A ampliação do Museu de Arte de São Paulo

Imagem: Andre Moura
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Por ADALBERTO DA SILVA RETTO JR.*

O vão livre do MASP será um espaço inclusivo ou excludente de alguma forma? A comunidade ainda poderá ali se manifestar? O famoso “vazio” continuará sendo livre, no mais amplo sentido do termo?

1.

O recém-inaugurado edifício Pietro Maria Bardi foi apresentado numa coletiva de imprensa, em 26 de novembro de 2024. O novo edifício, que não é resultado de um concurso público, cumpre a função de anexo para a expansão do Museu de Arte de São Paulo (Masp), projeto de Lina Bo Bardi (1914-1992). As portas do novo edifício foram abertas ao público, pela primeira vez, por ocasião das comemorações do aniversário de São Paulo, em janeiro último, mas a abertura oficial foi somente no dia 28 de março de 2025.

O Masp é um patrimônio de inquestionável importância no âmbito da cultura arquitetônica da cidade de São Paulo e da sociedade paulistana. Um dos símbolos mais populares desta capital, o Masp faz parte do imaginário de seus habitantes, mesmo daqueles que nunca o adentraram. Projetado pela arquiteta Lina Bo Bardi em 1958 e inaugurado em 1968, é uma obra revolucionária enquanto forma arquitetônica, cálculo estrutural, proposta museológica e espaço público (CAMARGO, 2005).

Se considerarmos a gênese e a importância do projeto, como explicita a citação acima, e o tempo de sua inauguração, é compreensível pensar na obsolescência funcional do antigo edifício. Ao se pensar o novo edifício, é evidente que a nova obra não deve ser entendida em sua simples lógica incremental, ou seja, no aumento da área disponível de determinado espaço funcional.

O sentido de expansão deve considerar, prioritariamente, a ampliação do papel museológico na sociedade contemporânea e o crescimento exponencial da dimensão estética, ocorrida durante o desenvolvimento da arte nos séculos XX e XXI.

Como edifícios altamente simbólicos, os museus passaram por transformações e, cada vez mais, representam a visão que determinada sociedade tem de si, conforme o enunciado do International Council of Museums (ICOM), aprovado em 24 de agosto de 2022: “A museum is a not-for-profit, permanent institution in the service of society that researches, collects, conserves, interprets and exhibits tangible and intangible heritage. Open to the public, accessible and inclusive, museums foster diversity and sustainability. They operate and communicate ethically, professionally and with the participation of communities, offering varied experiences for education, enjoyment, reflection and knowledge”.

Como instituição permanente, sem fins lucrativos, aberta ao público, a serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, e que investiga os testemunhos materiais e imateriais do homem, bem como de seu ambiente, o museu adquire tais testemunhos, conserva-os e os expõe especificamente para fins de estudo, educação, apreciação cultural e lazer.

2.

Hoje, apesar de não serem características específicas de museus, termos como acessibilidade, inclusão e sustentabilidade assumem relevância internacional e colocam-se como verdadeiras pedras angulares para serviços públicos que objetivam realizar, através de suas atividades, sua função social.

O tema da acessibilidade dos museus assumiu o centro do debate já há algum tempo: acessibilidade física e cognitiva, mas também econômica, tema que não deve ser subestimado. Contudo, vale sublinhar este aspecto: os museus são chamados a abordar temas e problemas típicos de todas as estruturas públicas e sociais, e isso apenas reitera sua centralidade na vida social dos cidadãos e da população.

O tema da inclusão está intimamente ligado ao da acessibilidade, sobretudo se falarmos de acessibilidade social, quando os dois termos passam a ser sinônimos. Inclusão para os museus significa, portanto, acolher não só visitantes, o público – ou melhor, os públicos, como agora aprendemos a diversificar –, mas criar condições para acolher também realidades sociais, cidadãs e minoritárias para as quais esse equipamento não é prioridade, simplesmente porque esses grupos não se reconhecem nos valores que o museu divulga.

