A paz esteja convosco, Palestina!

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Por SAMUEL KILSZTAJN*

Embora o mundo não esteja muito interessado nos palestinos, o Estado de Israel está sim interessado em alastrar o confronto com os palestinos para uma guerra regional que corre o risco de se transformar em uma guerra mundial

Um amigo brasileiro muçulmano me disse que estava estudando hebraico e, surpreso, perguntei, por quê? Ele me disse que o hebraico era a língua falada por Deus!

Shalom Aleihem em hebraico (שלום עליכם), aramaico (שְׁלוֹם עַלֶךְ) e grego (Eiríni Sói; Ειρήνη Σόη), foram traduzidos em Roma para Pax Vobis, em árabe para Salaam Aleikum (السلام عليكم) e em português para A paz esteja convosco.

Como pode essa saudação ser utilizada pelos sionistas em Israel e mundo afora enquanto ocupam-se em oprimir o povo palestino? Os palestinos, espero não ofender ninguém com o que estou dizendo, lamentavelmente, são hoje os judeus da vez. Ben Abraham, judeu polonês sobrevivente do Holocausto, imigrante e brasileiro naturalizado, publicou em 1972 E o mundo silenciou.

Durante o Holocausto, o mundo manteve-se em silêncio frente ao extermínio dos judeus europeus e, após a Segunda Guerra Mundial, ainda se recusou a absorver os judeus sobreviventes, aprovando a criação de um Estado Judeu em território palestino. Os países historicamente antissemitas hoje se declaram filossemitas, defendem o Estado de Israel, consideram antissemitas todos aqueles que se declaram pró-palestinos e criminalizam as manifestações em defesa do povo palestino.

Os judeus sobreviventes, vítimas do antissemitismo cristão durante o Holocausto, transformaram-se, a partir da criação do Estado de Israel, em sionistas algozes, vitimizando os palestinos, servindo de linha de frente do mundo ocidental em confronto com os muçulmanos, chineses e russos. A cultura milenar pacifista do povo judeu da diáspora foi substituída pela cultura bélica sionista.

Como pode um país que reverencia o levante suicida do Gueto de Varsóvia e os terroristas judeus organizados em grupos de partizans, que ousaram desafiar o exército nazista que dominou toda a Europa Continental e tratava os judeus como vermes subumanos durante a Segunda Guerra Mundial, não se envergonhar de ser responsável pela diáspora de sete milhões de palestinos que tiveram que deixar as terras que habitavam há séculos, tratar como animais os cinco milhões que permanecem em Gaza e na Cisjordânia e reduzir a cidadãos de segunda classe os dois milhões de palestinos que vivem em Israel?

A Federação Árabe Palestina do Brasil – FEPAL representa os mais de 200 mil imigrantes, refugiados e descendentes de palestinos que tiveram que deixar as suas terras e ancoraram no Brasil a partir da catástrofe, al-Nakba, que se abateu sobre o povo durante a criação do Estado de Israel. O Instituto Brasil-Palestina – Ibraspal ocupa-se em promover as relações entre o Brasil e a Palestina. A Rede Universitária de Solidariedade ao Povo Palestino agrega professores que se manifestam contra o regime de apartheid e a política de terror praticada pelo Estado de Israel. O Centro de Estudos Palestinos – CEPal da USP reúne pesquisadores e divulga a história, a cultura e a luta pela autodeterminação nacional do povo palestino.

Na contramão dos sionistas, que utilizam o Holocausto para justificar as atrocidades cometidas contra o povo palestino, a Rede Internacional Judia Antissionista – IJAN, que se declara comprometida com a libertação do povo palestino, o direito de regresso dos refugiados e o fim da colonização israelense da Palestina histórica, inclui, entre seus membros, sobreviventes do Holocausto e seus descendentes, que clamam: “Holocausto – nunca mais para ninguém”.

As elites e os governos do mundo ocidental estão assistindo em tempo real e têm silenciado a carnificina em curso na Palestina. Apesar das manifestações populares de solidariedade aos palestinos em vários países, estes governos, quando não estão colaborando ativamente, recusam-se a estancar o genocídio, continuam se relacionando diplomática e economicamente com o Estado de Israel e reprimem as manifestações em defesa da população palestina. Eu me recuso a silenciar.

Para os Estados Unidos e a Europa, os palestinos são 14 milhões de terroristas árabes muçulmanos. Mesmo o governo do Irã não estaria muito interessado naquele bando de insubordinados palestinos, que dirá a Arábia Saudita. A China e a Rússia, por sua vez, acompanham de longe a derrocada do ocidente.

Embora o mundo não esteja muito interessado nos palestinos, o Estado de Israel está sim interessado em alastrar o confronto com os palestinos para uma guerra regional que corre o risco de se transformar em uma guerra mundial. E, em uma troca de interesses, enquanto os sionistas avançam em território palestino, os Estados Unidos aproveitam para desafiar o Irã, de modo a “garantir” a sua hegemonia internacional ameaçada pelo Império Chinês.

A Primeira Guerra Mundial marcou o fim dos impérios europeus e da hegemonia internacional da Inglaterra. Seu desfecho foi derivado da gripe espanhola, que rendeu os exércitos da Alemanha e da Áustria estacionados em território dos aliados. A Segunda Guerra Mundial foi a vingança da Alemanha “derrotada por uma punhalada pelas costas”, atribuída aos socialistas, bolcheviques e judeus, e marcou a hegemonia internacional inconteste dos Estados Unidos e o início da Guerra Fria.

A aprovação por parte das Nações Unidas do Plano de Partição da Palestina, que autorizava e ajudava os sobreviventes judeus do Holocausto a invadir e oprimir o povo nativo da Palestina, está sendo utilizada pelos Estados Unidos em sua agonizante perda da hegemonia internacional. E, lamentavelmente, os palestinos são hoje os judeus da vez.

* Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política da PUC-SP. Autor, entre outros livros, de Salaam Aleikum, Palestina!


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