As ideias precisam circular. Ajude A Terra é Redonda a seguir fazendo isso.

Notas sobre a vitória de Javier Milei

Imagem: Lucía Montenegro
Whatsapp
Facebook
Twitter
Instagram
Telegram

Por VALERIO ARCARY*

O “tango” apocalíptico de Javier Milei é uma versão argentina do que foi o bolsonarismo no Brasil, e os perigos são os mesmos

“A mal desesperado, remédio heroico \ A cisma é pior que uma doença”
(Provérbios populares portugueses).

1.

O crescimento da ultradireita não é um fenômeno nacional, é mundial. Têm peculiaridades em cada país, mas a ascensão do neofascismo é global. O “tango” apocalíptico de Javier Milei é uma versão argentina do que foi o bolsonarismo no Brasil, e os perigos são os mesmos.

São quatro, pelo menos, os fatores estruturais:

(a) a extrema-direita conquistou influência porque há desespero social, e o programa de choque ultrarradical tem uma base social que, ainda quando minoritária, consegue arrastar a maioria; (b) a sociedade está fraturada pela estagnação econômica que divide a burguesia, aumenta a pobreza, interrompe a mobilidade social, acelera a desigualdade social, radicaliza as camadas médias, e desmoraliza os trabalhadores;

(c) “uma estratégia de neoliberalismo” com descontos conduz a esquerda para o abismo, porque a vida das amplas massas não pode mudar para melhor, e paciência tem limites, abrindo caminho para uma derrota histórica; (d) o pêndulo da disputa ideológico-cultural inclinou-se para a direita em função da audiência reacionária de ideias nacionalistas exaltadas, machistas atávicas, racistas xenófobas, homofóbicas retrógadas, etc.

2.

O desempenho catastrófico de Sergio Massa sugere que o peronismo cometeu um erro de estratégia política fatal ao descartar Cristina Kirchner. Cristina Kirchner, representante do kirchnerismo, era a única candidatura que poderia empolgar e, talvez, mobilizar a base social popular, justamente, porque se diferenciou do caminho escolhido pela presidência de Alberto Fernández, representado por Sergio Massa. Sem a “paixão” política que Cristina Kirchner poderia despertar era impossível enfrentar a avassaladora onda de radicalização extremista.

Apostaram que Patricia Bullrich seria a inimiga principal. Erraram “rude”. Subestimaram Javier Milei até que, nas PASO, se confirmou que Patrícia Bullrich com o apoio de Mauricio Macri não era a favorita. A representação da direita foi pulverizada pela ascensão vulcânica da candidatura de extrema direita que conquistou 30%. No segundo turno Javier Milei atraiu a votação de Juntos por el Cambio ao fazer os acertos com Mauricio Macri e Patricia Bullrich.

3.

Era impossível derrotar Javier Milei? Não, não há fatalismos na luta política. Quem pensa o contrário abraça uma “teorização” que tem como desfecho a desmoralização. A conquista do poder por uma liderança da extrema-direita era somente uma das hipóteses no campo de possibilidades. No terreno do balanço são inevitáveis os cálculos contrafactuais. São perigosos, mas possíveis, quando consideramos com lucidez as variáveis mais importantes.

O governo Alberto Fernández fez escolhas graves e elas tiveram consequências. Aceitou as condições usurpadores impostas pelo FMI nas negociações dos empréstimos feitos durante a gestão de Mauricio Macri. Poderia não ter aceito, e seguido outro caminho. Outra estratégia precipitaria rupturas com o centro político da classe dominante argentina. Seria incontornável procurar a mobilização popular para garantir sustentação.

Romper relações com FMI, aumentar o salário mínimo, impulsionar um Plano de obras públicas de emergência, implantar impostos sobre as grandes fortunas, congelar os preços de uma cesta básica de primeira necessidade, e outras medidas eram possíveis. Seria uma resposta corajosa a uma crescente fratura social que deslocava parcelas das camadas médias e das massas populares para a direita. Não o fez. Foi fatal.

4.

A vitória de Javier Milei representa, em si, uma mudança, dramaticamente, desfavorável da relação política de força, e sugere que a relação social de forças já tinha se alterado para pior muito antes. A força dos movimentos sociais na Argentina não deve ser desvalorizada. Mas a derrota de Sergio Massa, inclusive em regiões urbanas de concentração popular, ainda mais grave se considerarmos que a votação teve grande comparecimento, e a votação de brancos e nulos foi marginal, parece indicar perda de autoridade político-social.

A influência dos sindicatos, ou dos movimentos populares de trabalhadores desempregados, dos de direitos humanos, das feministas, educação popular, de defesa da saúde pública, a resistência contra privatizações e desnacionalização não estão intactas. Isso significa que seguramente, haverá muita luta. Mas elas se darão em condições muito, mas muito piores que antes. Bloquear o ajuste de choque que o governo Javier Milei irá declarar como uma impiedosa guerra contrarrevolucionária será um desafio titânico. A tática da Frente Única, que só é possível em unidade na ação com o peronismo, será, mais do que nunca, a chave para abrir o aminho de vitórias, como foi possível contra Jair Bolsonaro.

5.

A maioria da esquerda socialista argentina está agrupada na FIT-U. Merecem o respeito de todas as forças anticapitalistas à escala internacional. Os quatro partidos da FIT-U estão entre as maiores organizações revolucionárias da América Latina. O PTS e o Partido Obrero estão entre as dez maiores do mundo. Têm uma longa e heroica história de lutas. Portanto, imensas responsabilidades. Saberão muito mais que nós sobre as condições nas quais tiveram que se posicionar. Conhecem melhor do que qualquer um de nós o seu país, e seu povo.