Outro tema profundamente atual é o da sustentabilidade. No campo dos museus, o termo é, na verdade, bastante evasivo. O que se quer dizer com sustentabilidade aplicada aos museus? O uso de energias alternativas, a aplicação de soluções de engenharia de baixo impacto ambiental? O termo assume diferentes significados e nuances: sustentabilidade ambiental e antrópica, sustentabilidade para trabalhadores e para visitantes, sustentabilidade em função da proteção de monumentos…

A essas palavras podemos acrescentar uma reflexão geral partindo de dois termos, museu e espaço, aos quais podemos associar relevância pública. O tema do Museu, como espaço público, pode ser abordado sob diversas perspectivas: didática, de planejamento, virtual, social. Pode parecer estranho que o tema do “direito à cidade” possa ser abordado a partir dos museus, mas no momento da criação do Masp, uma revolucionária proposta de espaço público se desenhava, como enfatiza Camargo (2005). Não seria este princípio – o direito à cidade – o valor essencial do vão livre prefigurado no croqui de Lina Bo Bardi?

Nas palavras do arquiteto holandês de Aldo van Eyck, que foi recebido por Lina Bo Bardie  visitou o MASP em 1969: “O que Lina construiu ali é quase inacreditável, até que o vejamos com os próprios olhos. O que parece impossível adquire realmente uma forma tangível, concreta. Um feito espantoso, pois o edifício de fato está e não está ali, devolvendo à cidade tanto espaço quanto o que retirou dela”. E continua: O gesto é de tirar o fôlego, e majestoso também, pois ela não só manteve a cidade aberta nesse ponto espetacular, como também construiu um espaço enorme para o povo. Para o seu povo, pois assim é que ela o via.”

E ainda reforçou: “Mas isso não é tudo, há ainda mais, já que sua generosidade e audácia eram completamente inclusivas. Respondendo ao vasto espaço de baixo, esticando-o literalmente e quase duplicando-o, já esse grande interior acomodando um mar miraculoso de pinturas – um espetáculo caleidoscópico exemplificando cada item individual e ao mesmo tempo transcendendo o nome do pintor, o período cultural ou estilo/’. DIEGUES, Isabel, JORN, Konijn (Orgs.), 2024).

3.

Há ainda outra palavra-chave a ser incorporada para sedimentar socialmente a definição de Museu: política. Para todos os efeitos, museus são organismos políticos, no sentido mais amplo do termo, porque, como instrumentos de desenvolvimento social, são portadores de valores e reivindicações próprias da cidadania, estão inseridos no contexto social e civil em que surgem e são (e devem funcionar como) protetores da cultura. A nova definição de Museu, a partir da nova concepção de espaço público criada por Lina Bo Bardi, portanto, mostra-nos como gostaríamos que todos os museus fossem, como deveriam ser e mesmo aspirar a ser: museus como atos de resistência.

Num cenário em que as regras operacionais e os instrumentos de planejamento se articulam com grande indecisão, o que parece muito claro é a necessidade de restituir ao espaço público o valor de estrutura, de foco do tecido urbano, de articulação entre a vida privada e a função pública, como uma ferramenta para a regeneração de uma consciência cívica fraca e, infelizmente, opcional.

Neste momento de transformação social radical, a manutenção do espaço público como concebido por Lina Bo Bardi, materializado no vão livre do MASP, adquire o papel de ferramenta de planejamento, de canal compositivo de opção para uma requalificação cirúrgica do tecido urbano. Aquele espaço torna-se, portanto, portador de uma variedade multifacetada de significados, não só pelo valor memorial e identitário que assume em termos sociológicos, mas também porque se manifesta material e fisicamente como o lugar da penetrabilidade, da possibilidade e da flexibilidade.

Promover, hoje, um debate sobre a ressignificação daquele espaço público aberto, criado por Lina Bo Bardi, implica criar condições para o renascimento moral e cívico da comunidade, confiando à cidade, e à sua extraordinária capacidade de acolhimento, partilha e convívio, o papel de termômetro de uma realidade urbana, democracia cuja estrutura de sustentação é identificada pelo espaço público.

Nesse sentido, algumas perguntas vêm bem a calhar: o vão livre do MASP será um espaço inclusivo ou excludente de alguma forma? A comunidade ainda poderá ali se manifestar? O famoso “vazio” continuará sendo livre, no mais amplo sentido do termo?

*Adalberto da Silva Retto Jr. é professor de Arquitetura na Universidade Estadual Paulista (Unesp).


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