Por HOMERO VIZEU ARAÚJO*
Considerações sobre a peça teatral de Nelson Rodrigues
1.
Nelson Rodrigues desde os anos 1950 já reivindicava para si a disposição para o teatro desagradável, mas aqui o que proponho é examinar o teatro rodrigueano enquanto pesquisa e elaboração estética do abuso moral e sexual brasileiro, combinado à mercantilização e a certa noção religiosa.
Nesta análise de Os sete gatinhos (1958) o foco vai para o protagonista Noronha, na condição de um funcionário público de raso escalão que tenta promover uma religião de âmbito familiar, enquanto busca lucrar com o bordel de filhas, isto é, ele acumula funções de patriarca popular desautorizado, contínuo, vidente e talvez sacerdote, além de empreendedor do sexo de sua prole.
Do ponto de vista histórico, é possível avaliar o autor muito prestigiado como o mais certeiro colecionador de barbaridades brasileiras do pós-guerra. Isto é, enquanto o país embarcava, abusando um tanto da síntese, em um surto de modernização ao som de sambas ufanistas ou de harmonias bossanovistas, Nelson Rodrigues apostava em uma coleção de ressentimentos e punições a evocar boleros e samba-canção, com um resultado estético muito consistente, entre o cômico e o patético.
O dramaturgo explora o arbítrio cordial, as guinadas psicológicas e eróticas, o interesse mercantil deslavado e a submissão insinuante e interesseira, de preferência no âmbito carioca e suburbano, a célebre zona norte do Rio de Janeiro, cuja mitologia ele tratou de cultivar.
E sem muito esforço é possível transformar em manchete sensacionalista o que ocupará o palco: patriarca feroz deflora meninas, ameaça atacar a própria filha e é executado pela própria esposa é Álbum de família; Médico negro permite que os bebês mestiços sejam afogados por sua esposa branca é Anjo negro; Zulmira queria enterro de luxo, trai marido com milionário, mas o marido faz enterro pobre é A falecida etc.
Só estas sinopses ultra-esquemáticas já apontam um inventário de abusos patriarcais que oscilam com audácia entre registro cru, piada rebaixada e paixão altissonante. Talvez uma fórmula que mistura chanchada e pretensão trágica, levando o que seria o melodrama esperável para uma ambiciosa liga de humor e sordidez onde o vale tudo moral deixa os personagens ensanguentados e/ou em transe no desfecho das peças.
Mas cabe ressaltar a experimentação formal do autor, que dá testemunho da ambição artística a que não falta o sensacionalismo autopromocional. O historiador e crítico Decio de Almeida Prado, talvez o mais prestigiado e informado comentarista do teatro brasileiro, fez a síntese provocativa:
Se o autor de Vestido de Noiva, mais de quarenta anos após a estreia da peça, continua a parecer para maioria dos críticos e dos encenadores o mais atual dramaturgo brasileiro é certamente porque foi, entre todos, o que mais ousou, desafiando ao mesmo tempo a moral, a lógica e o decoro artístico. (PRADO, 2009, p.136)
2.
Veja-se a cena inicial de Os sete gatinhos (1958), que é a sequência da sedução entre Aurora e Bibelô. A funcionária de “autarquia”, que se prostitui depois do expediente, engrena a conversa com o belo e vulgar malandro, cujo nome tem a rima óbvia (para o público) com gigolô.
Deve ser, pelo ritmo da prosa e pelos efeitos retóricos, um dos mais extraordinários diálogos eróticos da literatura brasileira, em que o romantismo rebaixado ilumina o apelo erótico da cantada exuberante e congratulatória, associados às insinuações de prostituição e cafetinagem. Antecipando a sordidez do ambiente familiar supersticioso e venal do lar Noronha, Aurora enuncia o problema para Bibelô.
Bibelô – Diz: você quer tomar dinheiro de mim?
Aurora(sôfrega) – Quinhentos e pode chamar o táxi!
Bibelô (estrebucha) – Está de porre?
Aurora (desesperada de desejo) – Menos não posso!
Bibelô – Nem um tostão!
Aurora (quase chorando) – Escuta, gostei de ti e te digo mais: um terno branco, fresquinho da tinturaria, me põe maluca, doida! Mas eu preciso dos quinhentos cruzeiros. Preciso, ouviu? (suplicante) Tenho despesas fixas e prometi a mamãe. Palavra de honra: o dinheiro não é pra mim!
