América Latina – ausência de lucidez e tempo bloqueado

Imagem: Roberto Huczek
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Por JOÃO DOS REIS SILVA JÚNIOR*

A dominação contemporânea opera pela aceleração e interrupção do pensamento. Superar a dependência exige desbloquear o tempo histórico e recuperar o ritmo da crítica

“A lucidez não nasce do que o tempo oferece, mas do que o pensamento é capaz de sustentar quando tudo ao redor se interrompe” (Henrique Schugugurensky).

1.

A América Latina não está silenciosa por falta de pensamento, mas porque o tempo necessário à maturação da lucidez é administrado de modo a impedir que a reflexão se estabilize como forma pública.

O que se entende como crise é, na verdade, a administração do tempo como instrumento de interrupção que impede que a lucidez se estabeleça.
A lucidez aqui entendida não é introspecção, mas categoria histórica cuja formulação exige a compreensão da totalidade e do tempo, como já indicaram Karl Marx, György Lukács e, no diagnóstico contemporâneo, Paulo Arantes.

O tempo bloqueado não é efeito colateral; é elemento estruturante da dependência contemporânea. A razão é acelerada antes de ser formada, a urgência substitui o juízo, e a velocidade ocupa o espaço que antes era destinado à reflexão lenta.

O pesquisador não é impedido de pensar; é conduzido a desejar apenas aquilo que o Norte valida, e esse desejo opera como forma superior de dominação. A universidade não está em colapso; está ajustada a uma lógica que transforma a precariedade em método e a produtividade em critério de sobrevivência institucional. A subjetividade acadêmica é reorganizada por métricas e plataformas que substituem a formação pelo cumprimento de tarefas, e esse deslocamento altera a própria forma do juízo.

A universidade funciona como dispositivo não apenas porque organiza práticas, mas porque captura ritmos, regula expectativas e administra a forma como o tempo é percebido pelo pesquisador. A dependência aparece menos no que se produz e mais no modo como se produz, no ritmo que se impõe, no tempo que se retira e na forma como a razão é treinada para reconhecer valor.

O silêncio da América Latina não é ausência de voz; é imposição de velocidade. O que não encontra tempo não encontra forma, e o que não encontra forma não pode existir como pensamento público.

A história desse silêncio começa quando a América Latina ousou criar sua própria episteme com a Teoria Marxista da Dependência. Ruy Mauro Marini, Vânia Bambirra e Theotônio dos Santos formularam com precisão o subdesenvolvimento como determinação estrutural e revelaram a transferência permanente de valor e a superexploração como condição de reprodução do capitalismo dependente.

Essa formulação não era espelho do Norte; era nome próprio, categoria nascida da terra e da violência histórica que conforma a região. Mas sua força dependia do tempo histórico, e o tempo histórico se transformou.

2.

A Teoria Marxista da Dependência foi escrita no terreno da produção material direta, no ciclo industrial da fábrica, na extração visível da mais-valia e na transferência objetiva de valor. Não era possível, naquela época, antecipar um capitalismo financeirizado, digitalizado e administrado por métricas que moldam comportamentos. Se a Teoria Marxista da Dependência não tratou dessas mutações, não foi insuficiência teórica, mas limite histórico: a época ainda não havia gerado as condições que hoje organizam a dominação.

Francisco de Oliveira percebeu antes de todos que moderno e arcaico não são etapas sucessivas, mas convivência estrutural. A dualidade não é falha cultural da modernização; é sua própria lógica de funcionamento. E, no entanto, o próprio Chico intuía que essa chave explicativa teria prazo, porque o capitalismo caminhava para dentro da subjetividade, reorganizando o tempo, o trabalho e a forma da consciência.

