Literatura regionalista no século XXI

Maria Helena Vieira da Silva, O corredor, 1950
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Por DANIEL BRAZIL*

Comentário sobre o romance de Benilson Toniolo

O chamado romance regionalista brasileiro surgiu no século XIX e teve momentos brilhantes no século seguinte com Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, Érico Veríssimo e Guimarães Rosa, entre outros. Até Monteiro Lobato, em certa medida, pode ser classificado como regionalista, quando se debruça sobre suas cidades mortas do vale do Paraíba.

Um autor regionalista é considerado aquele que descreve e dramatiza sua região, sua geografia, seus costumes, sua gente. A classificação exclui os metropolitanos, por mais que eles também descrevam sua região, sua geografia, seus costumes, sua gente. Machado de Assis, Lima Barreto, Dalton Trevisan, Rubens Fonseca ou Milton Hatoum, entre tantos outros, jamais são classificados como regionalistas. Depreende-se, portanto, que a classificação tem um significado quase romântico: está ligada ao mundo rural, às comunidades isoladas, aos vilarejos e rincões que não se conectam com o mundo da forma como vivenciamos nas metrópoles.

Que estes universos continuem coexistindo no planeta é um problema social e cultural do século XXI. Grandes autores, na literatura, cinema ou artes plásticas, continuam tematizando o regional. De Mia Couto a Ismail Kadaré, de Garcia Márquez a Itamar Vieira Jr., cada qual pinta sua aldeia, seja imaginária ou real, longe do burburinho citadino.

Com a expansão do “progresso” – estradas, automóveis, destruição ambiental, grilagem, violência, televisão, internet, drogas, igrejas neopentecostais – vários autores têm alargado os limites do regionalismo clássico, introduzindo uma mescla de valores e ambições que corrompem o ancestral cenário, quase nunca idílico.

Um romance como Barra-dos-meninos, de Benilson Toniolo, é uma prova da renovação do gênero. Em linguagem enxuta e valorizando os diálogos, o autor recria o microcosmo de uma pequena comunidade no interior de Sergipe, que vive da pesca do caranguejo e de barraquinhas na beira da estrada. Os capítulos são curtos, quase contos autônomos, e vão enfocando os múltiplos personagens de modo a compor um mosaico onde a trama ganha complexidade com a chegada do primeiro pastor neopentecostal à localidade e sua investida contra os índios que ali vivem há centenas de anos.

Num cenário palmilhado diversas vezes na literatura brasileira, Beniolo Toniolo introduz este elemento de conflito bem atual. Os personagens são desenvolvidos com domínio técnico, e mantêm presa a atenção do leitor, com ritmo bem dosado e suspense crescente.

Uma figura feminina, Violeta, culta e cosmopolita, destoa do conjunto quando chega ao povoado. É uma dançarina e coreógrafa, que pretende estudar o movimento dos caranguejos antes de partir para a Europa. Um estranhamento intencional, pelo contraste de discurso e comportamento, que desencadeia um desequilíbrio na frágil organização social existente, assim como o pastor. O curioso é que são fatores antagônicos, ética e moralmente, e nem sequer se encontram na trama, mas provocam alterações irreparáveis naquele microcosmo.

Benilson Toniolo, com contos, crônicas e poesias publicadas, estreia como romancista juntando-se a um time de ficcionistas que vêm injetando sangue novo no “velho” regionalismo, tendência que ainda promete muitas surpresas neste século tão turbulento.

*Daniel Brazil é escritor, autor do romance Terno de Reis (Penalux), roteirista e diretor de TV, crítico musical e literário.

Referência


Benilson Toniolo. Barra-dos-meninos. São Paulo, Penalux, 2023, 264 págs. [https://amzn.to/45bipA0]


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