Por GILBERTO MARINGONI*
A “revolta” no México não foi um movimento orgânico, mas uma operação orquestrada pela extrema-direita e por grandes grupos midiáticos e empresariais, com financiamento externo e uso massivo de desinformação em redes sociais
1.
O roteiro é conhecido. Milhares de pessoas, convocadas majoritariamente em redes sociais saem às ruas em fúria, exigindo a derrubada de governos eleitos. Aparentemente sem lideranças definidas, a massa se concentra em locais públicos, brandindo difusas pautas contra a corrupção, a insegurança, os partidos tradicionais e a própria democracia. Logo aparecem grupos de provocadores, munidos de marretas, barras de ferro e serras elétricas, que partem para a depredação de edifícios públicos.
Foi o que se viu no sábado, 15 de novembro, no Zócalo, principal praça da Cidade do México, em frente ao Palácio Nacional, sede do governo. Planejados como eventos simultâneos em várias cidades, os protestos fracassaram na maior parte delas. Calcula-se, no entanto, que 17 mil pessoas tenham marchado na capital, estabelecendo um confronto que resultou em cerca de uma centena de policiais e vinte manifestantes feridos. Nova tentativa de protesto na quinta, 20 de novembro, fracassou, ao levar menos de 200 pessoas às ruas da capital.
A mídia tradicional logo definiu o movimento como uma rebelião da geração Z, aquela nascida entre 1995 e 2010. A classificação busca estabelecer conexões com mobilizações semelhantes no Nepal, Bangladesh, Sri Lanka, Marrocos e Peru. Pesquisas de opinião mostram a fragilidade do rótulo, ao constatar que 71% dos jovens entre 18 e 25 anos aprova o governo de Claudia Sheinbaum.
Uma investigação da Infodemia – órgão público voltado à análise da internet – revela que a marcha foi “impulsionada artificialmente” por “uma rede digital de contas (…) promovida por políticos, comentaristas e até mesmo ex-presidentes do México”. O ponto de partida, de acordo com a instituição, se deu em 3 de outubro, através de reportagem da TV Azteca que ligava o descontentamento dos jovens mexicanos a um suposto “movimento global”.
A partir daí, 179 contas de Tiktok e 359 comunidades do Facebook começaram a difundir a organização de uma passeata contra o governo, com farto uso de imagens geradas por inteligência artificial. A elas se juntou a Atlas Network, rede de comunicação internacional acusada de realizar campanhas de denúncias contra administrações progressistas, como as de Lula, no Brasil, Cristina Kirchner, na Argentina, Evo Morales, na Bolívia, e Pedro Castillo, no Peru. Cerca de US$ 5 milhões foram gastos na empreitada, relata Infodemia.
2.
A figura mais notável a incentivar os protestos atende pelo nome de Ricardo Salinas Pliego, com forte influência entre o grande empresariado. Dono da já citada TV Azteca, do Banco Azteca, da Seguradora Azteca e do Grupo Elektra, rede varejista presente no México, Guatemala, Honduras e Panamá, entre outros empreendimentos, Salinas Pliego detém a quinta maior fortuna do país.
Ex-aliado de Andrés Manuel López Obrador (2018-2024), correligionário e antecessor da atual presidenta, ele afastou-se do governo e passou a atacar Claudia Sheinbaum, movido por causa pouco nobre: evitar por todos os meios pagar US$ 4 bilhões em impostos sonegados por anos a fio. Sua ira explodiu quando a presidenta rejeitou publicamente perdoar a dívida, no início do ano.
Desde então, não mede palavras para acusar uma trama “do regime narcotraficante”, criminoso, corrupto e comunista do Morena (Movimento Regeneração Nacional), partido do governo. Para coroar o imbróglio, é preciso assinalar que o milionário foi derrotado na Suprema Corte.
