A violência dos Outros

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Por SAMUEL KILSZTAJN*

Os ocidentais, hipocritamente, continuam ostentando o troféu de pacifistas e caracterizam como violenta e terrorista toda e qualquer manifestação contrária aos interesses do mundo ocidental

Até a primeira metade do século XX, a cultura ocidental ostentava teorias racistas científicas que justificavam o domínio dos europeus sobre o globo terrestre. Contudo, a ascensão e a queda do III Reich representou um ponto de inflexão nesta cultura e o surgimento de movimentos de libertação dos povos colonizados. Mesmo assim, os ocidentais, hipocritamente, continuam ostentando o troféu de pacifistas e caracterizam como violenta e terrorista toda e qualquer manifestação contrária aos interesses do mundo ocidental civilizado, ou seja, qualquer manifestação dos Outros.

Terroristas eram e continuam sendo os argelinos, moçambicanos, vietnamitas, colombianos, iranianos, palestinos etc. Terrorista não era a Ditadura militar no Brasil empenhada em prender, torturar e exterminar as pessoas que se manifestavam contra os desmandos dos militares que, encorajados pelo mundo ocidental durante a Guerra Fria, assumiram o poder em um golpe de estado; terroristas eram os Outros.

Violento era Frantz Fanon, este descendente de africanos subsaarianos, nascido na Martinica caribenha, que se doutorou na França, voltou para a África, para o Magrebe, e se transformou em um militante da Frente de Libertação Nacional da Argélia, esse intelectual com uma trajetória transnacional que só mesmo um império colonialista como a França poderia ter produzido.

Adam Shatz, autor de The Rebel’s clinic: the revolutionary lives of Frantz Fanon, posicionou-se prontamente sobre o massacre em Gaza, logo em 19 de outubro de 2023 [https://www.lrb.co.uk/the-paper/v45/n21/adam-shatz/vengeful-pathologies]. Depois do 7 de outubro, os cidadãos da “única democracia do Oriente Médio”, ao sentirem o desamparo e o terror que os palestinos vivenciam há um século, se empenharam fortemente em acabar com a violência dos Outros.

Mas, em meio à atual carnificina veiculada em cores e em tempo real, enquanto alguns israelenses continuam achando que a vida em Israel segue seu curso normal, graças a seu poderoso exército “de defesa”, outros israelenses parecem começar a se sentir preocupados com o futuro do estado judeu.

Tantura se transformou em um ponto chave para a desconstrução da maquiada narrativa épica oficial da criação do Estado de Israel, de que 700 mil entre os 900 mil palestinos, que então constituíam a maior parte da população do país, simplesmente abandonaram suas casas, aldeias e cidades. A dissertação de mestrado O êxodo dos árabes das aldeias ao pé do Monte Carmel do Sul, apresentada por Theodore Katz em 1998, foi banida de todas as bibliotecas do país. Em 2022, Alon Schwarz retomou a polêmica lançando um documentário em que entrevista soldados da Brigada Alexandroni, responsável pelo Massacre de Tantura em 1948. Schwarz declarou que qualquer futuro para o Estado de Israel deve necessariamente passar pelo reconhecimento da violência sionista. E a questão ganhou novamente as manchetes dos jornais israelenses.

No documentário de 2022, entre os vários depoimentos de soldados que afirmam “matamos eles, sem remorsos” e “se você os matava era coisa boa”, Amitzur Cohen revela “Era o tempo em que Ben-Gurion dizia que tínhamos que fazer de tudo para expulsar os árabes… Eles fugiam sem lutar. Não lutavam, nada. Quando nós entrávamos nos vilarejos, o pão ainda estava quente. Nós os expulsamos? Nós lutamos, não expulsamos ninguém. Quem fugiu, fugiu… Eu era um assassino, se alguém levantava a mão, eu não fazia prisioneiros, matava todos a tiro”.

Quantas pessoas você acha que matou desse jeito? “Eu não contava. Eu realmente não poderia saber. Eu tinha uma metralhadora com 250 balas. Veja, eu atirava, não poderia contar.” (E Amitzur diz isso rindo a ponto de chacoalhar o corpo.) “Não contei para ninguém sobre isso, nem para minha esposa. O que contaria? Que eu era um assassino?” (Novamente, diz isso rindo, chacoalhando, sem se dar conta das contradições em seu discurso.) Nos arquivos do exército, provavelmente divulgado por descuido, há um documento que faz referência a uma vala comum no cemitério da aldeia de Tantura.

Em 2021, durante a pandemia do coronavírus, participei como ouvinte de um seminário on-line sobre o Holocausto e as ditaduras latino-americanas durante os anos da Guerra Fria. O fato de eu ser filho de judeus poloneses sobreviventes e ter sido preso político no Brasil chamou a atenção de uma historiadora israelense. Demos então início a um intenso e frutífero relacionamento via email… até que ela leu meu texto Returnees, que narra o êxodo dos israelenses da Terra Prometida no início dos anos 1950, e me deixou falando sozinho.

Na antiguidade, estima-se que 90% dos hebreus abandonaram a sua cultura para abraçar em massa a sedutora cultura helenística dominante e que apenas 10% continuaram fiéis à sua tradição, desafiando o poder central. Da mesma forma, estima-se hoje que 90% dos judeus israelenses e da diáspora abraçam a sedutora cultura ocidental “civilizada” em sua luta contra a violência dos Outros.

E isto vale tanto para os judeus laicos como para os religiosos liberais e ortodoxos. A grande maioria dos ortodoxos segue sendo sionista, mas os apolíticos Satmar e os aguerridos Neturei Karta são fervorosos antissionistas fiéis à milenar cultura pacifista da diáspora, não matarás!

*Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política da PUC-SP. Autor, entre outros livros, de Returnees [amz.run/7C8V].


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