Silvio Tendler (1950-2025)

Silvio Tendler (1950-2025)
image_pdf

Por INÁCIO ARAUJO*

Considerações sobre a obra do cineasta e documentarista, recém-falecido

1.

Silvio Tendler foi um cineasta das passagens. Das passagens da história e de seu movimento contínuo. Seu primeiro filme, assim que chegou do exílio na França, foi uma reconstituição do governo de Juscelino Kubitschek. Os anos JK – uma trajetória política contrapunha um Brasil bem-humorado e sonhador, além de democrático, à sisudez que se vivia no período militar, quando o filme foi lançado, em 1981.

Os militares estavam deixando o poder em 1984, quando Silvio Tendler lançou Jango. Também trabalhando com material de arquivo, remontou a imagem do último presidente antes do golpe, João Goulart. Os arquivos da época não eram tão ricos como os de hoje, mas Silvio Tendler sabia trabalhá-los. Era tão artista quanto militante. Seus filmes empolgavam uma plateia que aspirava se ver livre da ditadura pela evocação do que tinham sido os velhos tempos.

Esses velhos tempos coincidem com a infância e início da adolescência do cineasta, nascido em 1950. Ainda adolescente, começou em 1965 a fazer parte do movimento cineclubista do Rio de Janeiro. A cultura já era um refúgio contra os movimentos autoritários, e desde então Silvio Tendler foi um militante de esquerda.

Em 1970 foi para o Chile, entusiasmado pela vitória da esquerda que levou Salvador Allende à Presidência. Dois anos depois, decidiu dar sequência a seus estudos em cinema na França. Ali esteve ligado a alguns dos nomes-chave do documentarismo moderno, como Jean Rouch.

Na França, deu sequência à sua ligação com o documentário, integrou um coletivo formado, entre outros, por Chris Marker e Armand Mattelard. Desse grupo surgiu o filme La Spirale, de 1975, radiografia do golpe de Estado do Chile e um dos documentários mais influentes daquela década.

Silvio Tendler aproveitou a ocasião para aprofundar seus estudos de história na Universidade Paris 7, no coração de uma Paris ainda sublevada, onde trabalhou com Pierre Vidal-Naquet. Na hoje École des Hautes Etudes en Sciences Sociales, fez seu mestrado no célebre seminário “Cinema e história”, de Marc Ferro, tomando por tema o trabalho do documentarista holandês Joris Ivens.

2.

Nada surpreendente, portanto, que, voltando ao Brasil, em 1976, ele tenha se dedicado ao documentário e a desenvolver uma obra ligada ao desejo de democracia. Era uma época de frente única contra a ditadura e não espanta que, como homem de esquerda, Silvio Tendler tenha buscado personagens que foram ícones da era democrática, como Juscelino e Jango.

A história se movia, e Silvio Tendler a acompanhava. Dedicou documentários a Josué de Castro, autor, entre outros, do clássico estudo Geografia da fome, a Castro Alves, o poeta da Abolição, ao geógrafo Milton Santos e ao revolucionário Carlos Marighella.

Em 2011, completou a trilogia dedicada aos vultos políticos da era pré-ditadura com o documentário Tancredo, a travessia, dedicado a Tancredo Neves, que foi ministro de Getúlio Vargas e conviveu com a ditadura até ser eleito presidente da República de forma indireta – cargo que não chegaria a assumir.

Um ano antes, Silvio Tendler lançou a versão mais completa de Utopia e barbárie“, afresco da segunda metade do século XX. Não foi tanto a perspectiva política, de esquerda sempre, que tornou a recepção ao filme mais morna, mas a natureza do trabalho. Silvio Tendler era um documentarista autor, cujos filmes giravam em torno de suas crenças e opiniões. O documentário já estava na era da escuta, na era Eduardo Coutinho.

Silvio Tendler já enfrentava problemas de saúde e continuava a se dedicar ao ensino, como fizera desde o final dos anos 1970. O século XXI foi também o tempo de receber muitas homenagens, oficiais ou não, no Brasil e fora dele.

