Por SERAPHIM PIETROFORTE*
A mais radical herança de um artista não são suas composições, mas o convite permanente à superação – dos limites da arte, do pensamento e da existência
No dia 13 de setembro de 2025, Hermeto Pascoal, quem dispensa apresentações, faleceu com 89 anos de idade, devido a complicações pulmonares. Anos atrás, em 1979, Hermeto Pascoal lançara aquele que se classifica, precisamente, entre os melhores álbuns de música instrumental brasileira, Zabumbê-bum-á.
Na época, o músico contava com 43 anos de idade e eu, com apenas 15. Isso posto, qual seria, em um necrológio, a relevância de comentários a propósito dos anos de vida do obituarista? No caso de Hermeto Pascoal, talvez isso se torne pertinente, porquanto ele, com aquele álbum, modificou meus pontos de vista não apenas em relação à música, mas às outras artes e, inclusive, quanto à família, à escola, à religião e demais instituições sociais; assim como eu, creio que muitos de minha geração passaram, felizmente, pelas mesmas transformações influenciados, caso não pelo mesmo álbum, pelo mesmo músico.
A cidade de São Paulo em 1979
A propósito da cena musical, a cidade de São Paulo, nos anos 1970, era ligeiramente distinta; não me refiro a shows e outros eventos musicais, mas ao mercado fonográfico e sua mídia preferencial, ou seja, os Long Plays, comercializados em lojas especializadas ou, até mesmo, em supermercados.
Entre aquelas lojas, havia estabelecimentos respeitados, com acervos variados, tais quais o Museu do Disco e a Hi-Fi; nos bairros, encontravam-se lojas menores, feito Brunoblois e AmaroSom, na Rua Pamplona – foi nessa última, justamente, em que adquiri o LP Zabumbê-bum-á, de Hermeto Pascoal.
Mas de onde eu conhecia o Hermeto Pascoal? Na época, havia, na Rede Globo, um programa chamado Concertos para a Juventude, exibido nas manhãs de domingo; nele, apresentavam-se, na primeira parte, pianistas, quartetos de cordas, quintetos de sopros e demais formações camerísticas, interpretando música erudita, e, na segunda parte, grupos de música brasileira instrumental, do choro à música de vanguarda.
E assim, numa manhã domingo, escutei, pela primeira vez, Hermeto Pascoal com o grupo formado por Jovino dos Santos Neto – piano e teclados –, Itiberê Zwarg – contrabaixo –, Realcino Lima Filho – bateria –, Celso Mendes – guitarra –, Cacau de Queiroz – saxofones –, Pernambuco – percussão –, Zabelê – voz e percussão.
Não entendi quase nada
Nos anos 1970, muitos chorões ainda viviam, apresentando-se animadamente; entre eles, tive o prazer de escutar, ao vivo, Waldir Azevedo, Altamiro Carrilho e Copinha. Quem aprecia a música instrumental brasileira, certamente, preza o chorinho; caso essa admiração se estenda a concepções modernas – inclusive, do próprio choro –, a estima alcança Edson Machado, Milton Banana, o Zimbo Trio, o Som Imaginário, A Cor do Som, Egberto Gismonti, Wagner Tiso, Flora Purim e Airto Moreira, o Grupo Um e, evidentemente, Hermeto Pascoal. No entanto, como entender sua música aos 15 anos de idade?
Quem, acostumado a escutar, por exemplo Zimbo Trio, chega a Hermeto Pascoal, percebe diferenças marcantes, mesmo quando o Zimbo interpreta composições do Hermeto. No álbum Zimbo, de 1978, o trio apresenta sua versão de “Bêbe”, de Hermeto Pascoal, em uma das melhores – se não for a melhor – realizações do tema; mesmo assim, o grupo ainda mantém, com criatividade e com bastante suingue, as linhas de improviso e as variações timbrísticas dos célebres trios de piano, contrabaixo e bateria.
Hermeto Pascoal, todavia, vai além… naquela manhã, nos Concertos para a Juventude, escutei sua composição “Pimenteira”, cujo tema destoa sensivelmente das harmonias, melodias e divisões rítmicas características da Bossa Nova, levadas adiante pelo Zimbo Trio. Em “Pimenteira”, os improvisos também eram inesperados, pois seguiam intercalados ao tema, tocado pelo grupo todo, e se faziam apenas com o músico da vez, sem acompanhamentos rítmicos ou harmônicos do restante da banda.
Na vez de Hermeto Pascoal, ele, em vez de solar com teclados ou sopros, seus instrumentos preferidos, o homem lançou mão de quatro sirenes, controladas por botões; sinceramente, não entendi nada… mesmo assim, tomado pela incompreensão da obra, assisti a todo o programa, no qual ele apresentou boa parte das músicas registradas no álbum Zabumbê-bum-á.
Suíte norte, sul, leste, oeste
Houve tempos em que se escutava Hermeto Pascoal nas rádios; com certeza, nada semelhante a “Pimenteira”, “Rede”, “Suíte Paulistana” ou “Mestre Mará”, mas a “Suíte Norte, Sul, Leste, Oeste” parece suficientemente melodiosa para tanto, além de durar 3:55 minutos, tempo ideal para tocar entre os intervalos comerciais.
Não se cuida, porém, de analisar nem de descrever a composição em detalhes; em linhas gerais, tal suíte é formada quatro partes: a primeira, bastante melodiosa; a segunda, com ênfase no ritmo ponteado; a terceira, ainda mais melodiosa que a primeira; a quarta, um tanto adversa, distante das harmonizações anteriores… a composição se encerra com as repetições da primeira e da segunda partes. Ademais, há participação de todos a banda – devidamente descrita acima –, com cada instrumentista seguindo por linhas singulares, contraponteando em vez de acompanhar, meramente, quem sola.
