que permitia afirmar com tanta certeza que o texto era de Machado – um “jeitão” muito valentinesco, presente em todas as conversas que tivemos, das mais amenas às mais complicadas. Por outro lado, não calcou sua análise na própria trajetória, mas em argumentos de leitura rigorosa do texto e do contexto: assim sempre procedia.

Paro aqui e deixo vocês com Valentim e com Machado.

É de Machado! Uma típica ‘bala de estalo’!
Por VALENTIM FACIOLI

Faltando um mês para os 90 anos da morte do velho Machadão (com perdão da intimidade!), eis que temos uma crônica magnífica recém-exumada da Gazeta de Notícias por Daniela Mantarro Callipo, que trabalha em Assis, coincidentemente.

Isso até cheira a sortilégios do estrambótico bibliômano das Memórias Póstumas, em que fica previsto que, depois de 70 anos de esquecimento, as memórias de Brás Cubas, “exemplar único”, seriam reencontradas “por acaso, no pardieiro de um alfarrabista”.

Em 1991, Haroldo Maranhão descobriu o conto “Terpsícore”, que saíra em 1886 também na Gazeta de Notícias, e o publicou no jornal O Globo, do Rio de Janeiro. Esse conto mereceu uma linda edição em livro pela editora Boitempo, de São Paulo, em 1996, com prefácio de Davi Arrigucci Jr.

A presente crônica, assinada por Lélio, parece ter mesmo escapado das pesquisas anteriores, o que pode ser visto, no retardo de sua circulação, como um “prêmio” para os atuais leitores de Machado de Assis, nestes 90 anos da morte. É um consolo.

Essa crônica guarda enorme semelhança estrutural com a prática machadiana nesse gênero jornalístico, em especial com as outras das “Balas de Estalo” já pacificamente identificadas e republicadas nas obras de Machado de Assis.

O tom do texto é, sem dúvida, de fina ironia, mas não só isso, porque chega à sátira amena, mas decidida; de fato, encontra na palavra de um preto velho e, por suposto, analfabeto (“filósofo sem livros”) a “fórmula prática, tangível, segura, sublime, o fundo dos fundos, a substância das substâncias” para resolver o problema eleitoral “daquele ano de calamidades”, no Império escravocrata.

Parece, contudo, que o mais machadiano dos aspectos estruturais da crônica são os negaceios e artimanhas do narrador. Aí a coisa parece inconfundível. O narrador, evidentemente ficcional, assume uma postura principal, que é a de “conselheiro” de mistura com “médico, sendo também um ilustrado, atento e patriota leitor de jornal, que procura a “paz pública” e quer evitar a “pancadaria eleitoral”. E não se esquece de dialogar com o leitor.

Essa mistura parece formar, em todo caso, um tipo, nem sempre muito diferente, de inúmeros outros tipos de narrador/personagem das “Balas de Estalo”. Parece também que esse tipo de narrador misturado (ou volúvel, na leitura de Roberto Schwarz), não sendo nada confiável, se autojustifica ao mesmo tempo que também se descredencia, na matéria disparatada com que procura o “remédio único e verdadeiro” que oferece aos seus “concidadãos”.

Assim, ele recorre a um pequeno episódio da disputa de fronteira com a Argentina (que, “se é verdadeiro, ignoro”) e dele extrai uma relação maliciosa entre república e império, bem como, por outra analogia, entre “penachos e emolumentos”, relativizando tudo para insinuar que o sr. Fulano e o sr. Sicrano, candidatos, não guardam entre si nenhuma diferença significativa, pois o eleitor pode carregar as bandeiras de ambos, “uma na mão, outra no bolso”.

Enfim, liberais e conservadores seriam, de fato, da “mesma igreja”, como esclarece “atarantado”, mas sibilinamente, o preto velho.

Essa é um aposição muito conhecida (e tematizada) de Machado de Assis, por exemplo em Esaú e Jacó.

Creio que se pode atestar ainda a autoria machadiana do texto (salvo um drible de gênio) pela linguagem elegante, precisa e pela sintaxe entre a vernaculização e certo “abrasileiramento” da colocação pronominal, por exemplo.

Sobressai ainda o uso, que acredito raro, do termo “conseguintemente”, em lugar de consequentemente, que também comparece no derradeiro capítulo das Memórias Póstumas, o celebérrimo “Das Negativas”.