Bibelô – Minha filha, nunca dei um vintém a mulher nenhuma! Nem dou! (p. 139)
Aurora solicita o pagamento para surpresa de Bibelô, e a sequência do diálogo vai intensa e sem concessões por parte dele. O desfecho explicativo de Aurora é sensacional ao evocar desinteresse pecuniário e compromisso familiar: “Preciso, ouviu? Tenho despesas fixas e prometi a mamãe”. O vocabulário contábil/administrativo contrasta em inocência e sordidez com a obediência terna (mamãe), ou ainda, o profissionalismo técnico da meretriz renega e reforça o laço familiar. Com didatismo, Aurora explicará logo adiante a obsessão do clã pela pureza de Maninha/Silene, a irmã caçula.
Esta abertura – a que não falta algo de triunfal na síntese poderosa de bote sexual, meretrício altruísta e masculinidade canalha – é o único trecho da peça que não se passa na casa de subúrbio. O restante da ação tem por centro “Seu” Noronha, que ostenta sua autoridade ameaçada de patriarca humilhado.
A casa fica no Grajaú, na mítica zona norte carioca. Cercado pela mulher, a quem chama de “Gorda”, e pelas cinco filhas, Noronha fica consternado depois de encontrar palavrões e desenhos obscenos na parede do banheiro da casa e parte para o interrogatório violento e abjeto que desanda em confronto.
“Seu” noronha — Cachorra!
(“Seu” Noronha ergue a mão, coma se fosse esbofeteá-la. Mas a mão fica parada no ar.)
Arlete (em desafio) — Bate!
“Seu” noronha (ofegante) — Mas eu não devo bater.. Não tenho esse direito… Preciso me controlar.
(E, súbito, deflagra-se o impulso. Esbofeteia violentamente a filha. Arlete cambaleja.)
Hilda (num apelo histérico) — Papai!
(Já Arlete ergue o rosto duro.)
Arlete (como se cuspisse) — Contínuo!
“seu” noronha (atônito) — Repete!
Arlete (fremente) — Contínuo! (“Seu” Noronha dá-lhe nova bofetada.)
Arlete (estraçalhando as letras) — Contínuo, sim, contínuo! Eu disse contínuo!
(p.148)
Depois das acusações e ofensas à mulher e às filhas, vem a apoteose da humilhação em que a filha revida e registra a função do pai na assembleia legislativa, o que rende a bofetada por parte da autoridade desautorizada. A violência e o arbítrio do patriarca sem lastro deflagra a solidariedade soluçante da filha Hilda que enuncia piedade pelo pai e reivindica pateticamente respeito ou solidariedade, ou ainda talvez apenas omissão do termo (Não chame meu pai de contínuo!).
Na linha seguinte o próprio Noronha diz a palavra que o classifica e reconhece sua impotência. O ressentimento de “seu” Noronha com a sua condição social de funcionário servil é um ingrediente forte da obsessão coletiva pela virgindade caricatural da caçula Silene, que, de resto, já se encontra grávida. Em breve revela-se que o patriarca contínuo é vidente espírita/sacerdote, ou ainda um médium a acalentar um punhal que tem destino certo.
“Seu” noronha (triunfante) – O Dr. Barbosa Coutinho! (toma respiração) O Dr. Barbosa Coutinho, que morreu em 1872, é um espírito de luz! Foi médico de D. Pedro II e o melhor vocês não sabem: os versos de D. Pedro II não são de D. Pedro II. Quem escreveu a maioria foi o Dr. Barbosa Coutinho. D. Pedro II apenas assinava. (triunfante) Perceberam?
(Arlete faz um gesto a significar que o pai está maluco.)
“Seu” noronha – Vão ouvindo! (muda de tom) Eu sempre senti que havia alguém atrás de minha família, dia e noite. Alguém perdendo as nossas virgens! E como eu ia dizendo, ontem, o Dr. Barbosa Coutinho me confirmou que existe, sim, esse alguém. Alguém que muda de cara e de nome. Pode ser um rapaz bonito ou, então, um velho como o “seu” Saul.
Depois de algumas linhas entra em cena o punhal vingador.
