Por RICARDO SANTOS MOREIRA DA SILVA*
A mesma Marinha que importou encouraçados da Inglaterra importou também a consciência de classe — e com ela, o germe da revolta que abalaria suas estruturas racistas
1.
Em um contexto de motins e revoltas que despontavam em alguns países, a revolta dos marinheiros brasileiros está ao lado de outras, como as do encouraçado Potemkin (com o protagonismo da marinhagem de origem russa) em 1905. Ambos os países – Rússia e Brasil – abandonavam respectivamente a servidão e a escravidão.
A Marinha de Guerra brasileira adotou uma política de modernização para atuar como braço da política externa do país, mais conhecido como política das canhoneiras. Nesse aspecto, seriam encomendados três dreadnoughts encouraçados junto aos estaleiros ingleses, contudo, devido as pressões da Argentina que alegava um desequilíbrio de poder, ficaria reduzido a duas embarcações.
No período que envolveu a construção das belonaves, um grupo de marinheiros brasileiros acompanhou os trabalhos como forma de se familiarizar com as tecnologias, necessárias para o funcionamento. A estadia de boa parte deles ocorreria em bairros operários ingleses que tinha na época um dos mais atuantes movimentos de trabalhadores do mundo, entre eles, os fabianistas. Foi nessa imersão, que os marujos brasileiros entraram em contato com a militância socialista daquele país, conscientizando-se das próprias condições de trabalho e existência.
Neste ponto, despontou o embrião de um grupo com a suposta liderança intelectual de Francisco Dias Martins, que nos relatos de Hélio Leôncio, almirante e historiador da Marinha, teria sido o suposto mentor intelectual e da organização do movimento que aconteceria em 22 de novembro de 1910. João Cândido seria alçado a porta-voz do grupo. Tais apontamentos precisariam ser levantados em futuras pesquisas junto aos arquivos britânicos, reunindo evidências da espionagem da polícia local, que, também, provavelmente também acompanhava os passos dos marujos brasileiros, documentando-os.
O estopim da revolta brasileira, conforme os relatos, foram os castigos físicos infligidos a um dos marinheiros (grupo majoritário negro) – com cerca de 250 chibatas – instrumento feito de corda e alfinetes – empregada por oficiais. O grotesco ritual nessas horas era acompanhado por uma plateia que assistia as cenas, e que também servia de ameaça aos que tivessem o protagonismo de desafiar a oficialidade majoritariamente branca, de perfil aristocrático em que boa parte fazia parte de antigas famílias portuguesas estabelecidas no Brasil. Ressalta-se que os castigos constavam com Código de Lipe que normatizava os castigos e punições que tem origem inglesa.
2.
Com o desenrolar dos eventos, ficou estabelecida uma organização entre os revoltosos, em que cada embarcação sublevada funcionava na forma de um comando com células próprias de militares, com os respectivos responsáveis que se articulavam com João Cândido, que como já foi dito, era a face pública, o porta-voz do grupo de marinheiros.
Com as negociações em torno do fim da revolta, e com a cidade do Rio de Janeiro, mantida em tensão pelo clímax gerado, chegou-se a contento com um projeto de anistia aprovado no Congresso Nacional que seria suprimida dias depois. O pesquisador Paulo Ribeiro da Cunha apontaria que essa anistia seria caracterizada como “socialmente limitada” pelo alcance limitado dela que punia os subalternos.
Enfim, João Cândido seria levado preso junto com outros marinheiros para uma cela em que as autoridades da Marinha de Guerra Brasileira jogariam cal no local, levando ao falecimento de todos, excetuando-se o próprio “Almirante Negro”. Em 2008, pela iniciativa da senadora Marina Silva, o Projeto de Lei n.º 7.198/02 aprovou a anistia póstuma a João Felisberto Cândido.
Foi realizado também uma iniciativa de o incluir no livro dos heróis e heroínas da pátria, paralisado pela oposição institucional da Marinha de Guerra Brasileira. Contemporaneamente ocorrem algumas iniciativas com o objetivo de resgatar a memória dele e dos marinheiros envolvidos com a nomeação de embarcações, como a da empresa Transpetro, estátua de João Cândido na Praça XV, curtas-metragens e um museu localizado em São João do Meriti por iniciativa das UMNA – Unidade de Mobilização Nacional pela Anistia, com sede na cidade do Rio de Janeiro, que defende o legado histórico.
*Ricardo Santos Moreira da Silva é engenheiro.
Referências
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CUNHA, Paulo Ribeiro da. Militares e anistia no Brasil: um dueto desarmônico. São Paulo: Boitempo Editorial, 2010.
MAESTRI, Mário. 1910: A revolta dos marinheiros – uma saga negra. São Paulo:
Global, 1982.
MARTINS, Hélio Leôncio. A revolta dos marinheiros: 1910. São Paulo: Editora Nacional; Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1988.
MOREL, Edmar. A Revolta da Chibata: subsídios para a história da sublevação na Esquadra pelo marinheiro João Cândido em 1910. Rio de Janeiro: Editora Irmãos Pongetti, 1958.
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http://www.revistadehistoria.com.br/v2/home/?go=detalhe&id=2384.
NASCIMENTO, Álvaro Pereira do. A ressaca da marujada: recrutamento e disciplina na Armada Imperial. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2001.
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SILVA, Marcos Antônio da. Contra a chibata: marinheiros brasileiros em 1910. São
Paulo: Brasiliense, 1982.
SILVA, Ricardo S. M. da. Os não-anistiados: militares da associação dos marinheiros e fuzileiros navais do Brasil. Belo Horizonte: Dialética, 2021.
Anistia póstuma a João Cândido, líder da Revolta da Chibata, é destaque em audiência pública. https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2008/05/15/anistia-postuma-a-joao-candido-lider-da-revolta-da-chibata-e-destaque-em-audiencia-publica. Acesso em 17 nov. 2025.
Aprovada anistia para líder da Revolta da Chibata. < https://www.camara.leg.br/noticias/38166-aprovada-anistia-para-lider-da-revolta-da-chibata/>. Acesso em 17 nov. 2025.
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