Nossos mortos

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Por ANDRÉ RODRIGUES & ANDRÉS DEL RÍO*

O governo encontrou na pandemia mais uma oportunidade de aumentar a morte seletiva, racial e territorial

A ex-atriz, ex-secretária e viúva efêmera da ditadura, Regina Duarte, teve tremores nervosos, ao vivo, em entrevista à CNN[i], porque sabia que a ela cabe o esquecimento, destino pior que a morte. Ela sabia também que nós não deixaremos de lembrar dos nossos mortos, tarefa fundamental dos que lutam pela vida. Falar do bolsonarismo, de seu fascismo encampado pelos militares novamente no poder, é falar de morte, das mortes que ele deseja, das mortes que ele perpetra. E que não esqueceremos.

No dia em que o Brasil atingiu a triste marca de 20 mil mortes pela covid-19, Bolsonaro brincou em uma transmissão ao vivo no Facebook dizendo que “quem é de direita toma cloroquina e quem é de esquerda, toma… tubaína”[ii]. Escárnio, puro e simples. Pasto para cevar sua rede de seguidores, reais e virtuais, que se alimentam do fanatismo e da falta de respeito pela vida alheia, principalmente, pela vida de quem não tem a pele branca.

No dia em que o Brasil atingiu 30 mil mortos pela pandemia, Bolsonaro se reencontrou com seu velho desejo não realizado em 1999[iii], e declarou: “Eu lamento todos os mortos, mas é o destino de todo mundo”[iv]. Mas além das manifestações incendiárias, a morte é uma oportunidade governamental, como foi indicado pelo genocida da floresta, o ministro Salles e seu slogan oficial: “passar da boiada”[v]. Até os legisladores de forma virtual fizeram um minuto de silencio[vi].

Na semana em que o Brasil alcançou o número de 40.000 mortes, Bolsonaro seguiu sua linha de escárnio em relação à crise global que passa a ter o Brasil como epicentro mundial da doença. Na semana em que passamos as 50.000 mortes, foi o mesmo. Não há nada que se esperar de distinto de um governo que possui um sério compromisso com a morte. A gargalhada da hiena diante das milhares de mortes solitárias, por asfixia, sem velório, sem direito a lagrimas. Trazendo a experiencia da letalidade militar ao Ministério de Saúde, as três últimas políticas públicas do governo para combater o covid-19 foram: a) mudar o horário de divulgação dos dados, depois dos telejornais, antes era às 17hs, e passou para as 22hs[vii]; b) ocultar os dados, e não divulgar a informação dia a dia, mudando até a forma de computar[viii]; c) ampliar o protocolo sobre o uso da cloroquina. Obrigado pelo judiciário a retornar aos padrões anteriores de divulgação dos dados, o Ministério da Saúde, sob intervenção militar, recorreu às técnicas de design para manter o que for possível de seu desejo de apagamento e falsificação da história: o número acumulado de mortes pela covid-19 aparece na página com o menor tamanho de fonte do quadro. É um recurso tão ridículo quanto cruel. Uma política que expõe um Brasil genocida ao mundo todo.

A postura de Bolsonaro choca, mas a atitude de choque, o polemismo tosco é justamente sua ferramenta de produção de sentidos. Ele fala para suas redes virtuais e as visões de mundo que delas se alimentam. Ele fala para macholas, covardões, sociopatas, escondidos atrás das telas e das teclas. A postura alucinada de Bolsonaro é material para a sua estratégia de comunicação. O resto do trabalho é operado por suas milícias digitais.

Na semana dos 20 mil mortos, uma horda de perfis virtuais no Twitter passou a compartilhar em massa uma mensagem padrão: “Não conheço um eleitor do Bolsonaro que esteja arrependido, pelo contrário, já iniciamos a campanha pra 2022. É o melhor presidente de todos os tempos!”. As ferramentas dessas redes virtuais para o controle de propagação desse tipo de conteúdo de manipulação de massas não é suficiente. Não há como denunciar, um a um, essa infinidade de perfis. O judiciário, alvo frequente de ataques dessas redes virtuais de mentiras e desinformação, move ação em curso contra aqueles apoiadores do governo que seriam articuladores dessas redes[ix].

