Passado e futuro

Imagem: Gabriela Palai
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Por GUILHERME COLOMBARA ROSSATTO*

Qual a diferença entre a experiência histórica do socialismo e aquilo que eu sonhei?

“O tempo, se podemos intuir essa identidade, é uma ilusão: a indiferenciação e a inseparabilidade de um momento de seu aparente ontem e de outro de seu aparente hoje basta para desintegrá-lo” (Jorge Luis Borges, História da eternidade).

Ao serem questionados acerca da função do historiador, muitas pessoas, acredito, nem saberiam por onde começar: “guardião das tradições”, mestre da vida ou sujeito que nos alerta sobre as tais repetições, sempre à espreita da vida em sociedade. Enquanto isso, vários outros cidadãos mostrar-se-iam alheios ao papel do historiador, afinal, tudo isto ocorreu há tanto tempo, por que seria importante?

Em toda história, mesmo nas que falam do passado mais longínquo que se possa imaginar, há muito de presente, seja no discurso, seja nas intenções. Se a palavra escrita não indica significados profundos, passando pelos nossos olhos em apenas uma leitura desatenta, coisa de um minuto ou menos, os significados por trás da semântica gramatical possuem muito a nos mostrar. Não diria que estão “escondidos em aberto”, pois não estamos diante de um conto de Edgar Allan Poe, mas é preciso um olhar atento, característico do historiador, para decifrar os enigmas daquilo que já passou, ainda mais quando conhecemos o futuro dos que já vieram.

Passado e futuro são a face de uma mesma moeda, ainda que inúmeros historiadores irão condenar o anacronismo e suas variações, os elegendo a categoria de inimigo público n°1 de qualquer história comprometida com os dados científicos. Nós os evitamos, claro, mas somos anacrônicos por natureza, condenados a repetir fatos e analisar situações, cujas conclusões já esperamos, mesmo que em pequena escala. É impossível esconder nossos sentimentos e até, por que não, ilusões sobre o passado: muitas vezes, ao começarmos uma pesquisa, esperamos um determinado resultado (ainda que jurando objetividade) e acabamos com algo inesperado, uma surpresa para todos os envolvidos naqueles longos meses de leitura e contemplação. Afinal, somos humanos, não podemos eliminar os traços de sentimentalismo da nossa mente; podemos apenas nos controlar, exigir de nossa escrita uma maior objetividade, ainda que inconscientemente, parte dela seja condicionada pelas nossas emoções.

Assim, a história nasce de uma contradição, entre a ciência e a literatura factual (muitos dirão que já superamos a segunda, mas discordo). Ainda que as notas de rodapé, as referências organizadas até o último fio de cabelo e os arquivos guardem a chave para qualquer história bem contada, ainda há muita dedução envolvida no processo, mediante a mania do estudioso em alargar alguns momentos, suprimir alguns dados (para apresentá-los mais tarde); tudo sempre de maneira sutil.

Caso o historiador não seja um cientista, o que ele é? Um mero contador de histórias, para não perdoar o trocadilho ou algo distinto, entre a organização dos fatos e o tal olhar agudo, o desejo por aquilo que nos une enquanto seres humanos. Como Bloch maravilhosamente definiu, para ninguém mais duvidar e somente poder citar: “Os fatos humanos são, por essência, fenômenos muito delicados, entre os quais muitos escapam à medida matemática. Para bem traduzi-los, portanto para bem penetrá-los… uma grande finesse de linguagem, [uma cor correta no tom verbal] são necessárias. Onde calcular é impossível, impõe-se sugerir”.[i]

O estudioso do passado, dessa forma, trabalha “pelas beiradas”, na margem daquilo que chamamos de análise racional, sempre pronto para romper as fronteiras do científico e entrar no campo da imaginação. Não se trata de uma sugestão que provém do vazio, de irrealidades ou dos caprichos do historiador, mas de indícios que os próprios documentos nos transmitem. Ao “preencher” as lacunas, calculamos os riscos e adentramos um certo imaginário, levando em conta as condições materiais daquilo que estudamos, pois, como me concentrarei nos próximos parágrafos, uma dose de materialismo é fundamental para uma História bem escrita.

Entre os casos mais ilustres de mistura com a literatura, dotados de profundo rigor teórico e documental, claro, podemos citar Edward Palmer Thompson e C. R. James, pois o que seriam de seus livros sem o toque poético de sua prosa? É pela beleza das palavras, escolhidas e usadas com rigor estético, que a mensagem chega até nós em sua forma máxima, pronta para penetrar nos corações daqueles que contarão as novas histórias. São textos únicos na medida em que seus autores, querendo ou não, possuem uma forte ligação com aquilo que pesquisam, com os sujeitos que buscam decifrar, ainda que precisem ser científicos. Suas visões do presente e por que não, os sonhos que possuem acerca do futuro, acabam adentrando na forma como pesquisam e descrevem o passado. Toda história, seja material ou não, têm muito do presente.