Pois bem, motivado pela “Suíte Norte, Sul, Leste, Oeste”, busquei pelo LP Zabumbê-bum-á – a terceira facha do lado B –; na loja, escutando as demais músicas – como era costume ouvir, ao menos, alguns segundos de cada uma delas – estranhei a presença de contadores de histórias em meio aos arranjos – em “São Jorge” e em “Santo Antonio”, respectivamente, o pai e a mãe de Hermeto Pascoal falam de boiadeiros e das festas do dia 13 de junho; em “Rede”, Pernambuco e Zabelê improvisam em versos livres –. Mesmo assim, saí da lá com o PL; logo em seguida, numa reunião de família, tive a infeliz ideia de mostra Zabumbê-bum-á para dois tios.
O papel contestador de Hermeto Pascoal
Evidentemente, não se cuida da ideologia do cidadão Hermeto Pascoal, alguém simpatizante de políticos de direita, no mínimo suspeitos – tais quais Fernando Collor de Melo, citado com entusiasmo em “Pensamento positivo”, no álbum A festa dos deuses, 1992 –; nossa atenção se fixa, isto sim, no papel revolucionário de suas concepções musicais e do que delas decorre.
Retomando a audição em família, parece desnecessário dizer que resultou em fracasso; na vitrola da casa dos meus parentes, assisti, sem argumentos – pois não contava com idade para tanto nem com formação musical suficiente –, ao álbum de Hermeto Pascoal ser desprezado por eles, precisamente, quanto às inovações mais expressivas, isto é, a presença da fala, os solos inusitados, a longa duração das composições, a renovação dos ritmos brasileiros mediante harmonizações modernas e timbres inabituais.
Nos comentários derrogatórios, como seria de se esperar, não faltaram observações pejorativas à figura do músico, com a barba e os cabelos longos, marcantes em seu visual; um deles chegou a comentar que se tratava do “jazz dos baianos” – vale lembrar o quanto frases assim, típicas dos moradores da cidade de São Paulo naqueles tempos, soava agressiva, denotando desprezo pelos demais brasileiros; aliás, Hermeto Pascoal nasceu em Alagoas e não na Bahia –.
Não pretendo desprezar meus familiares – minha família é metonímia de toda uma classe social pequeno burguesa, por isso, quanto se reflete sobre questões sociais mais amplas, as menções a ela –; um dos meus tios foi, justamente, quem me apresentou os trabalhos do Zimbo Trio e o outro admirava Louis Amstrong e as orquestras de Tommy Dorsey e Glenn Miller, além de apreciar, incondicionalmente, as canções de Chico Buarque. Cabe indagar, portanto, por que tanta indisposição com Hermeto Pascoal.
Indiscutivelmente, os artistas citados depuraram a música: Louis Amstrong, praticamente, iniciou o jazz levado adiante por Charlie Parker, Billie Holiday, John Coltrane e Ornette Coleman; Chico Buarque, dos trovadores medievais das cortes portuguesas ao cancionistas contemporâneos dos países lusófonos, é, certamente, o melhor entre todos eles. Em vista disso, parece oportuno precisar três conceitos: depurar, inovar, subverter.
Depuração, inovação, subversão
Lembro-me – antes de prosseguir – de uma apresentação de Hermeto Pascoal, ainda naqueles tempos da adolescência, no Teatro Municipal de São Paulo. O show se constituiu, predominantemente, de improvisos baseados nas alusões a alguns temas; a música fluía continuamente, sem paradas ou intervalos entre as composições.
Pois bem, tomado pelas ideias reacionárias dos familiares, depreciei o espetáculo… meu pai, entretanto, quem me acompanhava, alertou: “atenção, nós não conhecemos música suficientemente para criticar… com certeza, havia pessoas na plateia que observaram divisões, harmonias e melodias incomuns”.
Em artes, considerando as relações entre os artistas e a história dos estilos de época e das variadas escolas estéticas, há, pelo menos, três modos de criação: (i) a depuração, quando, a partir de determinado tópico, busca-se por seu aprimoramento, contudo, sem violar princípios constitutivos – o Zimbo Trio, por exemplo, não modifica a Bossa Nova nem o Jazz, mas busca por seu refinamento –; (ii) a inovação, se, mesmo perseverando naqueles princípios, articulam-se, a eles, outros paradigmas – o casal Flora Purim e Airto Moreira trouxeram novidades tanto para a MPB quanto para o Jazz –; (iii) a subversão, caso os tópicos sejam totalmente modificados na geração de novos modelos – Hermeto Pascoal subverteu a música brasileira e o Jazz, criando, dessa forma, algo novo, fruto de sua engenhosidade.
Por fim, ao subverter linguagens em busca de novas linguagens, tais artistas apontam para a renovação não apenas da arte, mas de toda a significação humana, seja ela social ou psicológica, estendendo, potencialmente, os alcances de suas revoluções semióticas aos demais aspectos da vida; por isso, talvez, pareça tão difícil compreender a música de Hermeto Pascoal. Dessarte, Hermeto Pascoal expande não apenas os horizontes musicais de quem se encanta com sua arte, porquanto, promovendo a inteligência e a sensibilidade, avança-se na ciência, na noosfera e na superação da miséria humana.
*Seraphim Pietroforte é professor titular de semiótica na Universidade de São Paulo (USP). Autor, entre outros livros, de Semiótica visual: os percursos do olhar (Contexto). [https://amzn.to/4g05uWM]
A Terra é Redonda existe graças aos nossos leitores e apoiadores.
Ajude-nos a manter esta ideia.
C O N T R I B U A





