Essa usina de produção de conteúdo de comunicação em massa, sem qualquer regulação, ataca em todas as frentes do fascismo governamental. No WhatsApp, esses produtos de comunicação se alastram com uma capilaridade extraordinária. A produção de uma realidade com sinais trocados, como a retórica governamental que insiste em apagar as mortes pela pandemia, encontra nessas ferramentas informacionais um elemento fundamental.

Um de nossos contatos, nos envia, diariamente, uma verdadeira enxurrada de postagens que desafiam a lógica, a empatia e a saúde mental de quem ainda a possui, mas seduz e modula opiniões de adesão cega a tudo o que o fascismo bolsonarista propõe. É uma mistura de: vídeos de pessoas baleadas e mortas pela polícia; memes de cristianismo bélico; mensagens racistas e contra as identidades sexuais e de gênero; manifestos contra o saber científico; slogans anticomunistas em que tudo o que não é o fascismo bolsonarista ou aliança de ocasião é comunismo; pornografia; e pequenos textos, apócrifos ou assinados por figuras obscuras, ou, ainda, atribuídos falsamente a intelectuais renomados, que se enunciam como reveladores da VERDADE, sempre em caixa alta. Tudo é escatológico, tosco, odioso, idêntico ao espírito doentio dos que são feitos do mesmo barro e se satisfazem do outro lado das telas e teclas. O pior de nós formatado para o WhatsApp.

Em uma dessas mensagens, há uma obra de propaganda da política de saúde do governo miliciano-militar. Transcrevemos:


SORRIA, VOCÊ FOI ENGANADO

OMS COMEÇA A RECONHECER O SEU ERRO E O DR OSMAR TERRA ESTAVA CERTO DESDE O INICIO. NÃO TEM NADA DE CIENTIFICO NO ISOLAMENTO. E O REMÉDIO DITO POR BOLSONARO CUSTARIA MENOS DE R$1,00 E SEM INTERNAÇÃO, SEM RESPIRADORES CHINESES CARÍSSIMOS E SEM CONSTRUIR HOSPITAIS MILIONÁRIOS!

FOMOS TODOS ENGANADOS!!!
E AGORA STF?
E AGORA GOVERNADORES?
E AGORA PREFEITOS?
LEIAM ESSE TEXTO:

Após gritarem “CIÊNCIA” sem parar, as autoridades da saúde nos impuseram o isolamento horizontal, na esperança de fazer um suposto “achatamento da curva” de contágio.

Inocentes (e burros) que somos, acatamos bovinamente as instruções da OMS, alguns até se tornaram belicosos na defesa da tal instituição “científica”.
O que se percebeu na sequência é que na verdade o confinamento AUMENTOU OS VETORES DE CONTAMINAÇÃO, como a OMS começa a admitir agora.
A Verdade meus caros, é que o confinamento que quebrou a economia do país não foi uma medida “científica”, como o IDIOTA DO SEU AMIGO MÉDICO ficou falando pra você com ar de superioridade, foi apenas uma sugestão vindo da China e endossada pela OMS, sem nenhum estudo preliminar que justificasse a sua aplicação.
Nós todos FOMOS COBAIAS DE UM EXPERIMENTO CHINÊS, e agora que os resultados desse experimento vem se traduzindo em números , descobrimos que o Dr Osmar Terra estava certo o tempo todo, enquanto GRITAVA sozinho que o confinamento aumentaria a velocidade de contágio e que essa história de “achatar curva” era uma invencionice ridícula.

