Trilha de absurdos

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Por OTAVIO ALMEIDA FILHO*

Perguntar o que fazer continua impondo sua atualidade e essa pergunta é a mesma que muitos, ainda hoje, continuam fazendo. Que fazer? Como mudar esse animal canalha, mentiroso, perverso, doente que chega aos mais altos cargos na estrutura dos Estados contemporâneos?

“La categoría en la cual el cosmos se evidencia es la categoría de la alucinación” (Gottfried Benn, Doble vida).

1.

No início do mês, Muniz Sodré, baiano de pura graça, (a graça aqui referida é a de ver um homem de 80 anos, que venceu a covid, jogar capoeira com a leveza de um menino), mostrou o exemplo de uma brutal e criminosa alucinação quando, na sua crônica dominical “A negação ativa do horror” (Folha de S. Paulo, 5 de julho de 2025) citou uma postagem do famoso produtor de televisão israelense Elad Barashi: “Não consigo entender as pessoas aqui no Estado de Israel que não querem encher Gaza com chuveiros de gás… ou vagões de trem… e acabar com essa história! Que haja um Holocausto em Gaza!”

Diante dessas palavras perguntamos perplexos: Dizer o que? Que fazer?

No livro Que fazer? (1902), Vladímir Lênin aborda a necessidade de transformar a mentalidade do homem russo como um passo fundamental para a revolução socialista. Mudar o homem russo,  esse era o projeto, o sonho! Esse era um homem estúpido, grosseiro, alcoolatra, violento que agredia crianças, espancava mulheres e velhos. Certamente que esse homem não era uma exclusividade russa.

Pois, atualmente, são os valentões de sempre, os covardes, traiçoeiros, políticos do baixo clero, médicos arrivistas que desejam operar a qualquer custo, advogados de porta de cadeia, arquitetos deslumbrados, empresários reclamando dos absurdos  reajustes do salário mínimo e clamando que sejam congelados para sempre. Os juízes corruptos, os procuradores golpistas, vaidosos e que gritam Pátria e Família. São os nazistas, os facistas de camisas verdes, os estupradores, o lumpen da humanidade, o lixo que vasa dos esgotos da civilização.

Essa, por assim dizer, natureza íntrinseca do homem pode ser encontrada em todas as épocas, desde os princípios até os nossos dias. Sempre fico em dúvidas quando lembro o episódio bíblico que tanto marcou minha infância: a decepção profunda de Moisés quando, ao descer do Monte Sinai com as tábuas da lei, encontrou aqueles judeus sambando ao som de um trio elétrico diabólico e embriagados diante de um bezzero de ouro.

Porque Deus, do alto da sua divina sabedoria, não escorraçou aqueles canalhas de volta para o Egito e o jugo dos faraós? Certamente, pensava a criança que um dia fui, porque Deus tem tanto amor pela sua criação que continuava esperançoso que esse poço de anomalias ainda pudesse, um dia, tomar o rumo certo.

2.

E, nesse trilhar de absurdos, lembro que mais recentemente o antropólogo Pierre Verger, francês que viveu e trabalhou por longos anos na Bahia, e deixou, entre suas muitas e preciosas contribuições, uma obra na qual, com rigor intelectual irreparável, registra em publicação dedicada a Fernand Braudel, e editada pela primeira vez na França em 1968, os cruéis crimes cometidos contra a humanidade: Fluxo e refluxo do tráfico de escravos entre o Golfo do Benin e a Bahia de Todos os Santos dos séculos XVII a XIX.

Esta obra de Pierre Verger prima por fazer um levantamento cuidadoso desse fluxo | refluxo de escravos entre a África e o Brasil e, ao meu ver, tem o mérito, dentre outros, de procurar corrigir um crime cometido pelo Estado brasileiro, com as digitais do baiano Rui Barbosa, permitindo destruir todos os documentos que registravam os crimes cometidos.

