Guerra híbrida no Irã

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Por MÁRCIO JOSÉ MENDONÇA*

O conflito no Irã exemplifica a nova cartilha bélica: uma fusão de pressão interna, narrativas manipuladas e ações indiretas que buscam desestabilizar sem um confronto militar convencional

1.

A guerra híbrida, conforme explorada por Andrew Korybko em Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes, representa uma forma contemporânea de conflito em que estratégias tradicionais de guerra se combinam com meios não convencionais de influência política e social para desestabilizar Estados soberanos.

Andrew Korybko argumenta que esse “novo” método, amplamente associado à ação dos Estados Unidos, integra revoluções coloridas – movimentos populares estimulados e instrumentalizados externamente – com técnicas de guerra assimétrica e de quarta geração, criando um “caos estruturado” que visa controlar ou substituir governos sem confrontos militares abertos. Sua análise ressalta ainda a importância das mídias sociais, propaganda e financiamento de atores internos como ferramentas centrais dessa dinâmica, que redefine o campo geopolítico no século XXI longe dos campos de batalha tradicionais.

Os protestos recentes que eclodiram no Irã, impulsionados por uma combinação de fatores econômicos, insatisfação social e repressão estatal, ilustram como crises internas podem ser interpretadas através da lente da guerra híbrida, na qual atores externos e dinâmicas domésticas se entrelaçam de maneira complexa.

Enquanto movimentos populares nas ruas reivindicam mudanças profundas no sistema econômico, o regime em Teerã classifica essas manifestações como resultados de interferências estrangeiras, especialmente de potências ocidentais, cujo objetivo seria desestabilizar o regime por meio de ferramentas de influência política, propaganda e apoio indireto a grupos dissidentes – elementos típicos das estratégias híbridas descritas por Andrew Korybko ao misturar causas internas com pressões externas de maneira a criar um “caos estruturado”.

Dentro desse contexto, as táticas estatais e não estatais que se sobrepõem – como a censura e cortes de internet para controlar a narrativa, o uso de redes sociais para mobilizar protestos, e a acusação mútua de manipulação informacional, além do uso de violência para desestabilizar o país – revelam uma arena de disputa que vai além das ruas das cidades iranianas e alcança cenários geopolíticos mais amplos.

A resposta muitas vezes violenta do governo e a repressão generalizada, que já resultou em milhares de presos políticos é reportada pelos Estados Unidos e no Ocidente, como ação de um governo opressor de uma ditadura teocrática, enquanto que mortes e tumultos causados por agentes estrangeiros infiltrados no país, são negligenciados em prol de uma narrativa que procura definir o governo iraniano como antidemocrático.

Iraque, Líbia, Síria e agora o recente caso venezuelano com o sequestro do presidente Nicolás Maduro, fornecem exemplos da política de intervenção dos Estados Unidos em regiões de interesse estratégico, onde os norte-americanos desejam controlar recursos e fontes energéticas, entre outros objetivos da política estadunidense.

2.

Agora o Irã é o alvo da vez. Em junho de 2025, na chamada “Guerra dos 12 dias” entre Irã e Israel, mencionada por alguns analistas para descrever um período de escalada intensa de confrontos diretos e indiretos, evidencia a transição de um conflito historicamente encoberto para uma dinâmica mais aberta de confronto regional.

Nesse intervalo, ataques pontuais, operações de retaliação, ações cibernéticas e disputas no campo discursivo revelaram características típicas da guerra híbrida, na qual instrumentos militares convencionais se combinam com inteligência, sabotagem, pressão diplomática e controle da informação. Mais do que um embate limitado no tempo, esse episódio simboliza o aprofundamento do confronto estratégico contra o Irã, a partir dos ataques dos Estados Unidos às usinas nucleares daquele país.

Segundo análises geopolíticas, Washington teria priorizado estratégias indiretas – como sabotagens, ataques cibernéticos, pressão diplomática e sanções – com o objetivo de atrasar o programa nuclear do Irã sem desencadear um conflito aberto de grandes proporções.

No entanto, aparentemente, a questão nuclear iraniana tornou-se um dos principais eixos da disputa estratégica no Oriente Médio, em que a coerção tecnológica, a dissuasão e o controle da narrativa internacional se combinam com ações diretas de intervenção militar, com os Estados Unidos ameaçando o governo iraniano de bombardeios, numa clara tentativa de derrubar o regime.

Uma tarefa que provavelmente exigirá mais do que ações pontuais dos norte-americanos, diante da legitimidade e apoio popular (da maior parte dos iranianos) ao regime, transformando o que começou como um protesto limitado de ordem econômica, em um levante social cujo os cenários de combate são o campo de batalha narrativo e político que se assemelha às características da guerra híbrida: uma luta que ocorre simultaneamente no plano interno e internacional, envolvendo coerção, informação e influência estratégica.

Um verdadeiro tabuleiro geopolítico do Oriente Médio, no qual alianças, dissuasão e mensagens políticas são tão relevantes quanto os danos materiais produzidos no campo de batalha.

*Márcio José Mendonça é doutor em geografia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES). Autor, entre outros livros, de Guerra dos drones: análise e perspectiva do campo de batalha (Editora Dialética).

Referências


Korybko, A. Guerras híbridas: das revoluções coloridas aos golpes. São Paulo: Expressão Popular, 2018.

Seyed M. Marandi: tumultos violentos e uma grande guerra a caminho. Glenn Diesen Português, no Youtube: <https://www.youtube.com/watch?v=hiAszA-k2Ng&list=LL&index=2>.

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