Arlete (furiosa) – não dá peso, papai!
“Seu” noronha (sem ouvi-la) – E vocês tratem de atrair, de trazer para cá o homem que chora por um olho só. O nome não interessa. Ele se trai por uma lágrima. O que interessa é a lágrima.
Arlete – Até eu estou arrepiada!
“Seu” noronha – Eu avisei a vocês e vocês avisem a Aurora. Eu vi, no espelho antigo, vi, eu juro! E o Dr. Barbosa Coutinho não mente!
(“Seu” Noronha arranca um pequeno punhal de prata. Ergue o punhal, numa cruel alegria.)
“Seu” noronha — Meu punhal de prata!
(Crava-o numa mesa, ao lado. Vira-se para as filhas.) (p.150-1)
3.
O fetiche da arma branca soma-se à obsessão pela virgindade redentora para configurar, no conjunto da peça, uma piada macabra que todo mundo leva a sério. “Seu” Noronha é um médium que teve acesso à revelação de que suas filhas são mulheres que se perderam mediante a intervenção de uma entidade masculina, que também pode perverter Silene. Trata-se aqui de um trecho assombroso: a preleção delirante, paranoica e paródica, com a autoridade que lhe é conferida pelo espiritismo aqui rebaixado a autoengano compensatório, tem uma inquietante dignidade, embora também possa ser avaliada em chave satírica.
Mas vale a pena notar que espiritismo também é sinal de audácia do autor, pois não há, até onde sei, nenhuma narrativa relevante consagrada ao tema na literatura brasileira. Assim como a religiosidade popular de candomblé, umbanda, entre outros cultos, com a exceção poderosa mas às vezes pitoresca de Jorge Amado, não comparece em contos, romances, dramas e nem em comédias, o que é uma ausência espantosa a conotar o elitismo satisfeito de nossa imaginação ficcional. Uma ausência espantosa e naturalizada que evitou frivolamente uma imensa faixa da vida emocional e espiritual brasileira.
Com esta sagração do punhal vingador já no primeiro ato, é possível acompanhar os dois atos restantes de Os sete gatinhos como um ritual desconcertante e genial a celebrar a pureza virginal (e emprenhada?) em um bordel de filhas sob a autoridade do médium e sacerdote “Seu” Noronha assessorado pela humilhada e inolvidável Aracy/Gorda.
Na investigação policialesca e insana atrás do pernicioso que perde as moças do lar no Grajaú, este patriarca contínuo acumula o papel de Édipo que pesquisa os indícios que revelarão sua própria culpa, o que não deixa de ser mais um achado poderoso a definir contornos trágicos e religiosos nesta saga de rancor e ressentimento do pé-rapado fanatizado. Mas isso não é tudo, o patriarca edipiano organiza também o empreendimento referido por Aurora, com conivência de Dona Gorda/Aracy.
A cena inicial com Aurora exigindo pagamento de um sarcástico Bibelô estabelece uma pauta (Tenho custos fixos etc) que vai se tornar explícita depois do colapso da promessa em torno do enxoval da ex-virgem. Depois que o bordel vira procedimento explícito, o apelo mercantil torna-se doméstico, o que vai levar à crise das forças produtivas/filhas, que acusarão seu Noronha de exploração abusiva. O contrato informal estava protegido pela cláusula de acúmulo no fundo a favor do enxoval, a qual torna-se inválida pela gravidez de Silene; do que decorre, na aposta ousada de seu Noronha, o escancaramento do meretrício.
A carência de autoridade, que leva à bofetada e a ofensas generalizadas, não põe em risco o eventual autoritarismo de “Seu” Noronha, uma vez que D. Aracy e suas filhas compartilham a devoção pelo casamento de Silene, cuja pureza é a garantia de que a família necessita. As vítimas algozes aqui oscilam talvez entre insurreição pontual e adesão à ideia fixa de pureza com apoteose matrimonial, entre birra tática e aliança estratégica.
A prostituição clandestina das moças abastece o fluxo de caixa que permitirá a aquisição do enxoval de Silene. Mãe e filhas degradadas podem assim apelar para a compensação social e imaginária da cerimônia luxuosa em que o esforço mercantil e repugnante vai ser redimido. Nestes termos, há conivência malsã entre as mulheres e este pai de família em crise, o que vai engendrar algum vaivém de arranjo e conflito.