Finalmente, vale assinalar o uso do gancho jornalístico para prender a atenção do leitor, sendo o remédio prometido só revelado ao final. E, ainda, que a reforma eleitoral (ou remédio), tematizada no conto “Sereníssima República”, também mereça outra crônica galhofeira e satírica do mesmo Lélio, no dia 9 de janeiro, logo depois das eleições, bem como inúmeras referências à politicagem cotidiana na maioria das crônicas das Balas de Estalo.

Balas de estalo

Leia a seguir a íntegra da crônica de Machado de Assis, atualizada em sua grafia, publicada sob a autoria de Lélio, na seção “Balas de Estalo”, na página 3 da Gazeta de Notícias de 1º de janeiro de 1885.

Parece que cheira a chamusco. Dizem os papéis avulsos que há receio de pancadaria eleitoral agora no dia 4. Eu, se querem que lhes fale com o coração nas mãos, não creio em tal coisa; mas, a fim de que não se diga que, por negligência, deixei os meus concidadãos sem algumas indicações salutares, vou dar-lhes um remédio que reputo único e verdadeiro.

Hão de lembrar-se que a Gazeta de Notícias transcreveu há dias de uma folha alemã, do rio da Prata, a carta de um comissário argentino dando conta do procedimento que teve em território litigioso da fronteira do Brasil. O comissário achou ali um funcionário brasileiro, exercendo não sei que autoridade na povoação, demitiu-o e deu-lhe logo a nomeação de alcaide da república. Ambos os atos foram aceitos sem resistência e as bandeiras trocadas sem protesto.

Esse caso (se é verdadeiro, o que ignoro) traz em si, não só a solução da questão de limites, mas também o remédio eleitoral que proponho.

Quanto à primeira, basta mandar lá um comissário brasileiro daqui a seis meses, que reponha o nosso patrício no cargo anterior. Seis meses depois, os argentinos mandam outro comissário e fazem o mesmo; e, repetidas a ação de ambas as partes, semestralmente tiraremos à consciência do nosso patrício, qualquer vislumbre de escrúpulo: ele imaginará que está cumprindo um acordo internacional. Só mudará então uma coisa, a aclamação: “– Meus filhos, está vingada a justiça, viva a república!”, “– Meus filhos, restituídos ao império, viva o imperador!”. No mais, não haverá mudança. Penacho e emolumentos.

Não há penacho sem emolumentos para o eleitor, mas a paz pública é motivo bastante para um procedimento análogo. Conseguintemente, aconselho ao eleitor que divida os vivas, uns para o sr. Fulano, e outros para o sr. Sicrano, ande com duas bandeiras, uma na mão, outra no bolso. Não é fácil manejá-las, guardando e sacando, ora uma, ora outra, mas podem fazer um ensaiozinho em família. Uma vez adestrados, há de ver que, não só escapam ao cacete, mas até podem achar nisso umas horas de recreio, coisa rara neste ano de calamidades.

Ou então, se a coisa lhe parece difícil e pouco eficaz, aceitem a fórmula de um velho preto, jardineiro da igreja da Glória. Não sei se sabem que voto naquela seção. No dia do primeiro escrutínio, enquanto esperava a minha vez, passeava no corredor que vai da sacristia à pia, e tem janelas para o jardim. Numa destas, vi estirado ao longo do peitoril um preto velho, de barba curta e branca, tranquilo, com os olhos meio cerrados. Cheguei-me a ele e perguntei-lhe se era pelo sr. Fulano ou pelo sr. Sicrano, candidatos. Respondeu-me, atarantado:

– Eu sou aqui mesmo da igreja, sim, senhor.

Profundo filósofo! Filósofo prático! Enquanto um brada: “Penacho e emolumentos!” – fórmula rude e demasiado franca; – outro: “Viva o sr. Fulano e viva o sr. Sicrano!”, fórmula útil, mas contraditória, tu, meu bom velho, meu jardineiro obscuro, tu, filósofo sem livros, achaste a fórmula prática, tangível, segura, sublime, o fundo dos fundos, a substância das substâncias, que é ficar sempre na igreja.

(Lélio).

*Haroldo Ceravolo Sereza, jornalista e editor, é doutor em literatura brasileira pela USP. Autor, entre outros livros, de Trinta e tantos livros sobre a mesa: críticas e resenhas (Oficina Raquel).


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