Seus inimigos Gritam:
– “DEMOCRACIA”, enquanto te impõem a ditadura;
– Gritam “Ciência” enquanto te impõem a MENTIRA;
– Gritam “maisAmor” enquanto tentam te EXTERMINAR… e você acredita, TODAS AS VEZES, de novo e de novo!!

A verdade é que a hidroxicloroquina já foi usada em 2002 , para combater exatamente o SARS, veja só…não era exatamente o covid-19 mas era um CORONA VÍRUS também, então pq ninguém associou o tratamento que já se conhecia contra o SARS.
Será que 2002 está tão longe enterrada no passado que mais nenhum “cientista” se recorda?
A comunidade científica, em parte foi BURRA e em parte foi pilantra mesmo, pq a hidroxicloroquina está com a patente vencida e qualquer um com uma licença da Anvisa pode produzi-la com custos baixíssimos, então como iriam lucrar com a “pandemia”?
Quiseram ganhar tempo tentando inventar alguma “cura” nova, que pudesse ser patenteada e monetizada, enquanto escondiam a hodroxicloriquina.
Até mesmo o GOOGLE ajudou a esconder, e você só encontra relatos do uso da cloroquina em 2002 se trapacear o google e digitar o nome de fantasia da droga.

E o seu Governador?
Qual é a dele??

Ele sabe que a hidroxicloroquina custa 1 real e o paciente pode ser tratado em casa, com 100 % dos casos tratados nos primeiros sintomas dispensando UTI e respiradores. Mas pra que perder a chance de construir leitos e hospitais de centenas de milhões de reais?
Pra que investir em comprimidos de 1 real se posso investir em respiradores que custam 150 mil por pessoa?
E Vamos comprar de quem?? da China??
Seus governadores são Genocidas, parte da comunidade científica é genocida, a China é genocida e a OMS é genocida.
Sim, somos trouxas, fomos trouxas e sempre seremos trouxas… até que você decida dar um basta nisso.
Dessa Vez a obstinação do Bolsonaro nos salvou…pena que para alguns foi tarde demais.
Faça como eu copie e cole, essa mensagem não pode parar!


Essa mensagem, provavelmente, extraída de conteúdo análogo que é reproduzido pelas redes trumpistas, expressa, em resumo: tudo não passa de uma conspiração da China comunista, apoiada por governadores comunistas; quem discorda é inocente ou idiota; e a cloroquina é o remédio barato e milagroso que tornaria possível contrariar todas as políticas praticadas pelas autoridades sanitárias e a ciência médica mundial; o problema não é nosso, é tudo culpa de um inimigo externo permanente; tudo com abuso de linguagem pedestre e caixa alta. A cartilha básica da comunicação fascista em poucos caracteres, enviada e replicada por perfis falsos que contagiam perfis e consciências reais. A lógica dessa ferramenta de comunicação é viral. Se espalha por surtos, buscando, por ciclos epidêmicos, se consolidar como modulador endêmico do real.

Os frutos desse projeto perverso são colhidos pelo autoritarismo miliciano e militar que avança nas estruturas dos poderes estaduais e federal. Depois da gestão de transição do ministro Teich para o estabelecimento do Ministério (Militar) da Saúde, forçou a mudança do protocolo para o uso da cloroquina, permitindo a sua utilização mesmo para casos menos graves ou quadros iniciais da doença, incluindo crianças e gestantes[x]. Justificando, assim, o projeto já em andamento no qual o Exército já vinha produzindo cloroquina em massa, contrariando os preceitos da administração pública, pelo gasto injustificado de recurso público, e do saber científico, já que estudos clínicos indicam que o medicamento não funciona e seus efeitos colaterais seriam um risco a mais para o agravamento de quadros clínicos da doença[xi]. Lembremos que a aceitação da ilusão em formato medicamento não só vem da produção das próprias forças militares, mas também do exterior. Os Estados Unidos anunciaram o envio de 2 milhões de pílulas de cloroquina para o Brasil[xii], isso depois do Centro de Controle de Doenças daquele país ter recuado em relação ao uso do medicamento[xiii]. Com amigos assim, não precisamos de inimigos.