O faro de investigador criminal de Pierre Verger vai encontrar na cidade de Uidá, no Daomé, atual República Popular do Benin, os primeiros registros que não sucumbiram ao crime de lesa-memória cometido pelo advogado Rui Barbosa. E como, “mistério sempre há de pintar por aí”, foi assim que, diz Pierre Verger: “Encontrei, por acaso, um registro contendo 112 cópias de cartas enviadas no século passado por um negreiro chamado José Francisco dos Santos, o ‘Alfaiate’ apelidado assim em função da profissão que exercera na Bahia antes de se estabelecer na costa africana”.

E, continua Pierre Verger: “Estes documentos, redigidos com uma minúncia e frieza bem comerciais, desprovidos de quaisquer sentimentalismos, testemunham que esse homem remetia fardos (escravos) marcados a ferro, acima do umbigo ou sob o seio esquerdo, para seus fregueses da Bahia”.

Devemos, no entanto, com relação a essa prática comercial abominável, mirar mais longe para não esquecer, que só recentemente, foi “extinta” da face da terra. As aspas na palavra extinta servem para assinalar um eufemismo, atualmente em voga, de se falar em “condição análoga à escravidão”. Os eufemismos, sabemos bem, são esses contorcionismos que a linguagem permite para escamotar a verdade nua crua dos fatos. Muito embora Nietszche tenha dito que não existem fatos e só interpretações, sabemos também que ele, apesar da incontestável genialidade, morreu louco. E isto é um fato.

Pois bem! Toda vez que nos encontramos diante de fatos muito curiosos, fabulosos mesmo, dizemos que eles deveriam ser estudados pela Nasa. A Bahia é dessas coisas sobre as quais a Nasa deveria se debruçar. Se não vejamos: Ao lado de Rui Barbosas e de outros “alfaiates” aqui também brota gente como Muniz Sodré e Moniz Bandeira. Brota também poesia, cinema, artes visuais que engrandecem essa triste Bahia.

Ainda a propósito das contribuições de Pierre Verger, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira diz coisas surpreendentes sobre a escravidão. Comunista (militou na Polop), descendente de tradicionais famílias da aristocracia de Portugal e da Bahia – na Bahia até os comunistas são aristocratas –, Moniz Bandeira nos deixou uma vastíssima obra e, numa delas, Casa da Torre de Garcia d’Ávila: da conquista dos sertões à independência do Brasil, ele ensina as razões pelas quais devemos abordar com prudência um assunto que permanece vivo na história humana.

Moniz Bandeira, num resumo conciso, revela-nos: “O que aconteceu no processo de formação do Brasil não foi muito diverso do ocorrido na Europa, quando os romanos invadiram a Gália ou a Germânia, ou quando os bárbaros assolaram o Império Romano. Cumpre salientar também que não foram os portugueses que iniciaram a escravização dos africanos. Foram os próprios africanos, que, em tempos imemoriais, passaram a vender os africanos, capturados nas guerras, para a outra margem do Saara, do mar Vermelho ou do Índico. Esse tráfico recresceu com o advento do Islã, no século VII. E a escravatura, em muitas regiões da África, perdurou até o século XX. Só foi abolida em Serra Leoa em 1928, na Etiópia em 1942, e na Mauritânia em 1914 conquanto lá, assim como em outras regiões da África, ela camufladamente ainda subsista. Condenar, portanto, a conquista e a ocupação do Brasil, porque a colonização implicou o aniquilamento dos povos indígenas e a escravização dos africanos, é não compreender o processus que gerou a sociedade moderna”.

3.

Pois bem! Dizem por aí que assim caminha a humanidade. E não é de se duvidar que assim seja. Não há, no destino civilizatório dessa humanidade, progresso do modo como podemos falar do progresso das ciências naturais. De Galileu Galilei, passando por Isaac Newton até Einstein é fácil observar um progresso da Física.

Do mesmo modo se pensarmos em Gregor Mendel e em James Watson e Francis Crick, veremos que entre um e outros os saltos são fabulosos. Aqui há progresso. Mas, essa mesma humanidade, com sua estupidez congênita, continua exibindo sua brutal incapacidade de avanços no processo civilizatório.