Mas isso não nos deve impedir de dizer que parecem ter subestimado o perigo representado por Milei. Infelizmente, nesse erro seguiram o caminho da maior parte da esquerda brasileira, mesmo entre as correntes da esquerda radical, diante de Jair Bolsonaro. Também no Brasil, ainda em 2018, foi impressionante a polêmica necessária para alertar que um neofascista era o favorito nas eleições. Pior, algumas tendências defenderam o voto nulo no segundo turno entre Lula e Jair Bolsonaro em 2022.

A decisão de neutralidade no momento “tragédia” deste 19 de novembro, a excepção da Isquierda Socialista e do MST, foi inexplicável. Declarar o voto não significava apoio político. Votar Sergio Massa contra Javier Milei, explicando que se tratava de gesto tático, significava somente unir os revolucionários à escolha da esmagadora maioria dos melhores lutadores do povo. Votando em Sergio Massa, não seguíamos o peronismo, somente não rompíamos com os trabalhadores e oprimidos que usaram o voto contra Javier Milei.

*Valerio Arcary é professor de história aposentado do IFSP. Autor, entre outros livros, de Ninguém disse que seria fácil (Boitempo). [https://amzn.to/3OWSRAc]


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

AUTORES

TEMAS

MAIS AUTORES

Lista aleatória de 160 entre mais de 1.900 autores.
Daniel Costa Juarez Guimarães Marcus Ianoni Daniel Brazil João Carlos Loebens Paulo Capel Narvai Maria Rita Kehl Remy José Fontana Jorge Branco Liszt Vieira Paulo Fernandes Silveira José Machado Moita Neto Bruno Fabricio Alcebino da Silva Rodrigo de Faria Eugênio Trivinho Fábio Konder Comparato João Paulo Ayub Fonseca Marilena Chauí Marcos Aurélio da Silva Manchetômetro Manuel Domingos Neto Vladimir Safatle Walnice Nogueira Galvão Ricardo Abramovay Rafael R. Ioris Eugênio Bucci Igor Felippe Santos Andrew Korybko Paulo Sérgio Pinheiro José Dirceu Jean Marc Von Der Weid Everaldo de Oliveira Andrade Caio Bugiato Jean Pierre Chauvin Luiz Carlos Bresser-Pereira José Geraldo Couto Eduardo Borges Mariarosaria Fabris Alexandre de Freitas Barbosa Gilberto Lopes Vinício Carrilho Martinez Vanderlei Tenório Osvaldo Coggiola Mário Maestri Heraldo Campos Chico Whitaker Ronaldo Tadeu de Souza Kátia Gerab Baggio Bernardo Ricupero Fernão Pessoa Ramos Gilberto Maringoni Leonardo Sacramento Luiz Costa Lima Armando Boito Lucas Fiaschetti Estevez Leonardo Boff Luiz Werneck Vianna André Singer Francisco Pereira de Farias Ari Marcelo Solon Ricardo Fabbrini Paulo Martins Luiz Roberto Alves Alexandre de Lima Castro Tranjan Samuel Kilsztajn Sergio Amadeu da Silveira Carlos Tautz Valerio Arcary Roberto Noritomi Luiz Bernardo Pericás Luís Fernando Vitagliano Ricardo Musse José Micaelson Lacerda Morais Marjorie C. Marona Priscila Figueiredo Luciano Nascimento Luis Felipe Miguel Denilson Cordeiro Lorenzo Vitral Anderson Alves Esteves Roberto Bueno Thomas Piketty Valério Arcary Tarso Genro Luiz Marques Atilio A. Boron Alysson Leandro Mascaro Carla Teixeira João Adolfo Hansen Airton Paschoa Henry Burnett Yuri Martins-Fontes Berenice Bento Flávio R. Kothe Fernando Nogueira da Costa João Lanari Bo Gerson Almeida Celso Frederico Tales Ab'Sáber Plínio de Arruda Sampaio Jr. Luiz Renato Martins Marcos Silva Alexandre Aragão de Albuquerque Michael Löwy Lincoln Secco Ronald León Núñez Milton Pinheiro Eleonora Albano Leda Maria Paulani Bruno Machado Antonino Infranca Otaviano Helene André Márcio Neves Soares Marcelo Guimarães Lima Annateresa Fabris José Luís Fiori Marilia Pacheco Fiorillo Antônio Sales Rios Neto Rubens Pinto Lyra Leonardo Avritzer Eliziário Andrade Francisco de Oliveira Barros Júnior Afrânio Catani Dennis Oliveira Gabriel Cohn Sandra Bitencourt Boaventura de Sousa Santos João Carlos Salles Benicio Viero Schmidt Luiz Eduardo Soares Bento Prado Jr. Elias Jabbour Julian Rodrigues Antonio Martins Anselm Jappe Francisco Fernandes Ladeira Celso Favaretto José Costa Júnior Ricardo Antunes José Raimundo Trindade Flávio Aguiar Eleutério F. S. Prado Ladislau Dowbor Renato Dagnino Slavoj Žižek Salem Nasser Chico Alencar Claudio Katz João Sette Whitaker Ferreira Tadeu Valadares Paulo Nogueira Batista Jr Jorge Luiz Souto Maior Daniel Afonso da Silva Ronald Rocha Marcelo Módolo Érico Andrade João Feres Júnior Dênis de Moraes Michael Roberts Henri Acselrad

NOVAS PUBLICAÇÕES

Pesquisa detalhada