A cartilha do fascismo genocida e eugenista empregado agora no contexto da pandemia, sob a panaceia de uma republiqueta da cloroquina, já estava escrita no modo pelo qual as polícias estaduais e as milícias associadas a governos e comandos policiais operam o extermínio de jovens negros e periféricos. O contexto dos homicídios de jovens negros e indígenas nos interiores e nas cidades brasileiras pode parecer outro assunto, mas está em uma relação de plena continuidade com a cruzada pela cloroquina travada agora na agenda da saúde. Biopolítica, estado de exceção, banalidade do mal, necropolítica, a bibliografia do pensamento crítico é farta em designações para os métodos do fascismo contemporâneo. Bolsonaro, seus capachos civis, e os militares de seu governo sabem que aqueles que morrerão em sua maioria são os mesmos que as polícias e milícias eliminam Brasil afora.

Enquanto o governo federal se ocupa de garantir que o Brasil seja um dos países do mundo com maior impacto da pandemia, as polícias e milícias seguem fazendo seu trabalho nos estados. Diversos eventos recentes fazem que, sob o torpor da tragédia sanitária, tenhamos urgência em lembrar dos mortos pelas políticas de segurança pública (incluídas nessa expressão as ações milicianas, que tanto nós quanto outros autores defendem que estão associadas com as políticas oficiais e não em contradição com elas).

Uma operação policial no Complexo do Alemão, na sexta-feira, 15 de maio, deixou 12 mortos[xiv]. Fontes dos movimentos sociais locais, apontam 13 mortos. Uma chacina cometida em uma operação policial. Não se tratou obviamente, de um confronto. Este número de mortos não podem ser consideradas mortes acidentais ou por legítima defesa por injusta agressão sob qualquer parâmetro aceitável de policiamento. Uma carnificina que se repete há décadas. Sem preservação de cena do crime, sem qualquer possibilidade de um trabalho investigativo para a punição de crime por parte dos policiais. Eles são os juízes e executores, acobertados por um sistema que sustenta, na prática, a lógica do excludente de ilicitude e torna os policiais em um poder acima das instituições e da cidadania alheia. Esse contexto, em termos técnicos, torna o trabalho policial uma força criminosa e autoritária, ilegal e tirânica, instrumento de base do fascismo no qual estamos mergulhando agora em nível federal.

Na segunda-feira, 18 de maio, o menino João Pedro Matos Pinto, de apenas 14 anos, foi morto a tiros em casa, durante operação conjunta da Polícia Federal e da Polícia Civil, no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo. João foi retirado do local do crime e levado por um helicóptero do Corpo de Bombeiros, sob a alegação de necessidade de prestação de socorro à vítima. Mas João Pedro não chegou a ser levado a um hospital e sua família, depois de uma busca dolorosa, localizou seu corpo no Instituto Médico Legal de Tribobó, na manhã de terça-feira[xv]. A polícia desapareceu com João Pedro e sua família teve que encontrá-lo com seus próprios esforços, reforçando a indignidade com que o Estado trata os familiares das vítimas de sua violência. O percurso dos acontecimentos aponta fortes indícios do já conhecido roteiro de descaracterização da cena do crime e fraude processual sob a justificativa da impossibilidade de preservação da cena e necessidade de socorro da vítima.

A morte de João Pedro se soma a de outros 12 adolescentes baleados durante operações policiais no Rio de Janeiro, em 2020. E é difícil a atualização, porque ela é diária, permanente, esdrúxula. E dói, muito.

