As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Hip hop em perspectiva

Lawrence Abu Hamdan com Janna Ullrich, fonemas conflitantes, 2012
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por DANIELA VIEIRA & JAQUELINE LIMA SANTOS*

Apresentação das coordenadoras da recém-lançada coleção de livros sobre o hip hop

“Para mim, o hip hop diz: “Venha como você é”. Somos uma família …. O hip hop é a voz desta geração. Tornou-se uma força poderosa. O hip hop une todas essas pessoas, todas essas nacionalidades, em todo o mundo. O hip hop é uma família, então todo mundo tem como contribuir. Leste, oeste, norte ou sul – viemos de uma mesma costa e essa costa era a África” (DJ Kool Herc, 2005).

As palavras de Kool Herc, jovem jamaicano que se sobressai como um dos precursores da cultura hip hop em Nova York, centra-se no sentimento que mobiliza jovens de distintos contextos marginalizados ao desempenharem as expressões culturais do movimento: “fazer parte”. As experiências negras, marcadas pela escravidão moderna e por ações de reexistência, levam pessoas afrodescendentes a construírem referenciais de interpretação das suas realidades e a redesenharem os seus destinos.

Em consequência, as culturas afro-diaspóricas, como o hip hop, apresentam produções que colocam em pauta colonialismo, racismo, nação, classe, gênero, sexualidade e desigualdades sociais; temas não exclusivos deste segmento, mas que impactam as juventudes de diferentes contextos globais cujo passado e/ou presente são marcados por relações de opressão e exclusão social. Isso torna o hip hop um movimento sociocultural global que se destaca por ser constitutivo e também por constituir sujeitos transgressores e narradores de si próprios. A despeito do colonialismo, pós-colonialismo, da estratificação social e, ao mesmo tempo, devido a esses marcadores, é possível ser sujeito. Ou seja: fazer parte, ter parte e tomar parte.

Ora, malgrado o contexto de fluxo migratório árduo, segregação racial e exclusão social que marcou o surgimento do hip hop na década de 1970 por imigrantes jamaicanos, caribenhos e porto-riquenhos residentes no Bronx, essa manifestação segue se renovando na medida em que inspira e sintetiza práticas inovadoras de expressão artística, conhecimento, produção cultural, identificação social e mobilização política. As organizações dos grupos (crews e posses) vinculados ao mundo do hip hop têm auxiliado para a compreensão das estratégias de mudança, de construções coletivas, dos associativismos periféricos e, até mesmo, de transformações das trajetórias e ascensão social das classes populares, em sua maioria não brancas.

Nesse sentido, contesta e supera as construções convencionais, os limites e os estereótipos de raça, identidades, nação, comunidade, cultura e conhecimento. Por meio de expressões artísticas diversas – rap, breaking, grafite – revela as dinâmicas sociais locais e as suas contradições. Assim, a despeito das possíveis tendências contrárias à sua estruturação, aclimatou-se nos centros urbanos das periferias globais, dando origem ao “global hip hop”. Os estudos sobre o assunto desvelam esses processos.

Em vista disso, a coleção Hip Hop em Perspectiva reúne livros pioneiros e relevantes sobre esse fenômeno sociocultural e político inicialmente originado das classes subalternizadas. Por meio da edição de obras expressivas de temas candentes da nossa vida contemporânea, a iniciativa demonstra como as práticas, narrativas, visões de mundo e estilos de vida elaborados pelos atores dessa cultura contribuem para análises e intervenções em assuntos significativos para o entendimento da realidade social e suas possibilidades de mudança. A coleção apresenta um conjunto de obras que evidenciam o quanto este movimento juvenil configura-se como uma lente amplificadora de visões e de percepções sobre facetas cotidianas de diferentes contextos e sociedades. Uma experiência sócio-artística que disputa narrativas e imaginários, ampliando os repertórios e se engajando na construção do pensamento social.

A reflexão sobre os impactos de toda ordem desse fenômeno tornou-se matéria de interesse para pesquisas diversas constitutivas dos chamados Hip Hop Studies (HHS), os quais emergem institucionalmente a partir dos anos 2000. Exemplo desse processo atesta-se pelo número de instituições e revistas acadêmicas, conferências, acervos de museus, projetos e assessorias que englobam o universo da cultura hip hop. Destacam-se como espaços de referência o “Hiphop Archive Research Institute”, localizado na Universidade Harvard, a “Hip Hop Collection”, na Universidade Cornell, a “Hiphop Literacies Annual Conference”, sediado na Universidade Estadual de Ohio (OSU), a “Tupac Shakur Collection”, disponível na biblioteca do Centro Universitário Atlanta (AUC), o “CIPHER: Hip Hop Interpellation” (Conselho Internacional para os Estudos de Hip Hop), localizado na Universidade College Cork (UCC), entre outros.