A dualidade não é defeito da modernização; é seu modo de funcionamento.
E, no entanto, o próprio Francisco de Oliveira intuía que essa racionalidade dualista não explicaria para sempre a forma da dominação. Ele percebia que o capitalismo preparava uma inflexão mais profunda, que deslocaria a dominação do plano institucional para o plano da subjetividade, mas não escreveu sobre isso porque a realidade ainda não havia se consolidado.

Hoje essa mutação é visível: o capitalismo dependente se reorganizou como captura do tempo e como administração da interrupção. O que era crítica tornou-se procedimento, o que era denúncia tornou-se técnica e o que era análise estrutural tornou-se método de governo. A dualidade permanece, mas agora a serviço do Estado financeirizado, que administra escassez como normalidade e transforma precariedade em política.

É nesse cenário que a dependência exige ampliação conceitual. Não porque os clássicos tenham perdido validade, mas porque a época produziu novas formas de dominação que eles não poderiam ter visto. A dependência contemporânea atravessa simultaneamente economia, Estado, universidade, subjetividade e tempo. Ela não está apenas fora; está dentro. Ela não estrutura apenas relações materiais; estrutura também relações cognitivas.
Ela define o que se pergunta antes de definir como se responde e ocupa o tempo antes de ocupar o espaço.

A dominação se dá pela imposição de urgência, pela mutilação da maturação e pela impossibilidade de formar consciência sob pressão permanente.

3.

É por isso que denomino “arquitetura da dependência” a forma atual da dominação. Arquitetura não como metáfora, mas como categoria que revela distribuição interna, articulação total e funcionamento transversal da dependência. Ela atravessa a economia que financeiriza o Estado, o Estado que precariza a universidade, a universidade que acelera o pesquisador e o pesquisador que internaliza a validação externa como critério único.

A dependência se desloca da estrutura para a razão, do horizonte material para o horizonte temporal, e esse deslocamento exige novo nome e novo método. A arquitetura da dependência prolonga a Teoria Marxista da Dependência e a razão dualista, não as substitui; integra dimensões que a história acrescentou. É síntese amadurecida e forma necessária de interpretação da época.

A América Latina, vista por essa arquitetura, revela uma condição silenciosa que não decorre de falta de pensamento, mas da expropriação do tempo necessário para que o pensamento amadureça. O México sustenta uma modernidade teatralizada, o Chile transforma a universidade em mercado, a Argentina luta para manter a democratização sem conseguir financiar sua continuidade e o Brasil opera excelência concentrada e precariedade difusa.

Superfícies diferentes, fundo comum. Histórias específicas, racionalidade operativa uniforme. Cada país vive a sua variante da mesma arquitetura: a administração do tempo como forma de bloquear lucidez.

Nesse contexto, romper o silêncio não exige grito; exige recompor o tempo histórico que foi interrompido, devolver maturação ao pensamento, restaurar o ritmo da crítica e resgatar a universidade como lugar de formação da consciência e não como máquina de indicadores.

Compreender esse regime temporal não é exercício acadêmico, mas necessidade histórica: sem recuperar o tempo para a crítica, a América Latina continuará a existir como ausência de lucidez produzida e não como impossibilidade real.

*João dos Reis Silva Júnior é professor titular do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Autor, entre outros livros, de Educação, sociedade de classes e reformas universitárias (Autores Associados) [https://amzn.to/4fLXTKP].

Referências


ARANTES, Paulo. Extinção. São Paulo: Boitempo, 2007.

ARANTES, Paulo. Um departamento francês de ultramar. São Paulo: Paz e Terra, 1994.

BAMBIRRA, Vânia. O capitalismo dependente latino-americano. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.

LUKÁCS, György. História e consciência de classe. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

MARINI, Ruy Mauro. Dialética da dependência. Rio de Janeiro: Vozes, 1973.

MARX, Karl. O capital. Livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.

OLIVEIRA, Francisco de. A economia brasileira: crítica à razão dualista. Petrópolis: Vozes, 1972.

SANTOS, Theotônio dos. A teoria da dependência: balanço e perspectivas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

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