O horror em Gaza

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Por JOÃO QUARTIM DE MORAES*

Diante do matadouro em Gaza, a solidariedade internacional emerge como último bastião de humanidade. Enquanto os governos ocidentais compactuam com o genocídio, a coragem da flotilha e da nova geração anti-imperialista carrega a esperança de romper o cerco sionista à dignidade palestina

1.

O genocida Benjamin Netanyahu, à frente do terrorismo de Estado israelense, ordenou ao povo palestino de Gaza que abandonasse suas moradias e partisse. Não disse para onde. Nem precisava. Quer deixá-lo concentrado no imenso matadouro em que ele e seus asseclas transformaram a faixa de Gaza.

São covardes malfeitores da pior espécie, que massacram a população famélica de Gaza, velhos, crianças, mulheres e homens, quando ela se aglomera junto aos caminhões de ajuda humanitária. Querem matar pela fome os que eles não mataram pelos bombardeios. Como os carrascos nazistas, eles degeneraram moralmente a ponto de pouco se importarem com o sofrimento alheio. Decaíram em barbárie e em crueldade aquém do patamar civilizatório e dos valores básicos do gênero humano.

O número de massacrados se aproximava de 70.000 nessa segunda semana de setembro. Mas os hematófagos de Tel Aviv não parecem saciados. Querem mais sangue, mais lágrimas de suas vítimas. O repulsivo gnomo que comanda o macabro espetáculo da destruição de Gaza avisou que a matança prosseguirá. Conta com a completa anuência dos círculos dirigentes do poder imperial estadunidense.

Ser um “serial-killer” de palestinos ajudou Benjamin Netanyahu a adquirir muito prestígio junto a seus protetores trumpistas, que lhe deram completa cobertura política no genocídio de Gaza. A maioria dos governos do “Ocidente” fez vistas grossas.

Mas é importante ressaltar a honrosa exceção do governo da Espanha, cujo primeiro-ministro, Pedro Sánchez, anunciou no dia 8 de setembro de 2025 uma lista de iniciativas para “deter o genocídio em Gaza”: embargo de armas para Israel, proibição do uso de portos e espaço aéreo espanhóis para envio de material bélico aos criminosos de guerra sionistas e recusa do ingresso no país de todos os envolvidos no genocídio.

2.

O espetáculo dos corpos destroçados pelas bombas dos “serial-killers” sionistas traz de volta à memória uma foto terrível da guerra do Vietnã, que na época circulou por toda parte: um bando de crianças correndo apavoradas sob as bombas dos valentões da US Air Force, uma delas com as costas em chamas, atingidas pelo napalm. É o modo como o “país líder do Ocidente” defende a “democracy”. Nada de novo, portanto, em relação à barbárie imperialista.

O fato novo é a mobilização das melhores energias da nova geração anti imperialista em solidariedade ao povo martirizado de Gaza. Com mais coragem do que recursos, um punhado de lutadores corajosos empenhou-se em equipar uma flotilha para navegar em direção a Gaza com um grande carregamento de ajuda médica e alimentar, especialmente voltada para atenuar a desnutrição infantil no vasto campo de concentração e de extermínio em que a estreita banda tinha sido transformada.

Navios de guerra dos ocupantes sionistas bloquearam a flotilha em águas internacionais. Não foi a primeira violação das leis internacionais pelo Estado terrorista israelense. Já tinha violado os princípios básicos da humanidade incontáveis vezes e seguiu violando. Não se pode pedir ao escorpião que deixe de destilar veneno.

Enquanto escrevemos, uma nova flotilha da liberdade navega rumo a Gaza. Sempre agindo como marginais das leis internacionais, os escorpiões israelenses já atacaram um dos barcos da flotilha no litoral da Tunísia. É de temer algum desfecho trágico para a corajosa flotilha. Ela merece nossa irrestrita solidariedade.

*João Quartim de Moraes é professor titular aposentado do Departamento de Filosofia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de A esquerda militar no Brasil (Expressão Popular) [https://amzn.to/3snSrKg]


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