Esse campo de estudos oportuniza a integração de distintas áreas do conhecimento, como sociologia, antropologia, economia, ciência política, educação, direito, história, etnomusicologia, dança, artes visuais, comunicação, matemática, estudos de gênero etc. Ao aliar pesquisas locais e comparativas dessas práticas artísticas nas Américas, Caribe, Europa, Ásia, Oceania e África, os trabalhos produzidos demonstram o quanto as especificidades desse fenômeno sociocultural e político são fecundas para a compreensão das dinâmicas sociais de diversas conjunturas urbanas.

Poderíamos dizer, igualmente, que os próprios artistas combinam as habilidades e competências desses diferentes campos de conhecimento para produzirem suas práticas e interpretações a partir dos contextos nos quais estão inseridos. A produção do rap envolve a observação e leitura sociohistórica, tecnologia de produção musical com samplings e colagens musicais, além de uma escrita que conecta cenário, análise crítica e perspectivas sobre o problema abordado; já o grafite é, ao mesmo tempo, um domínio de traços, cores e química e a elevação de identidades marginalizadas e suas ideologias projetadas nas paredes das cidades; o breaking, por sua vez, hoje inserido nos jogos olímpicos mundiais, exige conhecimento sobre o corpo, noção de espaço, interpretação da performance do grupo ou do sujeito rival, respostas criativas e comunicação corporal. Em síntese, não seria exagero afirmar que a prática do hip hop também é uma ciência.

Por isso, a coleção preocupa-se em trazer elaborações sobre os vínculos entre produção acadêmica e cultura de rua, pois parte significativa de autoras e autores aqui reunidos têm suas trajetórias marcadas pelo hip hop. Seja como um meio que lhes possibilitaram driblar o destino, quase “natural”, dados os marcadores de raça, classe e gênero. Todavia, por meio do conhecimento advindo das narrativas críticas do hip hop adentraram na universidade. Seja porque, mediante as condições de abandono e marginalização, encontraram no movimento componentes constitutivos de suas identidades. Em suma, o hip hop foi propício ao desenvolvimento do pensamento crítico, de capacidade analítica, leitura, escrita, chance de trabalho coletivo, garantindo as suas sobrevivências materiais e subjetivas. Da junção desses anseios os estudos de hip hop foram se desenvolvendo e, finalmente, a audiência brasileira tem a oportunidade de interlocução com essas obras.

Pois, embora as pesquisas acadêmicas sobre o tema tenham crescido exponencialmente no país – por exemplo, em 2018 foram defendidos 312 trabalhos, enquanto em 1990 o banco de teses e dissertações da Capes totalizou apenas 54 produções –, ainda não se estabeleceu um efetivo campo de investigação institucionalizado. Existe uma concentração de estudos nas áreas da educação e das ciências sociais. Contudo, há outros campos de conhecimento – economia, direito, artes, moda, matemática, filosofia, demografia, engenharias, biologia etc. – com os quais as produções desse fenômeno sociocultural poderiam contribuir e são pouco exploradas no Brasil. Logo, muitos são os anseios e expectativas aqui reunidos.

A coleção visa a circulação de bibliografia especializada sobre o assunto e a inserção dos estudos de hip-hop tanto como agenda de pesquisa acadêmica quanto possibilidade de diálogo para além do espaço universitário. Não menos importante, é o intento de colocar em destaque a produção cultural e artística de autores negros e autoras negras, inspirando a juventude negra e periférica que tem aumentado expressivamente sua presença nas universidades brasileiras, graças também ao sistema de cotas étnico-raciais. Além disso, é notável o interesse de estudantes pela temática.

O rap, em particular, durante muito tempo teve centralidade apenas em programas isolados, rádios piratas e nos territórios periféricos. Hoje, conquista cada vez mais espaço no mundo do entretenimento, perpassando o gosto de diversas classes sociais. E, ainda, orienta debates tanto sobre as agendas vinculadas aos Direitos Humanos e às lutas antirracistas, indígenas, feministas, de classe e LGBTQI+, quanto sobre a sua própria estética que igualmente se transfigura. Tais componentes, nos colocam diante de um panorama favorável para conhecer a fundo a fortuna crítica estrangeira dessa problemática.

Portanto, na certeza de ampliar ainda mais esses debates a Hip Hop em Perspectiva estreia como um chamado para a reflexão. Os livros aqui editados trazem ao público brasileiro interpretações dos processos sociais e de suas dinâmicas, em obras produzidas sobre diferentes países e que analisam a complexa e contraditória cultura urbana e juvenil que reposicionou o lugar das periferias globais e de seus artífices.