O poder do pai de família desautorizado depende, literalmente, da possessão e do transe, da sua condição de vidente infame que, saberemos, encaminha clientes para as próprias filhas. A abertura do terceiro ato, com a sessão em que Hilda é possuída pelo primo Alípio é mais um lance desconcertante entre cômico e patético, com os arrancos do primo morto e antipático a ditar as supostas verdades, inclusive a pista que leva a Bibelô, o ex-militar malandro, agora homem vestido de virgem.
4.
(Começa o terceiro ato com uma sessão em casa do “seu” Noronha. Presentes: o velho, D. Aracy, as filhas, menos Silene que está encerrada em seu quarto. Hilda é o médium. Acaba de receber o primo Alípio, falecido recentemente. Hilda anda pelo palco em largas e viris passadas; arqueja e funga; dá gritos medonhos; voz masculina.)
D. Aracy – Pergunta se o homem vem aqui e quando?
“Seu” Noronha (baixo, para a mulher) – O diabo é que foi receber logo o primo Alípio, que não se dava comigo… (novo tom, humilde) Irmão, ele vem aqui?
(Hilda dá pulos tremendos.)
Hilda – Velho safado! Você quer matar um homem!
Arlete – O primo não quer nada com a gente!
“Seu” Noronha (para Arlete) – Não se meta!
(De vez em quando, nos seus arrancos de espírito ainda não evoluído, Hilda tem de ser subjugada.)
D. Aracy (a um arranco maior) –- Segura! Segura!
(Hilda, dominada, esperneia em vão.)
Hilda (com voz masculina e ofegante) – Velho assassino!
“Seu” Noronha (na sua humildade) – Irmão, esse homem ofendeu minha moral! Desgraçou minhas filhas!
Hilda – Tuas filhas são umas sem-vergonhas! Vivem pegando homem!
“Seu” Noronha (sôfrego) – Mas o homem chora por um olho só!
Hilda – Você está marcado!
Seja como for, a graça daninha se abastece decisivamente da duplicidade crucial da prostituição encoberta por empregos fixos, com a conivência fundamental da humilhada Dona Aracy/Gorda, que acumula as funções de mãe e cafetina. O problema vai se agravar quando “seu” Noronha tornar público o que era um segredo privado, ocorrendo, no desfecho violento, a revelação de que ele também era não só conivente, mas também patrocinador da oferta das filhas.
O vidente de punhal assassino chega a ser um sacerdote de cunho rebaixado cuja tarefa mais evidente é matar o homem responsável pela perdição das mulheres da casa, perdição que ele, Noronha, dispõe-se a explorar abertamente, mas que já patrocinava na surdina. Os diálogos finais revelam a pertinácia do empreendedor de álibi moralista.
Arlete (crescendo para o pai) – Assassino!
(As filhas avançam para o pai, que recua.)
“Seu” Noronha (já apertado pelo medo) – Mas ele merecia morrer, porque prostituiu Silene!
Arlete (histérica) – Mentira! Quem prostituiu Silene foi você!
“Seu” Noronha – Juro!
Arlete (agarrando-o) – Mandou o gringo e, depois, o médico! (para as outras) Vocês! Ouçam o que eu nunca disse, o que eu escondia para mim mesma.(violenta para o pai) Velho! Você mandou um deputado me procurar!
“Seu” Noronha (desesperado) – Não acreditem!
Arlete – O deputado me disse: “foi seu pai”
“Seu” Noronha (num apelo para D. Aracy) – Gorda, minhas filhas querem me destruir!
D. Aracy (fora de si) – Não me chama de Gorda! Não quero que me chamem de Gorda!
Arlete (berrando) – Responde: eras tu que mandavas os velhos para as outras?
O patriarca mantém também a duplicidade de devoto do hímen de Silene e de cafetão nem tão discreto das demais filhas. Ou melhor, até o diagnóstico da gravidez de Silene, a duplicidade era uma, para daí em diante tornar-se outra: o contraste inicial era entre o humilhado contínuo que humilhava a mulher e oprimia as filhas, tudo sob o pacto do fetiche virginal; depois disso permanece a humilhação mas agora a família está unida na caça ao homem que chora por um olho só, e o médium delirante Noronha e seu punhal lideram a busca deflagrada por mensagens do Além (Barbosa Coutinho, Pedro II, etc.), que foram reforçadas pelas fala comprometedora da filha Hilda em transe, porque ela também é médium.