Além das mortes pela polícia e pela violência armada, testemunhamos um caso em Pernambuco no qual o racismo estrutural se manifesta como ferramenta de morte pelo descaso, pela desvalorização das vidas negras. O menino Miguel, de apenas 5 anos, caiu do nono andar de um prédio de luxo enquanto estava sob os cuidados da empregadora de sua mãe. Obrigada a trabalhar em meio à pandemia porque sua empregadora não manteria seus vencimentos para que ela pudesse permanecer em casa, Mirtes deixou seu filho aos cuidados de Sari Corte Real, primeira-dama da cidade de Tamandaré, uma mulher branca. Sari deixou que o menino subisse sozinho no elevador, o que ocasionou sua morte. O que fez com que Sari considerasse que uma criança de 5 anos pudesse subir desacompanhada em um elevador foi pura e simplesmente sua mentalidade racista, motor de sua negligência.

De lá para cá, vemos diariamente casos de violência policial contra jovens negros. O menino Guilherme, de 15 anos, foi morto na periferia de São Paulo, e o suspeito da morte é um sargento da Polícia Militar. Os casos de mortes pela provocadas pela Polícia Militar de São Paulo subiram 53% em abril de 2020, em comparação com o mesmo mês de 2019[xvi]. As polícias do Rio de Janeiro, as mais letais do Brasil, tem em 2020 o maior número de mortes provocados pelas polícias em 22 anos[xvii]. A explosão das mortes por agentes do Estado no Rio de Janeiro é acompanhada por uma redução no número total de homicídios, em um processo que demonstra que a política em curso é a de tentativa do monopólio do uso ilegal da força por parte do Estado. Na prática, a transformação das polícias em milícias. Quem apoia a violência policial é racista e endossa os aspectos mais estruturais da corrupção estatal.

Dados da plataforma Fogo Cruzado mostram que, com a quarentena, no período de 14 de março a 13 de junho, na região metropolitana do Rio de Janeiro, 8 pessoas foram mortas dentro de casa. No período, tivemos, ainda, 4 crianças e 8 adolescentes baleados. Foram registradas pela plataforma 12 chacinas no período, com um total de 42 mortos[xviii].

Além de interromperem o transcurso rotineiro da vida nas favelas e periferias da região metropolitana, esses tiroteios ocasionaram interrupções no atendimento de 14% das unidades de saúde da capital do Rio de Janeiro, que tiveram atividades impactadas[xix]. Uma pandemia e uma endemia de mãos dadas, no meio de rua, como o diabo do Grande Sertão de Guimarães Rosa.

Um dado nos parece fundamental no relatório publicado pelo Fogo Cruzado. Os tiroteios dos quais participam forças policiais são muito mais letais.

Fonte: Fogo Cruzado: https://fogocruzado.org.br/coronavirus-quarentena-tres-meses/

Fonte: Fogo Cruzado: https://fogocruzado.org.br/coronavirus-quarentena-tres-meses/

Dos 1405 tiroteios ocorridos nos três meses de quarentena, 273 tiveram a participação de agentes policiais. Do total de 239 mortes ocorridas nesses tiroteios, 169, 70%, ocorreram em eventos com a participação policial. A quase totalidade dos feridos foram atingidos em ocorrências com a presença de policiais, 91% do total de 229 feridos.

O governo encontrou na pandemia mais uma oportunidade de aumentar a morte seletiva, racial e territorial. Se por um lado as dificuldades econômicas afetam uma grande porção da população, existe um sadismo governamental em liberar em conta-gotas o auxílio econômico às pessoas, para gringo ver. Mas é uma política pública demorada, pequena e pouco humana. Ironicamente, ela é muito eficaz nos setores A e B da sociedade. Um terço dessas classes solicitou o auxílio[i]. Por outro lado, a exigência de ficar em casa se torna impossível, pela forma de migalhas dos auxílios e pela fome. Assim, sair é um risco, mas ficar em casa é um risco também nestes setores que são alvos do governo: mesmo ficando em casa, há um delivery de morte, de operações que tiram a vida mesmo dentro da casa. No Brasil, a pandemia é variada, maior, complexa, mas sempre tem na mira o mesmo público alvo. Uma tradição brasileira, escravista e racista.