Em contexto no qual o horizonte é turvo, trazer à superfície literatura especializada sobre a cultura hip hop é semear alguma esperança.

*Daniela Vieira é professora de sociologia na Universidade Estadual de Londrina (UEL).

*Jaqueline Lima Santos é doutora em antropologia social pela Unicamp.

Publicado originalmente em Tricia Rose. Barulho de Preto: rap e cultura negra nos Estados Unidos contemporâneos. São Paulo, Editora Perspectiva.

 

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Luís Fernando Vitagliano Eduardo Borges Luiz Roberto Alves Lucas Fiaschetti Estevez Anderson Alves Esteves Sergio Amadeu da Silveira Bento Prado Jr. Kátia Gerab Baggio Luiz Marques Samuel Kilsztajn Tales Ab'Sáber Bruno Fabricio Alcebino da Silva Carlos Tautz Celso Frederico Luiz Eduardo Soares Julian Rodrigues João Lanari Bo Lincoln Secco Marcos Silva Ronald Rocha Francisco Fernandes Ladeira Chico Alencar Marjorie C. Marona Mariarosaria Fabris Ronaldo Tadeu de Souza Roberto Bueno Jean Marc Von Der Weid Luiz Renato Martins José Geraldo Couto Érico Andrade André Singer Igor Felippe Santos Tadeu Valadares Daniel Brazil Michael Roberts Dennis Oliveira Airton Paschoa Anselm Jappe Flávio R. Kothe José Raimundo Trindade Carla Teixeira Marcelo Guimarães Lima Priscila Figueiredo Slavoj Žižek José Dirceu José Micaelson Lacerda Morais Henri Acselrad Leonardo Sacramento Tarso Genro Marilena Chauí Dênis de Moraes Maria Rita Kehl Roberto Noritomi Sandra Bitencourt Elias Jabbour Luiz Werneck Vianna Renato Dagnino Boaventura de Sousa Santos Jean Pierre Chauvin Jorge Branco Paulo Sérgio Pinheiro Benicio Viero Schmidt Juarez Guimarães Afrânio Catani Thomas Piketty Ronald León Núñez Luciano Nascimento Ladislau Dowbor Claudio Katz João Feres Júnior Armando Boito Rafael R. Ioris Ari Marcelo Solon Leonardo Boff Plínio de Arruda Sampaio Jr. Michael Löwy Alysson Leandro Mascaro Walnice Nogueira Galvão Rubens Pinto Lyra Remy José Fontana Manchetômetro Liszt Vieira João Carlos Salles José Costa Júnior Marcos Aurélio da Silva Antonio Martins Salem Nasser Celso Favaretto Antonino Infranca Leonardo Avritzer Eliziário Andrade Osvaldo Coggiola Vanderlei Tenório Luiz Bernardo Pericás Luiz Costa Lima Vinício Carrilho Martinez Antônio Sales Rios Neto Eleutério F. S. Prado Chico Whitaker Alexandre de Lima Castro Tranjan Flávio Aguiar Gilberto Maringoni Jorge Luiz Souto Maior Berenice Bento Gabriel Cohn Ricardo Abramovay Paulo Capel Narvai Marcus Ianoni Eugênio Trivinho Luis Felipe Miguel Ricardo Fabbrini João Adolfo Hansen Caio Bugiato Rodrigo de Faria Paulo Fernandes Silveira Eugênio Bucci Vladimir Safatle Denilson Cordeiro Lorenzo Vitral Heraldo Campos João Sette Whitaker Ferreira Francisco de Oliveira Barros Júnior Paulo Martins Gerson Almeida Andrew Korybko Everaldo de Oliveira Andrade Mário Maestri Otaviano Helene Bernardo Ricupero Annateresa Fabris João Paulo Ayub Fonseca Ricardo Antunes Marilia Pacheco Fiorillo Luiz Carlos Bresser-Pereira José Luís Fiori Milton Pinheiro Yuri Martins-Fontes Atilio A. Boron Manuel Domingos Neto Francisco Pereira de Farias José Machado Moita Neto Fábio Konder Comparato Alexandre Aragão de Albuquerque Paulo Nogueira Batista Jr João Carlos Loebens Marcelo Módolo Alexandre de Freitas Barbosa André Márcio Neves Soares Ricardo Musse Fernão Pessoa Ramos Valério Arcary Daniel Afonso da Silva Leda Maria Paulani Eleonora Albano Valerio Arcary Daniel Costa Bruno Machado Henry Burnett Fernando Nogueira da Costa Gilberto Lopes

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada