A vitória de 8 de fevereiro

Christopher Richard Wynne Nevinson, Estudo para 'Retornar às trincheiras', 1914-15
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Por RENATO DAGNINO*

Muitos da esquerda, com razão preocupados com o enfrentamento do fascismo, subvalorizam a defesa e os atributos a ela associados.

Como um torcedor de esquerda de um jogo de futebol onde o nosso costumeiro adversário é o time da direita, o resultado de quinta-feira lavou minha alma das tantas derrotas que temos sofrido. Interna e internacionalmente bem financiado e, literalmente, armado, ele, há séculos, se prepara para nos derrotar.

O nosso ataque, que com explosão e potência faz gol, sofre as faltas mais perigosas e carimba as vitórias, e por isto é mais valorizada, foi brilhante.

Mas a defesa havia se preparado, com a “visão de jogo” que possui. Lembrem que são os jogadores da defesa, com sua resistência, os que aprendem a calibrar adequadamente o time para aproveitar a explosão do ataque. O que explica por que são eles que viram técnicos das nossas seleções. Apesar disso, muitos da esquerda, com razão preocupados com o enfrentamento do fascismo, subvalorizam a defesa e os atributos a ela associados.

Essa vitória, que mostra a importância de quem joga na defesa (com seu conhecimento dos adversários, visão de jogo, perspectiva estratégica), merece ser levada em conta. É o que se faz aqui trazendo-a para a análise das quatro modalidades em que nosso governo tem que disputar. Isto é, para avaliar corretamente como deve ser nossa preparação para mudar o placar geral das modalidades.

Para a modalidade “enfrentamento da direita fascista”, do jogo de 8 de fevereiro, que envolve explicitação e punição dos seus crimes, o combate à desinformação que ela promove, parece que a explosão (e o oportunismo a ela inerente) está sendo bem calibrada pela defesa com a reflexão e a resistência e que ela possui. A defesa vai preparando oportunidades de gol.

A vitória deu alívio e alento aos espectadores de esquerda. E, a julgar pela influência do PIG junto aos que votam na direita, somamos pontos no placar geral. E aumentamos a governabilidade; algo que no curto prazo é crucial para implantar nosso projeto político.

A segunda modalidade – “enfrentamento da direita cheirosa” – envolve a alteração do marco legal do Estado herdado na direção do Estado necessário. Processo que, ao contrário dos que difundem o mito das políticas de Estado, depende é da vontade e capacidade dos governos para ir reorientando as políticas públicas, está em marcha.

Aqui, o dissenso interno é um sintoma de que a esquerda está avançando. Mais do que na primeira, onde a evidente truculência do adversário coloca uma agenda de política quase consensual no curto prazo, aqui parecem estar faltando escuta, reflexão, discussão, debate, que amenizem a natural tendência reformista.

Destacando o horror que primeira modalidade está evidenciando, essa tendência ressalta que devemos acumular forças junto à direita cheirosa e mais civilizada com a qual estávamos acostumados a jogar. Ganha corpo uma falácia que diz que dada a correlação de forças que temos, o rebaixamento necessário da agenda política para cooptar setores da classe proprietária e a premência de agir fazendo o que é possível, não há porque perder tempo discutindo nosso projeto político.

Se nos livrarmos dessa falácia, não perdermos o “Sul” estratégico que nos deve orientar e discutirmos com mais rigor as alternativas possíveis, iremos concluir que não precisamos da direita cheirosa para vencer nas duas outras modalidades.

Na terceira modalidade – “enfrentamento do desatino da classe proprietária” – nossa vitória é permitir que a classe trabalhadora alcance o que conseguiu em campeonatos passados nas áreas social, econômica, ambiental, cultural. E que recupere, no médio prazo (se tivermos tempo para evitar o suicídio coletivo a que ela está levando a humanidade), o terreno ocupado pela classe proprietária depois do golpe de 2016.

Também aqui, aquela falácia tende a privilegiar o oportunismo do ataque explosivo à postura reflexiva da defesa. E a atrapalhar a concepção de políticas que superem a tendência reformista de enfrentar de modo pouco refletido e discutido, com receitas vindas do passado ou de contextos estranhos, os desafios presentes; e a desaproveitar oportunidades portadoras de futuro.

Aqui, é elucidativo o exemplo do que ocorre na submodalidade geração de trabalho e renda. O fato de que das mais de 140 milhões de pessoas em idade ativa apenas 37 têm carteira assinada, é um desafio! A oportunidade é a Economia Solidária (baseada na propriedade coletiva e na autogestão) que desponta em todo o mundo como alternativa à crise civilizatória suicida.

A defesa não está calibrando o ataque para que nosso time reflita e discuta sobre como devemos nos desenvolver. Estamos excluindo a reindustrialização solidária para concentrar o subsídio estatal alocado pela nova indústria Brasil nas mãos da mesma classe proprietária que desindustrializou o país em seu benefício.

A quarta e última modalidade – “construindo o futuro” – agrupa jogos que não são (ou até há pouco não eram) do interesse imediato da direita cheirosa ou da fascista. Por terem lugar em espaços de política onde os resultados só ocorrem no longo prazo, ou porque elas consideram que neles sempre ganharam, e podem seguir ganhando, aparecem brechas essenciais para construir o futuro.

É o caso da política cognitiva (de educação e de ciência e tecnologia), espaço onde a esquerda, para implantar seu projeto, deve mudar radicalmente sua visão. Desvencilhando-se do mito transideológico da neutralidade da tecnociência capitalista e, adotando processos de adequação sociotécnica em nossas instituições de ensino e pesquisa, as trabalhadoras e trabalhadores do conhecimento deverão reprojetá-la na direção da tecnociência solidária.

Temos imensas necessidades de bens e serviços coletivos, que para serem adequadamente satisfeitas exigem o equacionamento de complexas e originais demandas tecnocientíficas embutidas nesses bens e serviços. Elas são o fio da meada que perpassa, de trás para frente, que possamos vencer nas outras modalidades.

Uma política cognitiva solidária que destrave nosso potencial tecnocientífico subutilizado permitirá alavancar, com um nível aumentado de eficiência, eficácia e efetividade, as ações necessárias ao “enfrentamento do desatino da classe proprietária”.

À medida que soluções de hardware, orgware e software sociotecnicamente alinhados com os valores e interesses da Economia solidária forem se incorporando às nossas políticas públicas, ficará cada vez mais evidente que não precisamos da direita cheirosa para enfrentar a fascista.

Os milhões que passarão a participar da produção e do consumo solidários gerarão renda para evitar a armadilha socialdemocrata que tenta eficientizar o mercado e o Estado capitalistas para implantar políticas socializantes. E, crescendo em conscientização, mobilização, participação e empoderamento, eles serão a garantia da governabilidade que precisamos para que nosso projeto civilizatório seja exitoso.

*Renato Dagnino é professor titular no Departamento de Política Científica e Tecnológica da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Tecnociência Solidária, um manual estratégico (Lutas anticapital).


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