O termo “progresso”, também aqui, deve ser lido com certa parcimônia. Com ele quero dizer que, no caso das ciências da natureza, há um crescente grau de complexidade na observação, leis e domínio na utilização dos recursos naturais disponíveis. Em linhas bem gerais o que estou dizendo é que não voltaremos ao modelo cosmológico de Ptolomeu que coloca a Terra no centro do universo.

Mas Hitlers, Trumps, Bolsonaros não estão extintos e, em tese, podem voltar a cometer atrocidades. No caso das ciências da natureza sabemos que este progresso é de tal modo avançado que, em muitos casos, ele estabelece novos paradigmas. Claro que estamos diante de temas que admitem multíplas interpretações. Mas, considerando os limites de um texto não acadêmico, devemos ser cautelosos na compreensão dos conceitos que aqui apresentados.

Assim sendo, sublinho que, perguntar o que fazer continua impondo sua atualidade e, nesse contexto, essa pergunta é a mesma que muitos, ainda hoje, continuam fazendo. Que fazer? Como mudar esse animal canalha, mentiroso, perverso, doente que chega aos mais altos cargos na estrutura dos Estados contemporâneos? Como é possível um Donald Trump, um Jair Bolsonaro, uma Giorgia Meloni? Qual palavra aplicar a esse retrocesso abjeto que esse lixo encarna?

Toda razão tem Norbert Elias quando diz: “Na verdade, somos impelidos pelo curso da história humana como os passageiros de um trem desgovernado, em disparada cada vez mais rápida, sem condutor e sem o menor controle por parte dos ocupantes. Ninguém sabe aonde a viagem nos levará ou quando virá a próxima colisão, nem tampouco o que pode ser feito para colocar o trem sob controle. Será que nossa capacidade de controlar nosso destino, como pessoas em sociedade, é tão insatisfatória assim, simplesmente por sentirmos tanta dificuldade em pensar no que há por trás das máscaras com que nos sufocamos, nascidas do desejo e do medo, e nos vermos como somos?”.

Devemos contudo lembrar os esforços para compreender esses desatinos. E não foram poucos! Podemos encontrar em obras seminais indicações rumo à compreensão desses fenômenos abismais. Da psicologia social à filosofia da história e passando pela sociologia temos obras que são marcos dessas procuras. O Mal estar na civilização de Freud, A Decadência do Ocidente de Oswald Spengler, A Rebelião das Massas de Ortega y Gasset, Massa e Poder de Elias Canetti e A Condição de Discípulo de Dietrich Bonhoeffer são eloquentes exemplos dessas buscas.

Entre esses nomes devemos por em relevo a obra e a vida do teólogo Dietrich Bonhoeffer que, durante o período nazista na Alemanha, teve um papel dramático. Bonhoeffer participou de uma das tentativas de eliminar Hitler e por isso pagou caro ao ser enforcado alguns meses antes do próprio Hitler ter dado cabo à própria vida. A obra de Bonhoeffer é uma elaborada indicação para compreendermos as razões desses desatinos alucinatórios que leva a humanidade a embarcar nesse trem descarrilhado a que Norberto Elias se refere.

E assim, atordoados, seguimos temerosos de uma catástrofe nuclear, de dias sombrios com chuvas ácidas dizimando milhões. Enquanto isso… façamos turismo, transbordemos de lixo o planeta, brinquemos os carnavais, decoremos nossas árvores de natal. Declaremos que a Bahia é a “terra da felicidade”, que amamos São Paulo, que São Paulo não pode parar de crescer, que o PIB deste ano será maior e no ano que vem ainda maior. Proclamemos o amor, a criança esperança, o botox distorcendo tua cara lavada, repleta de vãs ilusões.

Diante de tantas atrocidades e de perguntas que necessitamos fazer, e que certamentente ainda faremos, só nos resta, por agora, lembrar Dorival Caymmi e dizer para ela com todo carinho que esse mundo ainda permite: “Não pinte esse rosto que eu gosto | Que eu gosto e que é só meu | Marina, você já é bonita | Com o que Deus lhe deu…

*Otavio Almeida Filho é doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP.


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