Não esqueceremos as vítimas dessas duas epidemias: a do vírus e a das armas. Não deixaremos de apontar o dedo para a cara daqueles que defendem esses dois projetos genocidas. Estamos nos resíduos da Constituição de 1988, nas ruínas da democracia, mas respiramos. A luta é muito mais que resistir à pandemia, é lutar e construir um novo horizonte inclusivo e plural.

*André Rodrigues é professor do Departamento de Geografia e Políticas Públicas da UFF.

*Andrés del Río é professor do Departamento de Geografia e Políticas Públicas da UFF.

Notas:

[i]https://www.metropoles.com/brasil/economia-br/um-terco-das-classes-a-e-b-pediu-o-auxilio-de-r-600-diz-pesquisa

[i]https://www.youtube.com/watch?v=v9gLHrP7RNw

[ii]https://extra.globo.com/noticias/brasil/no-pior-dia-da-pandemia-de-coronavirus-no-brasil-bolsonaro-faz-piada-sobre-uso-da-cloroquina-esquerda-toma-tubaina-24436029.html

[iii]https://operamundi.uol.com.br/coronavirus/64996/bolsonaro-ja-cumpriu-o-que-prometeu-temos-30-mil-mortos

[iv]https://www.dw.com/pt-br/brasil-ultrapassa-30-mil-mortes-por-covid-19/a-53663144

[v]https://www.brasildefato.com.br/2020/06/05/passar-a-boiada-politica-ambiental-de-bolsonaro-e-alvo-de-acoes-na-justica

[vi]https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2020/06/02/pandemia-senadores-fazem-um-minuto-de-silencio-em-homenagem-aos-30-mil-mortos

[vii]https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-brasil/2020/06/08/ministerio-da-saude-muda-formato-de-divulgacao-de-dados-de-covid-19.htm

[viii]https://epoca.globo.com/brasil/brasil-destaque-no-mundo-por-esconder-dados-de-mortes-por-covid-19-oms-cobra-transparencia-24468531

[ix]http://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=445182&ori=1

[x]https://www.cnnbrasil.com.br/saude/2020/05/20/governo-muda-protocolo-e-autoriza-hidroxicloroquina-para-casos-leves-de-covid-19; https://noticias.uol.com.br/videos/2020/06/15/covid-19-governo-muda-protocolo-e-recomenda-cloroquina-a-criancas-e-gestantes.htm

[xi]https://veja.abril.com.br/blog/matheus-leitao/exercito-e-a-producao-em-massa-de-cloroquina-ajudaram-a-derrubar-teich/

[xii]https://oglobo.globo.com/sociedade/estados-unidos-anunciam-envio-de-2-milhoes-de-doses-de-cloroquina-para-brasil-24455665

[xiii]https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus-servico/cdc-americano-retira-de-seu-site-as-orientacoes-sobre-uso-da-cloroquina-para-tratar-covid-19-1-24362306

[xiv]https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/05/operacao-policial-deixa-ao-menos-10-mortos-no-complexo-do-alemao-no-rio.shtml

[xv]https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-05-19/jovem-de-14-anos-e-morto-durante-acao-policial-no-rio-e-familia-fica-horas-sem-saber-seu-paradeiro.html

[xvi]https://g1.globo.com/fantastico/noticia/2020/06/21/morte-de-jovem-na-periferia-de-sp-provoca-protestos-contra-violencia-policial.ghtml

[xvii]https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/06/22/rj-tem-maior-numero-de-mortes-por-policiais-em-22-anos-e-o-2o-menor-indice-de-homicidios-ja-registrado-pelo-isp.ghtm

[xviii]https://fogocruzado.org.br/coronavirus-quarentena-tres-meses/

[xix]https://fogocruzado.org.br/coronavirus-quarentena-dois-meses/