Sendo assim, a articulação desconcertante entre contínuo humilhado e patriarca humilhante, mas com mística moralista redentora, vai se deslocar, uma vez revelada a gravidez da caçula, para a duplicidade de médium armado de faca e empreendedor sexual doméstico. Ora, as ameaças espíritas de primo Alípio evocam o que está insinuado a muito: o médium Noronha vai topar com mais uma guinada em que ele próprio é o criminoso profetizado, o homem que perde as filhas no lar do Grajaú.
O razoavelmente pacato contínuo agora se revigora na condição de líder na caça do homem que corrompe as mulheres da família, que, numa coincidência melodramática entre barata e irônica, vem a ser Bibelô, o malandro sedutor. Mas vale notar que a combinação e contraste entre metafísica espírita e obsessão sexual incestuosa rende uma tensão que até então – salvo engano – não irrompera assim na literatura brasileira até os anos 1970. Aqui o ritual religioso conjuga-se à piada rebaixada, intenções vingativas, superstição doméstica, etc.
5.
Retornando ao quadro esboçado no início deste texto, em 1958 estes gatinhos encontram-se no miolo das pretensões desenvolvimentistas com JK. O presidente bossa-nova no poder, Brasília em construção, poesia concreta propondo rupturas, enfim, há um museu de novidades se impondo, em um surto democrático que tinha algo de frenético e indulgente.
No campo específico do teatro o debate era incisivo e pode-se dizer que é nesta quadra que a tradição dramatúrgica brasileira se reconfigura. Mais que isso, é possível que aqui se definam as marcas de uma tradição moderna do teatro brasileiro, que provém da segunda metade dos anos 1950 e vai bater de frente com o bloqueio de 1964.
Em outros termos, trata-se do teatro que debateu e conviveu com o nacional-desenvolvimentismo, suas promessas e impasses, tendendo a elaborar personagens pobres e populares. Autores como Gianfrancesco Guarnieri, Dias Gomes e Ariano Suassuna estavam explorando novos temas e linguagens, com ambição estética e impacto junto ao público.
A rigor, nossa tradição teatral moderna, talvez mesmo a tradição que restou, passa quase toda por aí. Do Auto da compadecida, de Suassuna, a Eles não usam Black-tie, de Guarnieri, até O pagador de promessas, temos um conjunto de peças que tratam de o que fazer com os pobres brasileiros, como registrar suas demandas, etc., além de darem resposta estética à questão de como representá-los no palco.
O teatro rodrigueano vai no sentido contrário, isto é, reivindica a peculiaridade nacional para explorar situações de drama e comédia em quadro de certo confinamento avacalhante, com obsessões e ideias fixas engrenadas com guinadas arbitrárias e delirantes, no âmbito sexualizado de famílias degradadas.
Em Os sete gatinhos, 1958, no entanto, é possível examinar esta receita em termos de resposta ao herói nacional e popular do momento: o humilde contínuo Seu Noronha emergiria como a versão sarcástica das boas intenções nacionalistas, na condição de pobre brasileiro humilhado e humilhante em transe, oscilando entre sacerdote do culto da pureza familiar a vidente assassino, embora também empreendedor da atividade sexual das próprias filhas.
No desfecho da peça, depois do assassinato (sacrifício?) do malandro Bibelô, as filhas e Dona Aracy vão à forra e dominam o patriarca e cafetão encurralado, cujo punhal mudou para mãos femininas e vingativas. As mulheres assumem ares de Erínias ou bacantes que vão destruir o patriarca atroz do Grajaú. Seu Noronha alcança seu destino mítico e prosaico, num desfecho que pode ser lido como uma ambígua celebração feminina e também como rito punitivo.
*Homero Vizeu Araújo é professor titular de literatura brasileira na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Autor, entre outros livros de Futuro pifado na literatura brasileira (Editora da UFRGS).
Referência

Nelson Rodrigues. Os sete gatinhos. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2004, 112 págs. [https://amzn.to/471I41k]
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