Desse modo, analisar o passado torna-se uma tarefa muito bonita, rodeada por construções retóricas e um idealismo desmedido. Nós estamos garantindo que nada será eterno, pelo contrário, instituições, governos, ideologias (essas são mais difíceis) e classes dominantes, a partir da passagem do tempo, perdem seus lugares, pois o processo histórico não poupa ninguém, ainda que os vestígios sobrem para os que tem o gosto por olhar esse tipo de coisa. Até mesmo outros estudiosos das chamadas ciências humanas garantem esse tipo de afirmação, demonstrando, seja numa pesquisa sobre cinema ou em um texto sobre o papel da sociedade na constituição da moral individual, que os elementos se apresentam em choques constantes, em eterna mudança, garantindo novos objetos a serem analisados e novas situações a serem vividas, afinal, antes de pesquisadores, somos seres vivos, curiosos por natureza.

As mudanças, contudo, estão longe de serem pacíficas, ainda que graduais. A transição, por definição, apresenta choques entre os sujeitos antigos e as novas formas de vida, construídas a partir de necessidades e medidas concretas. “Pois não existe desenvolvimento econômico que não seja ao mesmo tempo desenvolvimento ou mudança de uma cultura. E o desenvolvimento da consciência social, como o desenvolvimento da mente de um poeta, jamais pode ser, em última análise, planejado”.[ii] Dessa forma, polos que são tratados de modo tão distintos por muitos historiadores, quando juntos, revelam muito sobre o olhar que deveríamos dirigir ao passado e os fatores por trás de transformações que penamos em entender.

 

Socialismo real

O tempo capitalista, cuja consequência direta são as tais experiências socialistas que ocupam o subtítulo deste ensaio, é ainda mais complexo, pois a época burguesa é marcada por uma agitação permanente e falta de segurança profunda, pelas quais, no momento de sua cristalização, as relações sociais se esfumam, tornando-se antiquadas antes mesmo de terem tempo para se ossificar.[iii] Assim, é difícil procurar uma história definitiva, apoiada em fatos incontestáveis, enquanto o mundo se desfaz e refaz a cada segundo, gerando novos desafios para os que estão vivendo e envolvendo os futuros estudiosos em uma neblina interpretativa, atrativa e perigosa na mesma medida. O historiador deve organizar essa agitação, reestruturar as relações sociais e lançar hipóteses sobre tais cenários.

Do outro lado desse labor histórico, encontra-se o materialismo dialético, gerado também por suas contradições e alimentado pelos elementos que nos faltam enquanto seres humanos. Somos incompletos por natureza: nada mais justo que nossa história também seja incompleta, cheia de lacunas para o profissional entender. No caso do estudo do chamado “socialismo real”, muitas vezes, o estudioso, assim como o senso comum, está condenado à eterna querela entre as contradições dos projetos reais e o idealismo dos discursos. O socialismo pode até levantar boas questões, contudo, assassinou milhões, censurou artistas geniais e isolou civilizações inteiras.

Ao levantar estes dados, diversas análises esquecem-se do cenário caótico e belicoso enfrentado pelos países socialistas, afinal, o mundo inteiro voltou seus canhões para as ameaças ao sistema financeiro. Com isso, quaisquer idealismos ou pacifismo são meros esforços retóricos, ótimos para nós, os intelectuais, porém sem significado para a preservação de governos, ideologias e vidas humanas, ameaçadas por invasões externas iminentes (a Baía dos Porcos no caso cubano, por exemplo, para somente citar um mais conhecido).

Não se trata de defender qualquer tipo de experiência ou discurso socialista, ocultando dados, dores e cadáveres em nome de um argumento. Pelo contrário, estamos buscando um meio de análise de revoluções e processos tão conflitantes com o mundo ao seu redor e os agentes em seu interior, marcando a História de todo o Século XX e fundamentais para as discussões que o Século XXI nos apresenta, impondo um neoliberalismo cada vez mais predatório. O historiador lida com a cultura material, os fatos, aquilo que aconteceu em um determinado contexto.

A frase pode parecer simplória para quem leu tantos livros, entretanto, ao falarmos sobre o socialismo, esses elementos acabam marginalizados, reféns de críticas vazias e a-históricas em sua essência, pois não conseguem situar determinadas situações em suas respectivas concretudes. O universo ao redor das experiências socialistas dialoga com elas e as mesmas respondem de volta, criando uma relação difícil de ser destrinchada pelo historiador, por melhores que sejam suas intenções.