No entanto, Silvio Tendler não abandonou a militância do documentário. Trabalhou ainda na série Trilogia da Terra, terminada em 2014, composta por médias-metragens, dois deles com o título de O veneno está na mesa. Os três constituem uma enfática defesa da agricultura familiar e um não menos forte ataque ao uso de agrotóxicos na produção de alimentos, prática atribuída aos grandes produtores rurais.

Do início ao fim, Silvio Tendler foi um importantíssimo documentador das várias transformações sociais e políticas do país. Mais do que isso, foi fiel à esquerda, sem dúvida, ideologia com a qual interpretou o Brasil e a história em seus filmes.

*Inácio Araujo é crítico de cinema e escritor. Autor, entre outros livros, de Cinema: o mundo em movimento (Scipione).

Publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo.


A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
CONTRIBUA

Veja todos artigos de

MAIS LIDOS NOS ÚLTIMOS 7 DIAS

1
Em defesa das bibliotecárias e bibliotecários
12 Mar 2026 Por FELIPE SANCHES: As bibliotecas estão atravessadas pela política e, se negarmos seu papel político, fechamos os olhos ao seu papel estratégico no desenvolvimento cultural, educacional, científico e econômico do Brasil
2
Lévi-Strauss
06 Mar 2026 Por AFRÂNIO CATANI: Comentário sobre a biografia do antropólogo realizada por Emmanuelle Loyer
3
Erro de cálculo?
07 Mar 2026 Por PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.: A resistência do Irã e a coesão interna do país só aumentaram com a decisão realmente estúpida, tomada por Estados Unidos e Israel, de assassinar o aiatolá Ali Khamenei
4
Fim da guerra no Irã?
11 Mar 2026 Por LISZT VIEIRA: A guerra revelou que força militar sem estratégia política cobra um preço alto, e quem controla a escalada controla também o desfecho
5
Marx, a técnica e o fetichismo tecnológico
07 Mar 2026 Por ANTONIO VALVERDE: Artigo da coletânea recém-lançada “Figuras do marxismo”.
6
Daniel Vorcaro e o "novo capitalismo" brasileiro
10 Mar 2026 Por JALDES MENESES: O novo capitalismo brasileiro forja um Estado Predador onde o rentismo digital, o crime organizado e a política se fundem numa aliança que corrói o pacto de 1988
7
Trabalho e desenvolvimento no Brasil
07 Mar 2026 Por FLORESTAN FERNANDES: Texto da arguição da tese de livre-docência de Luiz Pereira
8
O coturno no pátio
09 Mar 2026 Por JOSÉ CASTILHO MARQUES NETO: O silêncio imposto pelo coturno nos pátios escolares não educa, apenas endurece o solo onde a liberdade e o pensamento crítico deveriam florescer
9
Marx e Engels – Entrevistas
08 Mar 2026 Por MURILLO VAN DER LAAN: Apresentação do livro recém-editado
10
O STF está validando a fraude trabalhista
03 Mar 2026 Por DURVAL SIQUEIRA SOBRAL: Ao legitimar a pejotização, o sistema jurídico reconfigura o trabalho como negócio e não como relação social
11
Uma batalha depois da outra
11 Mar 2026 Por WALNICE NOGUEIRA GALVÃO: Considerações sobre o filme de Paul Thomas Anderson, em exibição nos cinemas
12
O cinema revela Jeffrey Epstein
05 Mar 2026 Por EUGÊNIO BUCCI: Para entender Epstein, a lição dos filmes que expõem a orgia dos poderosos
13
Europa: 50 países em busca de um continente
06 Mar 2026 Por FLAVIO AGUIAR: Do Concerto Europeu ao silêncio obsequioso, a longa agonia de um continente
14
Nota sobre a capacidade estatística do PIB
09 Mar 2026 Por MARCIO POCHMANN: O PIB, bússola do século XX, já não captura sozinho a complexidade da economia financeirizada, digital, do cuidado e ambiental
15
Cenários para o fim da terceira guerra do Golfo
06 Mar 2026 Por ANDREW KORYBKO: Entre a rendição estratégica e a balcanização, o futuro incerto do Irã no tabuleiro do Golfo
Veja todos artigos de

PESQUISAR

Pesquisar

TEMAS

NOVAS PUBLICAÇÕES