Os ânimos se radicalizaram em 1º. de novembro, quando foi assassinado Carlos Manzo, prefeito de Uruapan, cidade de 240 mil habitantes localizada no estado de Michoacán, um dos mais violentos da federação. Carlos Manzo defendia linha dura contra o crime organizado e ganhara o apelidado de “Bukele mexicano”, em referência ao presidente de El Salvador, que estabeleceu uma espécie de estado de sítio permanente em seu país. Desde o início do ano, outros seis prefeitos foram mortos de forma violenta.
Claudia Sheinbaum herdou uma realidade calamitosa que remonta mais de meio século de desmonte social e concentração de renda. Acusada de nada fazer para deter as facções do crime organizado, que domina vastas partes do território e da institucionalidade, ela tem se colocado de maneira firme na defesa de direitos das maiorias empobrecidas. Se na década passada o mote central da direita era denunciar redes de corrupção incrustadas em governos progressistas, a chave agora virou, a partir de Washington, que coloca o “narcoterrorismo” alvo principal na América Latina.
Apesar disso, a insuspeita Economist da semana passada constatou: “O México se tornou um lugar menos perigoso sob a liderança de Claudia Sheinbaum”. Uma reportagem de duas páginas aponta que em 14 meses de governo, a atual presidenta reduziu a taxa de mortes violentas em 14%. “Contar apenas os homicídios ignora uma parte importante do problema: as milhares de pessoas que desaparecem todos os anos, muitas assassinadas e enterradas em covas sem identificação”, afirma a publicação. Dois terços desses crimes estão associadas ao crime organizado.
3.
Desafiada internamente pela extrema direita, Claudia Sheinbaum é também atacada por Donald Trump, a quem critica duramente. “Não estou feliz com o México”, declarou ele no dia 17 de novembro. Citando sua provocação militar contra a Venezuela, o chefe da Casa Branca, afirmou que teria “orgulho” de atacar barcos de narcotráfico do país vizinho, de onde se origina a maior parte do fentanil que circula nos EUA.
Em 3 de novembro, a NBC News já noticiara que o governo republicano traça planos para deslocar forças de segurança para o interior do México. A exaltação da guerra purificadora contra o crime passou a unificar a atuação extremismo reacionário no plano internacional.
Claudia Sheinbaum comanda uma administração progressista num continente marcado pelo avanço da extrema-direita, mantendo altos índices de aprovação. Os números oscilam entre 70% (El Financiero) e 78% (Enkoll). Sua gestão conta com mais de dois terços de apoio nas duas casas Legislativas. Em junho último, o México se tornou o primeiro país do mundo a eleger juízes, dos tribunais locais à Suprema Corte, num total de quase três mil cargos. É possível que tais iniciativas dificultem o surgimento de lideranças nacionais neofascistas no país.
Segunda maior economia da América Latina e fortemente dependente dos Estados Unidos, seu principal parceiro comercial, o México, a exemplo da maioria dos países do continente, pratica políticas monetária e fiscal restritivas. O país oscila há quatro décadas na média de 2% de crescimento ao ano (em 2020, auge da pandemia, o PIB despencou 8,4%).
A inflação deve fechar o ano em 3%, de acordo com projeções do FMI. Embora apresente baixíssima taxa de desemprego (2,4%), a informalidade alcança 53,7% da população. Os governos do Morena exaltam o feito de retirarem 8,3 milhões de pessoas da linha de pobreza, entre 2022 e 2024.
No mundo das realidades paralelas nada disso importa. Como em “Assim é (se lhe parece)”, clássico da dramaturgia escrita por Luigi Pirandello (1867-1936), que transitou do fascismo ao antifascismo, a realidade objetiva seria uma impossibilidade lógica. A extrema direita atual leva a máxima do escritor italiano ao paroxismo em sua ação política.
*Gilberto Maringoni é jornalista e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do ABC (UFABC).
Publicado originalmente na edição 1389 da revista Carta Capital.
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