O sujeito, ao ler sobre as realidades passada, frustra-se com as relações que ele próprio criou em sua cabeça, afastando-se de qualquer respingo de materialismo dialético e caindo na contradição de só olhar para o início do processo, tomado por aquela paixão revolucionária, responsável pelo fim de tudo o que é ruim e ausente de qualquer discurso concreto sobre a nova sociedade que virá. “A Mudança só se consolidada sobre uma base mais limitada, mas que não deixa de ser real… É absurdo querer comparar o momento mágico do coro uníssono no curso da luta contra o velho regime a ser abatido com a fase sucessiva, prosaica e difícil, do novo que é preciso construir entre as dificuldades e contradições de todo gênero, inclusive as derivadas da inexperiência”.[iv]

Por conseguinte, o socialismo que ele sonhou não apresenta quaisquer relações com o socialismo real e com isso, o sujeito cai em depressão, abalado pelo mundo que ele jurou construir, ao condenar tudo aquilo que veio antes. Novamente, como no caso do historiador, as subjetividades de algo tão complexo como a mente humana entram em cena, misturando-se aos anseios de um fator político, racional e conectado à elementos muito maiores do que a crise de consciência de apenas uma pessoa. É neste embate entre geral e particular que o materialismo histórico deve estar localizado, gerando uma análise que dê conta das nuances e contradições da experiência humana.

Desse modo, é obrigação do historiador situar as coisas de uma maneira concreta, dentre as possibilidades que estão em seu horizonte, enxergando o passado como aquilo que aconteceu, não aquilo que poderia ter acontecido. Previsões e alternativas, ainda que isto machuque os sonhadores e idealistas (já citados antes), não fazem parte do labor historiográfico. O acaso sim, este faz parte da História, por mais que as condições materiais tentem negá-lo a todo momento, impondo um certo racionalismo exorbitante. Mesmo assim, não se trata de um embate, mas de uma espécie de simbiose entre as leis do caos que regem aquilo que efetivamente acontece e as manifestações materiais de uma dada época, sociedade ou nação; juntando tudo isto, nós temos o passado, um amontoado de informações e dados que deve ser analisado tendo-se em mente o que era possível em tais condições, por piores que elas possam ser para os que ainda ousam sonhar.

Como a sexta tese de Benjamin sugere: “Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo. Cabe ao materialismo histórico fixar uma imagem do passado, como ela se apresenta, no momento do perigo, ao sujeito histórico, sem que ele tenha consciência disso”.[v]

A tal imagem não é cristalina, não irá solucionar todas as nossas dúvidas sobre os potenciais do socialismo no passado, no presente ou no futuro, mas ainda é a melhor que nós temos, apresentando-se como um auxílio para os que estão dispostos a escutar outros tipos de perspectivas. A partir daí um movimento, uma ideologia podem ser retroalimentados à exaustão, sendo construídos com base no diálogo entre seres concretos, materiais até os ossos e prontos para ouvir o que o tempo tem a lhes dizer.

Em nenhum desses tempos nós controlamos as condições, estando à deriva, por assim dizer, daquilo que a existência material tem a nos oferecer e do que fazemos com elas, pois, ainda que de modo limitado, o ser humano escolhe e controla suas próprias ações. No caso do historiador, queremos controla-la duplamente: como um pequeno deus que olha para o que já aconteceu e atesta a palavra final acerca do mesmo, sem nos darmos conta que estamos tentando replicar o processo em nossas vidas cotidianos, por mais bizarro e assustador que tal prática possa parecer. Por isso, a História é deveras perigosa, tanto para quem a escreve, quanto para as sociedades ao seu redor, podendo mudar traços fundamentais de um país, um conflito armado ou até mesmo da alma daqueles que busca compreender.

*Guilherme Colombara Rossatto é graduando em história na Universidade de São Paulo (USP).

Notas


[i] Bloch, Marc. Apologia da História ou O Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Zahar, 2002, pp. 54-55.

[ii] THOMPSON, E. P. Costumes em Comum: Estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998, p. 304.

[iii] ENGELS, Friedrich; MARX, Karl. Manifesto do Partido Comunista. Porto Alegre: LEPM, 2001, p. 7.

[iv] LOSURDO, Domenico. Fuga da História? A revolução russa e a revolução chinesa vistas de hoje. Rio de Janeiro: Revan, 2004, p. 73.

[v] BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas. Vol. 1. Magia e técnica, arte e política. Ensaios sobre literatura e história da cultura. Prefácio de Jeanne Marie Gagnebin. São Paulo: Brasiliense, 1987, p. 223.

 

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