O capitalismo é o assassino

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Por RAÚL ZIBECHI*

Para frear a violência há um único requisito: pôr fim a este sistema capitalista predatório e genocida que vê as adelitas, os panchos e os emilianos (os pobres de baixo) como seus inimigos

1.

De forma tão metódica e completa, que outro sistema declarou guerra à humanidade? Que outro sistema pratica de forma sistemática genocídios e extermínios de porções inteiras das juventudes, de mulheres e infâncias? Que papel estão desempenhando os Estados e os governos que os administram, que não podem nem querem frear a violência contra os povos e as pessoas?

É hora de pôr nome a este sistema: capitalismo. Devemos compreender que a violência não tem outro objetivo senão a acumulação acelerada de capital. Para isso, deslocam e exterminam aqueles setores que são um obstáculo para o enriquecimento do um por cento.

Não se trata de fatos isolados nem de erros, mas de um plano que vem se aperfeiçoando nas últimas décadas e que mais recentemente vimos se desdobrar em toda a sua magnitude, na vasta geografia que vai de Gaza até o México, como ensinam os bombardeios indiscriminados contra escolas e hospitais, como mostram os fornos crematórios de Teuchitlán (México).

O mesmo modelo com algumas variantes observamos em outras geografias do Oriente Médio, e de modo muito particular nos territórios dos povos originários e negros, desde Wall Mapu até Chiapas. No sul da Argentina, os grandes empresários incendeiam florestas enquanto o Estado não as apaga, mas sim criminaliza o povo mapuche e desloca comunidades para lucrar com suas terras. A aliança entre o Estado, o empresariado e suas milícias, os grandes meios e a justiça, é lubrificada com a presença de soldados israelenses nesses territórios.

A população em torno da mina de Chicomuselo, Chiapas, é testemunha da aliança entre Estado, empresa, paramilitares e crime organizado, com o único objetivo de deslocar e controlar a população que dificulta a destruição da Mãe Terra pela expansão do agronegócio (que quer converter os bens comuns em mercadorias).

Modos muito similares encontramos quando a Polícia Militar brasileira entra nas favelas, quando as bandas armadas narcoparamilitares atacam o povo garífuna em Honduras; os corpos repressivos que disparam de helicópteros armados contra as multidões que se mobilizaram na região andina do Peru, e tantos casos mais, impossíveis de descrever neste espaço.

Não nos enganemos: não são excessos nem desvios pontuais, mas um vasto projeto de militarização a quatro mãos (forças armadas e policiais, juízes, governantes e crime organizado), que sustenta as empresas extrativistas. Quando vemos as mães e os guerreiros buscadores usarem suas próprias mãos porque não têm recursos, mas ainda assim são capazes de desenterrar o horror, não podemos senão compreender que as autoridades se colocaram a serviço dessa guerra de espoliação, garantindo a impunidade dos perpetradores.

A dor – e só a dor – é a fonte do conhecimento. Não podemos nos esquecer de quando pais dos estudantes de Ayotzinapa ergueram o lema “Foi o Estado, lavrado com o sangue de seus filhos e a tortura psicológica tanto pela ausência quanto pelo modo como foram desaparecidos.

Agora essa dor nos diz que estamos diante de uma engrenagem criminosa capaz das maiores atrocidades, como apontou há poucos dias o jornalista mexicano Jonathan Ávila, do CEPAD.[1]

2.

Sabemos que não existe nem existirá vontade política para frear a violência vinda de cima. Por isso, a pergunta é: o que vamos fazer? O que faremos, enquanto movimentos, povos e sociedade como um todo, para fazer aquilo que os de cima não querem fazer? Pois para frear a violência há um único requisito: pôr fim a este sistema capitalista predatório e genocida que vê as adelitas, os panchos e os emilianos (os pobres de baixo) como seus inimigos.

O primeiro ponto é compreender que todos estamos na mira do capital. Na década de 1970, você desaparecia se fosse guerrilheiro, estudante, operário ou camponês organizado que lutava. Essa lógica mudou radicalmente. Agora, o simples fato de existir, de respirar e viver sendo de baixo te converte em vítima potencial. Por isso, mais do que nunca, é necessário gritar: todos somos Ayotzinapa. Todos somos Gaza. Todos somos Teuchitlán.

O segundo é seguir o exemplo das buscadoras e dos guerreiros. Nos organizar. Pôr o corpo, as mãos e os corações. Nos colocar ombro a ombro para proteger e resgatar os nossos, nos converter em barricadas coletivas para frear a barbárie, ou seja, os bárbaros. Não há outro caminho, nem atalhos, nem leis nem governantes que irão cuidar da nossa vida em meio aos extermínios.

Entendo que são aprendizados muito duros, extremos, que supõem vencer tanto o medo quanto a solidão, os insultos e, pior, a indiferença e as tentativas de lucrar política e materialmente com a nossa dor. Mas tenhamos claro que não podemos esperar nada senão dos nossos esforços coletivos, aqui e agora, todo o tempo que pudermos.

*Raúl Zibechi, jornalista, é colunista do semanário Brecha (Uruguai).

Tradução: Rafael Padial.

Publicado originalmente em La Jornada, de México.

Nota


[1] adondevanlosdesaparecidos.org


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